EFE/EPA/CRISTOBAL HERRERA
EFE/EPA/CRISTOBAL HERRERA

Em meio ao aumento de casos, Flórida tem dificuldade para conter festas

Com a explosão do coronavírus, tentar rastrear os contatos de todos os casos positivos tornou-se irreal na Flórida, especialmente entre os que frequentam festas clandestinas

Patricia Mazzei / The New York Times, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2020 | 11h59

MIAMI -As casas noturnas de Miami, na Flórida, fecharam em março, mas as festas continuaram em mansões à beira-mar, escondidas em exuberantes bairros residenciais como Belle Meade Island. Os participantes chegam em carros esportivos e compartilham caronas várias noites por semana, dizem os vizinhos que viram seguranças profissionais nas portas e compraram fones de ouvido para tentar dormir com a música alta.

De acordo com autoridades sanitárias, as festas que atraem multidões sem máscaras até o nascer do sol têm sido um fator contribuinte para as crescentes infecções por coronavírus na Flórida, um dos pontos de infecção mais preocupantes do país. Já são mais de 200 mil casos confirmados. 

Em Belle Meade, os vizinhos temem que o grande número de pessoas entrando e saindo seja exatamente o que as autoridades de saúde pública não recomendam. "Temos centenas de pessoas entrando nesta ilha", disse Jeri Klemme-Zaiac, enfermeira que mora no bairro há 25 anos. "É assim que isso está se espalhando: as pessoas não têm consideração por mais ninguém."

A cidade de Miami e o Departamento de Polícia de Miami-Dade fecharam uma festa na quarta-feira da semana passada em que cerca de 100 pessoas foram expulsas. Rita Lagace, que mora ao lado e viu os participantes partirem com relutância, acredita que as festividades voltam em breve. 

A busca pelo fim de festas e outras reuniões sociais ganhou nova urgência na região por causa da explosão do coronavírus na Flórida, que registrou mais de 10 mil novos casos no domingo e tem mantido a média nos últimos dias. Os rastreadores de contato do estado, já sobrecarregados, acharam especialmente difícil rastrear como o vírus saltou de um convidado da festa para outro - muitos se recusam a divulgar com quem saíram ou se encontraram.

"Estamos começando a encontrar uma grande quantidade de resposta de pessoas mais jovens quando você telefona para eles e diz: 'Queremos saber todos que estavam na sua festa'", contou Glenn Morris Jr., diretor da Instituto de Patógenos Emergentes da Universidade da Flórida em Gainesville, uma cidade universitária onde autoridades locais pediram aos alunos que parassem com as festas. "Eles têm a sensação de: 'isso não é da sua conta'." 

Os casos da Flórida começaram a subir em junho, cerca de um mês após o início da reabertura econômica do estado. O aumento ocorreu após o Memorial Day e várias semanas de protestos contra a brutalidade policial, embora as autoridades de saúde pública não tenham vinculado publicamente nenhum surto diretamente às praias ou às manifestações. Em vez disso, eles disseram que as pessoas que retomaram suas viagens normais a bares, restaurantes e festas espalharam o vírus.

Dalton Price, um recém-formado que foi contratado para rastrear contatos em Daytona Beach, disse que ele e os outros rastreadores costumavam ter vários casos novos para ligar todos os dias. Agora, eles têm mais de cem, o que reduziu cada entrevista para 10 a 20 minutos - antes era de 30 para 45 minutos. Eles também gastam muito tempo ligando para as pessoas que estão sendo monitoradas quanto à sua exposição, que são chamadas periodicamente para garantir que não tenham desenvolvido sintomas.

O condado de Miami-Dade reuniu equipes de funcionários e os enviou a bairros com a maior concentração de casos: comunidades pobres, com trabalhadores essenciais que moram em casas pequenas, geralmente multigeracionais. Eles carregavam sacolas azuis, cada uma contendo uma máscara reutilizável, garrafas de desinfetante para as mãos e panfletos informativos.

Usando máscaras, luvas e escudos, equipes de trabalhadores se espalharam pelo bairro de Allapattah, em Miami, em uma manhã abrasadora e começaram a bater nas portas. "Depois de três meses?" um homem disse, repreendendo a equipe por não ter aparecido no início da pandemia. "Eu já estaria morto agora!"

A maioria das pessoas, no entanto, ficou agradecida. Narcisa Jirón, 67 anos, correu de seu apartamento no segundo andar para o pátio para pegar sua bolsa e depois pediu uma segunda máscara. "Eu preciso disso assim como de água", disse ela. 

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