Em meio às ameaças, Pyongyang leva reformista de volta ao posto de premiê

Tambores de guerra. Autoridades da Coreia do Sul advertem que suas Forças Armadas responderão 'de maneira forte e imediata' a um eventual ataque do país vizinho; primeiro-ministro norte-coreano nomeado ontem tinha sido removido do mesmo cargo em 2007

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2013 | 02h07

Depois de anunciar que a economia e a obtenção de armas nucleares são as duas prioridades do país, a Coreia do Norte nomeou ontem um reformista para o cargo de primeiro-ministro. Pak Pong-ju havia ocupado a mesma função em 2007, mas foi afastado depois de propor mudanças no sistema de salários consideradas de inspiração "capitalista".

Sua indicação ocorre em meio ao agravamento da tensão na Península Coreana, com a exibição de poderio militar no Sul e o aumento das ameaças no Norte.

Ontem, a presidente da Coreia do Sul, Park Geun-hye, deu carta-branca ao Exército e determinou que os militares reajam de maneira forte e imediata a eventuais ataques de Pyongyang, sem considerações de natureza política. "Na condição de comandante-chefe das Forças Armadas, eu confio no julgamento do Exército diante de provocações inesperadas e abruptas da Coreia do Norte", afirmou. "Por favor, cumpram seu dever de defender a segurança da população sem se distrair nem um pouco."

A elevação da economia ao mesmo patamar de importância do programa nuclear e a nomeação de Pak para o cargo de primeiro-ministro são indícios de que Kim Jong-un pode abrir espaço a outras preocupações na doutrina que coloca o investimento militar acima de qualquer setor.

Batizada de "Exército em primeiro lugar", a política foi criada pelo pai do líder, Kim Jong-il, que morreu em dezembro de 2011. Analistas estimam que os investimentos militares representam entre 25% e 30% dos gastos do país, o que drena recursos que poderiam ir para investimentos.

A Coreia do Norte enfrenta falta crônica de energia e tem uma indústria sucateada, que opera num ambiente fechado e centralizado. A situação é agravada pelas sanções econômicas impostas pelo Conselho de Segurança da ONU, em resposta aos três testes nucleares realizados pelo país desde 2006, o mais recente dos quais no dia 12 de fevereiro.

Até agora, o país tem resistido a adotar reformas econômicas que tolerem movimentos do mercado, apesar da pressão da China, principal aliada do regime. Pequim gostaria que Pyongyang trilhasse caminho semelhante ao que levou à abertura e reforma de sua economia desde 1978, mas é pouco provável que isso ocorra. Qualquer mudança na Coreia do Norte deverá ser gradual e limitada, já que o país enfrenta a "concorrência" do modelo capitalista bem-sucedido abaixo do Paralelo 38, que divide a península.

No sábado, a Coreia do Norte anunciou que está em "estado de guerra" com o Sul, na mais recente de uma sucessão de ameaças quase diárias desde o início de março. Pyongyang intensificou a retórica bélica em razão de exercícios militares conjuntos de EUA e Coreia do Sul e da ameaça de novas sanções da ONU.

Os americanos enviaram no domingo caças F-22 para participar da operação do Sul, que o regime de Kim Jong-un vê como um ensaio para a invasão do país por seus antigos adversários.

No começo de março, Pyongyang anunciou o abandono do armistício que pôs fim ao confronto e de todos os tratados de não agressão firmados com Seul. Tecnicamente, os envolvidos no conflitos continuam em guerra, já que o confronto não terminou com um acordo de paz, mas sim com um armistício.

A Coreia do Norte também ameaçou realizar ataques militares preventivos contra os EUA e a Coreia do Sul. Ontem à noite, um funcionário do Departamento de Defesa americano afirmou que o USS McCain, navio de guerra antimísseis balísticos, era posicionado na costa sudoeste da Península Coreana.

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