Mohammed Abu Obaid/EFE/EPA
Mohammed Abu Obaid/EFE/EPA

Reprimidos, sudaneses organizam resistência a golpe militar

Uma dinâmica complexa está em jogo: os líderes militares e civis do Sudão têm compartilhado o poder em um arranjo instável, enfraquecido por desconfianças mútuas e desentendimentos

Max Bearak / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

26 de outubro de 2021 | 20h00
Atualizado 27 de outubro de 2021 | 17h26

NAIRÓBI —O chefe das Forças Armadas do Sudão, o tenente-general Abdel Fattah al-Burhan, defendeu nesta terça-feira, 26, a tomada do poder pelos militares, dizendo que ele havia destituído o governo para evitar a guerra civil. Mas manifestantes invadiram as ruas novamente para protestar contra o golpe, um dia após a violenta repressão que deixou pelo menos 7 mortos e mais de 100 feridos. Uma greve geral contra o golpe teve adesão da maioria dos estabelecimentos comerciais de Cartum. 

A tomada militar na segunda-feira interrompeu a transição do Sudão para a democracia, dois anos depois de um levante popular derrubar o autocrata islâmico Omar al-Bashir, que permaneceu 30 anos no poder. Na noite desta terça-feira, o grupo de sindicatos da Associação de Profissionais do Sudão disse haver “relatos de ataques retaliatórios por forças golpistas em locais de concentração de manifestantes” em Cartum e outras cidades. Segundo o grupo, as forças golpistas estavam usando bombas de gás lacrimogêneo e munição de verdade.

Na segunda-feira, manifestantes que por quase três anos vinham tomando as ruas do Sudão pedindo um governo civil em seu país foram acordados por mensagens. O líder civil do governo, Abdalla Hamdok, havia sido detido com sua mulher e quase todo seu gabinete. 

Há uma dinâmica complexa em jogo: os líderes militares e civis do Sudão têm compartilhado o poder em um arranjo instável, enfraquecido por desconfianças mútuas e desentendimentos a respeito de questões fundamentais – em relação, por exemplo, a que pessoas devem ser responsabilizadas pelas décadas de atrocidades cometidas sob a ditadura de Bashir. Outra questão é se os militares devem ter permissão para controlar setores da economia. 

Quando esse castelo de cartas desmoronou, na segunda-feira, qualquer intenção de compartilhar o poder ficou de lado. Os governadores de todos os Estados foram depostos e a Constituição foi substituída por um estado de emergência que concedeu a Burhan, o mais graduado oficial militar do país, poder quase absoluto. 

Em discurso, nesta terça-feira, Burhan afirmou que Hamdok não foi preso, mas estava sob proteção por causa de ameaças à vida dele, e seria nomeado um novo governo, civil e tecnocrata. À noite, uma fonte militar revelou que Hamdok e sua mulher foram levados de volta para casa, mas estavam sob estrita vigilância. 

Burhan não comentou as alegações de que militares mataram manifestantes a tiros. Ativistas e analistas sudaneses concordaram que esses ataques a manifestantes indicam a determinação dos militares de reter o poder. “Entendemos isso como uma maratona”, afirmou o líder comunitário Elbashir Idris, de 26 anos. “O povo sudanês está pronto para resistir. Aprendemos a fazer barricadas, a esvaziar as ruas e depois reaparecer agrupados.” 

Idris e outros afirmaram que protestos em massa já estão planejados para o sábado, que ecoarão a “marcha dos milhões” organizada por movimentos pró-governo civil após episódios de repressão. 

Sob as determinações de um acordo assinado em Juba, no Sudão do Sul, no ano passado, “Burhan constituiu uma série de alternativas viáveis para líderes civis nas periferias do país, de onde vem a maioria dos recursos que alimentam a economia sudanesa”, afirmou Magdi el-Gizouly, analista sudanês do Rift Valley Institute. 

O controle desses recursos é a maneira mais clara de entender o desejo dos militares de evitar que líderes civis ganhem proeminência no governo, o que deveria ocorrer no próximo mês, segundo os termos originais do governo de transição. Seria a primeira vez em décadas que o Sudão teria um governo civil. 

“Os militares tinham muito a temer por abrir mão desse elemento-chave na transição”, escreveu o International Crisis Group após o golpe. “Sob Bashir, os generais passaram a exercer um controle irrestrito sobre setores cruciais da economia, por meio de uma rede de empresas que detém bilhões de dólares em ativos. O governo Hamdok havia buscado retirar esses privilégios, colocando muitas dessas empresas sob administração de civis.”/ W. POST e REUTERS

 TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

Tudo o que sabemos sobre:
Sudão [África]golpe militar

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.