Ronen Zvulun/Reuters
Ronen Zvulun/Reuters

Em meio ao tiroteio, inimigos de Netanyahu veem chances – e riscos

Políticos israelenses costumam se unir em torno do governo durante uma crise; desta vez, oposição quebra o silêncio e faz críticas diretas ao premiê

Isabel Kershner, The New York Times

12 de maio de 2021 | 22h56

JERUSALÉM – Quando as armas estão falando, a luta política interna de Israel normalmente é suspensa. Quando o país está à beira da guerra, a oposição geralmente se concentra em torno do governo. Não desta vez.

Enquanto o conflito com palestinos causava mais mortes e destruição nesta quarta-feira, 12, e com a intensa onda de violência sectária árabe-judaica abalando cidades dentro de Israel, o principal oponente de Binyamin Netanyahu, Yair Lapid, culpou o primeiro-ministro pela crescente sensação de caos e disse estar trabalhando para tirá-lo do cargo.

Lapid, o líder centrista da oposição, disse que os eventos da última semana “não podem ser desculpa para manter Netanyahu e seu governo no lugar. Muito pelo contrário. Eles são exatamente o motivo pelo qual ele deve ser substituído o mais rápido possível”. A declaração foi feita em um comunicado divulgado no Facebook.

A crise crescente, na qual dezenas de pessoas morreram em ataques aéreos, chegou em um momento crucial na política israelense.

Há poucos dias, Netanyahu, que está sendo julgado por acusações de corrupção e não conseguiu formar um governo após quatro eleições em dois anos, parecia à beira de perder o poder após 12 anos consecutivos no cargo.

Lapid tem a chance de tentar formar uma coalizão que possa comandar uma maioria em um voto de confiança do Parlamento. Seus potenciais parceiros de coalizão são um grupo heterogêneo de pequenos partidos com agendas e ideologias conflitantes, e seu prazo para concluir a tarefa termina em 2 de junho. 

O derramamento de sangue torna a situação de Lapid mais fácil e mais difícil.

Os detratores de Netanyahu agora têm mais motivos para tirá-lo do poder, considerando negligência e falhas que levaram à crise atual.

Mas, ao mesmo tempo, dizem os analistas, a violência ressaltou as diferenças fundamentais entre os partidos do campo anti-Netanyahu, que abrangem o espectro político da esquerda à direita. E o ímpeto inicial das negociações da coalizão alternativa foi retardado pelo surto de violência, dando aos apoiadores de Netanyahu mais tempo para sabotá-los.

“É muito difícil negociar enquanto foguetes estão sendo disparados e o relógio está correndo”, disse o professor de ciência política da Universidade Hebraica de Jerusalém Reuven Hazan. “As negociações que eram difíceis o suficiente no início estão ficando mais complicadas, o que joga a favor de Netanyahu.”

Uma das chaves para uma possível coalizão anti-Netanyahu é mantida por Mansour Abbas, o líder de um pequeno partido islâmico árabe conhecido como Raam, que atualmente mantém o equilíbrio no Parlamento.

Historicamente, os partidos árabes desempenharam um papel marginal na política israelense. Os principais partidos do governo relutam em confiar nos votos árabes no Parlamento, principalmente graças ao foco de Israel nas questões de segurança em uma região hostil e volátil. E os legisladores árabes não estão ansiosos para participar dos governos e compartilhar a responsabilidade pelas ações militares de Israel e pela ocupação da Cisjordânia.

Abbas planejou mudar tudo isso. Depois que as negociações com Netanyahu fracassaram, ele passou a cooperar com Lapid. Então, enquanto as tensões religiosas e nacionalistas atingiam o pico em Jerusalém na semana passada, culminando no conflito militar, Abbas suspendeu formalmente a participação do Raam nas negociações da coalizão, mas não descartou apoiar um governo alternativo, em troca de benefícios para a minoria árabe de Israel, que representa cerca de um quinto da população.

