Em meio a tensão com Israel, premiê turco anuncia visita oficial ao Egito

Giro de Recep Tayyip Erdogan inclui Tunísia e Líbia e pretende ampliar relação estratégica da Turquia com países árabes que passaram por revoltas populares; viagem pode incluir passagem por Gaza, o que ampliaria crise com israelenses

, O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2011 | 00h00

ANCARA

O gabinete do primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, informou ontem que ele fará um giro por Egito, Tunísia e Líbia a partir de segunda-feira. A viagem é uma tentativa de aumentar o papel da Turquia na região convulsionada por revoltas populares. No Cairo, Erdogan deve firmar pactos militares e comerciais com o governo egípcio - uma semana depois de romper acordos de defesa com Israel.

Será a primeira visita de um líder turco ao Egito em 15 anos. O ditador Hosni Mubarak, derrubado em fevereiro, via a Turquia com desconfiança e sempre rejeitos os gestos de aproximação de Ancara. O novo governo egípcio, no entanto, parece ansioso para ampliar sua relação econômica e estratégica com os turcos.

Assessores de Erdogan garantem que a viagem não tem nenhuma relação com a crise com Israel. Nos últimos dias, a Turquia expulsou o embaixador de Israel, suspendeu acordos militares entre os dois países e rebaixou a relação bilateral ao nível hierárquico mais baixo na escala diplomática.

A Turquia, que era um dos principais aliados de Israel no Oriente Médio, exige um pedido de desculpas pela morte de nove ativistas turcos em ataque de soldados israelenses, em águas internacionais, quando tentavam levar ajuda humanitária para a Faixa de Gaza, em maio de 2010 - o território é controlado pelo Hamas, grupo islâmico palestino que Tel-Aviv considera terrorista.

Um relatório da ONU sobre a flotilha, divulgado na semana passada, diz que o bloqueio de Israel ao território palestino é legal. A reação dos militares israelenses, mesmo tendo sido recebidos com hostilidade e violência pela tripulação, foi excessiva, mas "justificável", segundo a ONU.

O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, disse que os soldados agiram em "legítima defesa e o país não deve desculpas à Turquia - de acordo com a investigação da ONU, no entanto, cinco dos nove mortos foram atingidos pelas costas. Os israelenses também teriam disparado contra órgãos vitais de sete vítimas múltiplas vezes.

"Israel defende seus interesses e seu governo não pedirá desculpas", reafirmou ontem o ministro israelense dos Transportes, Israel Katz. "Continuaremos o bloqueio marítimo a Gaza para impedir a transferência de armas aos terroristas do Hamas."

O vice-premier israelense, Moshe Yaalon, acusou ontem Erdogan de transformar a Turquia em uma "república islâmica". "Desde que assumiu o poder, ele (Erdogan) decidiu se voltar para o Oriente, em vez do Ocidente. A Turquia deixou de ser uma república secular e virou uma república islâmica."

Apesar de Ancara insistir que a viagem oficial de Erdogan não tem relação com Israel, tem sido difícil evitar a especulação. Há rumores - não confirmados - de que o premiê pretende visitar Gaza e estaria apenas esperando uma autorização do governo egípcio para entrar no território palestino pelo posto fronteiriço de Rafah, ao sul do território palestino.

Otan. Ontem, o secretário-geral da Otan, Anders Fogh Rasmussen, afirmou em Praga que a aliança atlântica não pretende mediar uma solução para o conflito diplomático entre Turquia e Israel. "Não vou me meter. É um assunto bilateral", afirmou Rasmussen. / AP e REUTERS

CRONOLOGIA

Uma relação turbulenta

31 de maio de 2010

Israel ataca frota de ativistas que levavam ajuda para Gaza, matando 9 turcos

4 de junho de 2010

Turquia reduz laços econômicos e militares com Israel, mas relação não é alterada

2 de julho de 2010

Pela primeira vez, Netanyahu diz que "nunca" se desculpará pelo ataque à flotilha

23 de janeiro

Investigação israelense diz que bloqueio a Gaza e ataque à flotilha estavam "de acordo com direito internacional"

11 de fevereiro

Turquia responde com investigação que afirma ter havido uso excessivo de força no ataque por parte de Israel

22 de agosto

Netanyahu insiste que não pedirá desculpas pela ação

1º de setembro

Relatório da ONU, divulgado pelo New York Times, afirma que bloqueio a Gaza é legal, mas que houve força excessiva no ataque israelense

2 de setembro

Turquia rejeita conclusões da ONU, expulsa embaixador israelense e reduz negócios na área de defesa e pactos militares com Israel

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