Federico PARRA / AFP
Federico PARRA / AFP

Em meio ao caos do coronavírus, venezuelanos tentam evitar beijos e abraços

População do país é acostumada aos cumprimentos calorosos

Esteban Rojas / AFP, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2020 | 13h00

CARACAS - José Antonio Frea caminha por um mercado em Caracas distribuindo máscaras em plena quarentena pelo novo coronavírus. Evita tocar as pessoas, o que não é tão fácil para os venezuelanos, acostumados a cumprimentos calorosos a toda voz com beijos, abraços e tapas.

"Nos custa um pouco", reconhece José Antonio com uma risada, entre as barracas de comida do Mercado de Guaicaipuro, no centro de Caracas. "Ei, meu amor!", grita a uma jovem que trabalha em um quiosque de doces antes de lhe entregar uma das máscaras de pano coloridas que leva em uma bolsa.

Um familiar as fabrica e ele as vende, contou, a "preço de custo" para combater a violenta alta de preços devido à crescente demanda. Ele cobra 30.000 bolívares por unidade, menos de meio dólar, quando as máscaras cirúrgicas nas ruas podem custar dez vezes mais.

A pandemia causou sete mortes na Venezuela, com mais de 150 casos confirmados, segundo dados oficiais. O país cumpre três semanas em quarentena, mas as pessoas podem sair para comprar alimentos, medicamentos e produtos básicos. A escassez de gasolina, no entanto, provoca grandes aglomerações em postos de abastecimento. E é aí que os cumprimentos aparecem. 

José Antonio tenta obedecer: "Tem que ter prevenção" e "deixarmos de nos cumprimentar com a mão", comenta com a AFP.  Entretanto, não é fácil mudar o 'chip'. José acaba tendo um deslize ao se esbarrar com um conhecido e, em um ato de reflexo, os dois apertaram as mãos, mas as soltaram rapidamente quando notaram.

"Existe uma comunicação não verbal que tem a ver com a postura (ao falar), com o toque, com a proximidade que podemos tolerar um com o outro (...) os venezuelanos estão a pouca distância", disse a psicóloga clínica e social Yorelis Acosta. Talvez por esse motivo, o distanciamento social de María de Abreu lhe trouxe pequenos problemas diários.

"É para o bem de todos, mas custa, porque somos calorosos, amando e cuidando das pessoas", diz María ao sair de uma padaria em Caracas, relatando que alguns amigos não gostaram muito do tratamento seco que dispensou a eles. "Todas as nossas vidas temos sido assim: 'Oh, não, como você está? Um abraço'", acrescenta, rindo, usando uma máscara caseira.

"É claro que cortar elementos culturais vai nos custar e vamos sempre, em um primeiro momento, tender a agarrar o outro, porque não nos conformamos com apertar as mãos, também nos abraçamos... e nos apertamos. E, quando conversamos, estamos tocando o interlocutor", expressa Acosta, pesquisadora do Centro de Estudos de Desenvolvimento da Universidade Central da Venezuela (UCV). No entanto, é possível. É uma questão de ter "uma compreensão do que está acontecendo conosco".

Daniel Cabral não está indo mal. "Eu já sou puro cotovelo", diz p homem de 43 anos, pai de dois filhos, que vende frango em outro mercado de Caracas. Mantém os clientes afastados: "Ei, chefe, lá em cima". - "Não seja beijado por ninguém!" -

O presidente Nicolás Maduro se juntou à campanha contra a "besuqueadera", a mania nacional venezuelana de dar beijos. "De nosso costume de dar beijos, beijar e abraçar, vamos deixar para depois", disse ele na televisão. Seu governo recomenda cumprimentos alternativos: "o militar", com a mão na testa; "o apache", com a mão estendida mostrando a palma; ou "o roqueiro", com o indicador e mindinho estendidos e os dedos médio e anular fechados junto ao polegar.

O ministro da cultura, Ernesto Villegas, é franco: "Não deixe ninguém te beijar!" Uma mensagem transmitida na mídia social pela Universidade das Artes se juntou à campanha. "Os abraços retornam, os beijos são dados com calma. Se você encontrar um amigo, cumprimente-o com a alma", diz um cartaz que cita o cantor e compositor uruguaio Jorge Drexler.

Maria espera que "um dia" a pandemia termine, querendo distribuir beijos e abraços novamente entre a família e os amigos. "Não podemos perder isso."

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