“Depois que o incêndio diminuir, não haverá escolha a não ser retornar às negociações políticas para formar um governo”, disse Abbas na quarta-feira em uma entrevista na rádio pública israelense. “Temos uma oportunidade real de cumprir um papel importante na política israelense para a nossa sociedade.”

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Muitos analistas acreditam que a violência crescente entre israelenses e palestinos, e árabes e judeus, criará novos obstáculos ao envolvimento de Abbas em uma coalizão. Seu apoio a um governo que inclui israelenses de direita se tornaria um problema para grande parte de seu eleitorado, e o flanco de direita do campo anti-Netanyahu seria duramente pressionado, nesta atmosfera altamente carregada, para formar um governo que dependa do apoio árabe e aceitar a lista de concessões impostas por Abbas para ingressar na coalização.

“Se as ideologias opostas significavam que eles tinham uma mão amarrada nas costas, agora eles têm duas mãos amarradas nas costas”, afirma Hazan sobre os vários partidos que tentam encontrar uma maneira de trabalhar juntos para derrubar Netanyahu.

Mohammad Darawshe, do Centro para Igualdade e Sociedade Compartilhada, uma organização que promove as relações árabes-judaicas, disse que a tendência entre os partidos árabes era "por um novo engajamento político". Mas quanto mais as negociações da coalizão se arrastam e quanto pior se torna a violência, mais a discórdia entre os flancos esquerdo, direito e árabe do bloco anti-Netanyahu tende a aumentar, disse ele.“A polarização está crescendo não só entre os políticos, mas também entre suas bases”, afirmou.

À medida que o conflito se intensifica, Netanyahu tenta projetar confiança e dissipar a noção de que seu domínio do poder está se desintegrando.

“Se alguém pensava que não haveria uma liderança unida, forte e enérgica aqui por causa de alguma consideração ou outra, estava errado”, disse ele durante uma visita na quarta-feira ao Acre, uma cidade mista árabe-judia no norte de Israel, onde algumas das piores violências étnicas aconteceram. “Estamos aqui”, disse ele. “Estamos trabalhando com todas as nossas forças para proteger Israel de inimigos de fora e de rebeldes de dentro.”

A crise pode ajudar Netanyahu a vencer oponentes que prometeram durante a campanha eleitoral não entrar em um governo liderado por ele, afirma Mitchell Barak, um pesquisador e analista político baseado em Jerusalém.

“Netanyahu está exatamente onde quer estar, no meio de uma grande crise em que você não quer mudar o primeiro-ministro ou o ministro da defesa”, disse Barak.

“Nenhum partido político ou político será responsabilizado agora por qualquer promessa de campanha devido à situação”, acrescentou Barak. “Tudo está em aberto.”

Um dos principais rivais de Netanyahu, Benny Gantz, ministro da Defesa no governo provisório e elemento-chave para qualquer coalizão alternativa em potencial, está atualmente ocupado supervisionando a campanha militar em Gaza em estreita coordenação com Netanyahu, seu inimigo de longa data.

Alguns analistas especularam que a emergência poderia ajudar Netanyahu a persuadir Gantz a permanecer ao seu lado e, em última instância, ajudá-lo a mantê-lo no cargo.

Sob os termos do acordo de coalizão alcançado pelos dois no ano passado, durante a crise pandêmica, Gantz deveria assumir o cargo de primeiro-ministro em novembro. Esse acordo desmoronou devido a uma crise orçamentária, levando à eleição em março, mas sua coalizão permanece como um governo interino.

“Eles têm que administrar uma guerra juntos quando não puderam cumprir um acordo de coalizão ou chegar a um acordo sobre um orçamento”, disse Dahlia Scheindlin, consultora política e pesquisadora de Tel Aviv. Mas acrescentou: “Quanto mais perto chegarmos de uma guerra total, mais fácil será argumentar que você não pode mudar um governo no meio da guerra”.

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