Em memórias, Musharraf conta como foi o ultimato americano

O presidente do Paquistão, general Pervez Musharraf, afirmou em suas memórias lançadas nesta segunda-feira que deixou de apoiar o Taleban e se integrou na guerra contra o terrorismo dos Estados Unidos porque se não o fizesse teria de enfrentar um "forte ataque" americano e uma possível incursão da Índia na Caxemira respaldada por Washington.Musharraf, no livro intitulado "Na linha de fogo", também criticou a invasão americana do Iraque por ter tornado o mundo "mais perigoso" e condenou o "pai" do programa nuclear do Paquistão, A.Q. Khan, por ter vendido equipamentos e segredos atômicos para o Irã, Coréia do Norte e Líbia. "Ninguém podia imaginar quão irresponsável e negligente ele poderia ser", escreveu. Milhares de cópias do livro chegaram nesta segunda-feira às livrarias do Paquistão, assim como dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Índia. O lançamento é uma raridade, já que poucos chefes de Estado publicaram suas memórias enquanto no poder.Musharraf, atualmente em visita aos EUA, admitiu que o Paquistão, Estados Unidos e Arábia Saudita criaram um "monstro" ao apoiar a jihad islâmica, inclusive Osama bin Laden, contra a União Soviética durante sua ocupação do Afeganistão, de 1979 a 1989."Demos assistência à emergência do Taleban depois que a União Soviética retirou-se do Afeganistão, que foi então insensivelmente abandonado pelos Estados Unidos", escreveu Musharraf.Foi nesse vácuo que Bin Laden e sua rede terrorista Al-Qaeda fortaleceram-se, com a ajuda do líder do Taleban, mulá Omar, acrescentou.O Paquistão inicialmente viu o Taleban como um meio para acabar com a crescente violência no Afeganistão, que atingiu seu pico durante a guerra civil de 1992 a 1996, disse Musharraf. O Paquistão também precisava do Taleban para se contrapor à Aliança do Norte - a outra facção no conflito afegão - que era apoiada pela arqui-rival Índia. Mas depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, Musharraf percebeu que se mantivesse o apoio ao Taleban e às redes militantes, o Paquistão entraria em rota de colisão com Washington."Os EUA estavam prontos para agir violentamente, como um urso ferido", segundo Musharraf. "Se o perpetrador viesse a ser a Al-Qaeda, então o urso ferido viria direto em nossa direção".Em 12 de setembro, o então secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, telefonou ao líder paquistanês para passar um ultimato: "Ou você está conosco ou contra nós", lembrou Musharraf.No dia seguinte, o vice de Powell, Richard Armitage, telefonou para o chefe da inteligência do Paquistão e deu um recado ainda mais explícito: "No que deve ter sido a declaração mais não diplomática já feita, Armitage (...) disse ao diretor-geral (da inteligência) que tínhamos de decidir se estávamos com os EUA ou com os terroristas, mas se escolhêssemos os terroristas, então deveríamos estar preparados para sermos bombardeados até retrocedermos à Idade da Pedra", contou Musharraf.Na semana passada, Armitage negou ter feito tal ameaça, mas admitiu ter dado uma dura advertência ao governo paquistanês.Pesando as opções Musharraf disse que chegou a pesar as opções, e até mesmo imaginou como poderia resistir a um ataque dos EUA, mas acabou percebendo que seria impossível, dadas as debilidades econômicas e militares do Paquistão, confrontar um "assalto maciço" americano.O presidente paquistanês também temeu que os EUA recorressem à Índia - com quem o Paquistão travou três guerras desde a independência dos dois países frente à Grã-Bretanha em 1947, duas delas pela disputada região da Caxemira."Os indianos poderiam ser tentados a promover uma ofensiva limitada lá; ou mais provável eles trabalhariam com os EUA e as Nações Unidas para transformar a atual situação (de uma Caxemira dividida) num status quo permanente", escreveu Musharraf. "Os Estados Unidos certamente teriam favorecido a ação"."Não é segredo que os Estados Unidos nunca ficaram confortáveis com um país muçulmanos obtendo armas nucleares e os americanos, sem dúvida, aproveitariam a oportunidade de uma invasão para destruir tais armas", acrescentou.Sem opções, Musharraf rompeu laços com o Taleban, mesmo correndo o risco de enfrentar uma forte reação de radicais islâmicos no Paquistão."Por que colocaríamos nossos interesses nacionais na linha de tiro por um regime primitivo que seria derrotado?" questionou. "Interesse próprio e autopreservação são as bases dessa decisão".Mas Musharraf discordou da avaliação do presidente dos EUA, George W. Bush, de que o mundo ficou mais seguro após a invasão americana do Iraque. Ele lembrou ter se oposto à guerra porque "temia que ela iria exacerbar o extremismo, como quase certamente o fez... O mundo tornou-se um lugar muito mais perigoso".Musharraf admitiu que a Al-Qaeda e o Taleban ainda operam no Paquistão, mas garantiu não saber do paradeiro de Bin Laden."Se fosse para supor, diria que ele está indo e voltando em algum ponto da fronteira do Paquistão com o Afeganistão".Musharraf deve se encontrar na quarta-feira na Casa Branca com Bush e o presidente afegão, Hamid Karzai.

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