Em meio a polarização, Capriles usa moderação como estratégia

Após derrotas para Chávez e Maduro, nome mais conhecido da oposição se distancia dos protestos de rua

CARACAS , O Estado de S.Paulo

30 de março de 2014 | 02h05

Em uma semana na qual se tratou de um possível diálogo entre oposição e governo na Venezuela, o governador de Miranda, Henrique Capriles, esquivou-se de comentar a condenação de Daniel Ceballos, prefeito de San Cristóbal, e da cassação da deputada María Corina Machado.

Seu silêncio sobre temas políticos, porém, teve significado. Capriles, de 41 anos, é considerado um dos principais líderes da oposição. Em 2012, ele concorreu às eleições presidenciais contra Hugo Chávez e perdeu por uma diferença de 10 pontos porcentuais. No ano passado, foi derrotado por Nicolás Maduro por apenas 1,5 ponto porcentual. Sua primeira reação foi rejeitar o resultado e denunciar irregularidades no processo eleitoral.

No início de fevereiro, resistiu a apoiar os protestos estudantis e da oposição radical contra Maduro. Desde então, tem adotado atitudes ambíguas. Foi considerado um traidor da causa oposicionista pelo líder do Vontade Popular (VP), Leopoldo López, pela deputada María Corina Machado, do Vente Venezuela, e pelo prefeito metropolitano de Caracas, Antonio Ledezma.

Depois da prisão de López, em 18 de fevereiro, ele dividiu o palanque com María Corina e Ledezma. Há duas semanas, em Los Teques, cidade de Miranda, ausentou-se de um comício contra os 30 dias de prisão de López. Quatro dias depois, participou da maior marcha da oposição em Caracas, mas não discursou.

As idas e vindas indicam a sua preocupação em não se conectar com a ala mais radical da oposição. López e María Corina pedem a "saída constitucional" imediata de Maduro - algo que, a rigor, a Constituição não prevê.

Assim como a maioria dos integrantes da frente oposicionista Mesa da Unidade Democrática (MUD), ele não pode ignorar a força do discurso do VP diante da massa de descontentes do país e passar a imagem de ter fraquejado, avalia uma fonte da diplomacia em Caracas.

Capriles se move de acordo com uma equação delicada para não perder o apoio popular já conquistado e para atrair novos descontentes. Com a prisão de López, María Corina assumiu a liderança dos protestos, mas corre igualmente o risco de ser presa. Capriles, obviamente, não quer o mesmo destino e espera se consolidar como um líder mais ponderado.

A ausência de Capriles foi notada também na reunião de líderes da MUD com os chanceleres da Unasul. "Os chanceleres queriam conversar com Capriles, mas não poderiam dizer à MUD quem deveria ou não participar da reunião. Todos eles lamentaram", afirmou um diplomata que acompanhou os encontros. / D.C.M.

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