REUTERS/Mohamed Azakir/File Photo
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Em meio a protestos, primeiro-ministro do Líbano renuncia ao cargo

Em pronunciamento na TV, Saad Hariri diz que deixará o governo em resposta aos milhares de libaneses que foram às ruas contra a classe política em geral; novos impostos como taxação do WhatsApp foi estopim de crise

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2019 | 11h09
Atualizado 29 de outubro de 2019 | 18h25

BEIRUTE - O primeiro-ministro libanês, Saad Hariri, anunciou nesta terça-feira, 29, sua renúncia em meio a uma onda de protestos contra a corrupção da classe política, que levou o Líbano à pior crise econômica desde a guerra civil (1975-1990). A renúncia atende, em parte, às exigências dos manifestantes – que pedem a destituição de todo o governo – e leva o país a uma grande incerteza política. 

Ele pediu que os cidadãos do país mantenham a paz e disse que é responsabilidade de todos os partidos políticos garantir a proteção do país. "Cargos vêm e vão. A dignidade e a segurança do país são mais importantes", afirmou Hariri em pronunciamento exibido pela TV.

"Me dirijo ao Palácio Baabda - residência oficial do presidente do Líbano - para apresentar minha demissão do governo em resposta aos muitos libaneses que foram às ruas", afirmou Hariri, depois de dizer que estava em um beco sem saída.

O anúncio de Hariri foi feito logo depois de apoiadores do grupo xiitas Hezbollah e do partido xiita Amal terem atacado e destruído barracas montadas por manifestantes anti-governo no centro de Beirute. Homens com os rostos cobertos e bastões, além de agredirem os manifestantes, atearam fogo nas barracas. O Exército interveio com bombas de gás lacrimogêneo e tanques.

O confronto entre apoiadores do Hezbollah e manifestantes ocorreu após o líder do grupo, Sayyed Hassan Nasrallah, afirmar na semana passada que as estradas fechadas pelos ativistas deveriam ser reabertas e sugeriu que os atos eram financiados por inimigos estrangeiros.

Na semana passada, o premiê tentou acalmar os animos da população ao propor um pacote de medidas acertado com outros grupos em seu governo de coalizão, entre eles o Hezbollah, para acabar com a corrupção e reformas econômicas atrasadas. Mas, sem medidas imediatas, os manifestantes permaneceram nas ruas.

“Durante 13 dias, o povo libanês esperou uma decisão para uma solução política que acabe com a deterioração (da economia). E eu tentei, durante esse período, encontrar uma saída, ouvindo a voz do povo”, disse Hariri em seu discurso televisionado. “É hora de termos um grande choque para enfrentar a crise”.

O estopim dos protestos foi o anúncio pelo governo de novos impostos que previa, entre outros, taxar chamadas de WhatsApp. As manifestações levaram à escassez de moeda impressa e enfraquecimento da libra libanesa, que há anos tem baixo valor. Bancos ficaram fechados pelo décimo dia consecutivo, assim como escolas e comércios. 

Bancos ficaram fechados pelo décimo dia consecutivo, assim como escolas e comércios. Um mercado paralelo para dólares surgiu no último mês, mesmo o país já tendo uma economia informalmente dolarizada. De acordo com revendedores ilegais, o preço de um dólar está equivalente a 1,8 mil libras libanesas.

 

A renúncia de Hariri desafia o Hezbollah, já que Nasrallah disse duas vezes que era contra a medida, citando o risco de um vazio político perigoso.

É o confronto mais grave nas ruas de Beirute desde 2008, quando militantes do Hezbollah tomaram controle da capital em um breve conflito armado com adversários leais a Hariri.

Contra o sectarismo

Os protestos das últimas semanas no Líbano se destacaram por terem sido os primeiros nos quais manifestantes de diversas religiões se uniram pela mesma causa, contra o sectarismo presente no Parlamento e na alta cúpula do governo libanês, que se instalou após o fim da guerra civil.

Um diplomata brasileiro que vive em Beirute relatou ao Estado que trata-se de um movimento muito heterogêneo, com participantes pobres e ricos, tendo em comum o descontente com a divisão patrimonial do governo, que começa em sua cúpula e segue até às menores autarquias. Como consequência, é quase impossível defender um aspecto de interesse nacional sem desagradar um ou outro grupo, levando a um engessamento do governo. 

A regra para composição do Parlamento libanês é um reflexo da diversidade religiosa da sociedade libanesa. O acordo prevê que metade das cadeiras seja de cristãos, com subdvisiões entre católicos, ortodoxos, protestantes e evangélicos. A outra metade deve pertencer aos muçulmanos, divididos entre sunitas, xiitas, alauitas e druzos. Entre os xiitas, há políticos pertencentes ao grupo Hezbollah, apoiado pelo Irã.

Pela regra, o primeiro-ministro deve ser sunita. Em janeiro, quando Hariri conseguiu formar governo, três ministérios foram entregues a políticos ligados ao Hezbollah. O grupo é integrante da política libanesa e assumiu a proteção das fronteiras do país, que tem um Exército fraco com poucos recursos bélicos. Segundo a Constituição libanesa, o gabinete de Hariri deve ficar sob cargo de uma equipe de transição até que um novo governo seja formado.

Situação dos brasileiros

Com exceção do episódio de hoje, as manifestações têm sido pacíficas, e depois de quase duas semanas, estão institucionalizadas, segundo relatou o diplomata brasileiro. Há uma organização civil para fornecer carona para quem quer ir para os protestos, comida aos participantes e mutirões para limpar as ruas por onde eles passam. 

Ele destaca como outra particularidade do movimento o perfil de uma geração pós-guerra civil que cresceu sem conhecer o ódio um do outro e manifesta hoje seu repúdio a um governo tido por ela como corrupto e inoperante. 

Segundo o diplomata, não há nenhuma orientação especial do governo em Brasília para os brasileiros que residem no país, a não ser o de se manter atento e evitar os locais de tensão. A realidade hoje no Líbano, afirmou, está muito longe da de 2006, quando o governo brasileiro retirou milhares de cidadãos em meio ao conflito com Israel. Segundo o Itamaraty, estima-se que haja mais de 16 mil brasileiros residentes no Líbano. / EFE e REUTERS, COLABOROU RENATA TRANCHES

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