Sai Aung Main/ AFP
Sai Aung Main/ AFP

Em Mianmar, advogado de Prêmio Nobel vira esperança da democracia

Mudando de residência todas as noites para não ser preso, Khin Maung Zaw defenderá líder civil Aung San Suu Kyi em julgamento definirá se país 'se tornará escravo do Exército'

Dene-Hern Chen, AFP

23 de fevereiro de 2021 | 11h23

BANGCOC - Encarregado da defesa de Aung San Suu Kyi, ele muda de residência todas as noites para evitar o risco de ser preso. Para Khin Maung Zaw, advogado da líder civil presa desde o golpe militar que tomou o poder em Mianmar, o julgamento da ex-chefe do governo será uma oportunidade para ver se o povo de seu país será livre ou "escravo" do Exército.

Três semanas atrás, em plena madrugada, soldados invadiram a casa de Aung San Suu Kyi e a colocaram em prisão domiciliar, encerrando abruptamente uma experiência democrática de 10 anos. A cliente de Khin Maung Zaw, vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 1991, está presa desde então e enfrenta acusações esdrúxulas, incluindo posse ilegal de walkie talkies e violação das restrições ao coronavírus.

"Mianmar está em um momento crucial de sua história", disse Maung Zaw à AFP por telefone de Naypyidaw, a capital administrativa de Mianmar. "Se perdermos, nos tornaremos escravos da junta militar por 40 ou 50 anos. Devemos vencer esta batalha".

Apesar dos vários pedidos, ele ainda não teve permissão para ver sua cliente antes da audiência, que será realizada em 1º de março. "Se eu não conseguir permissão para me encontrar com ela antes da audiência, vou fazer o mundo inteiro saber que o julgamento não é justo", avisa.

Além de defender sua cliente em um julgamento que está intimamente ligado à retomada da democracia no país, o advogado tem que se dividir com preocupações mais pragmáticas e reforçar suas próprias medidas de segurança devido à pressão da junta militar. "À noite, tenho que dormir na casa de amigos".

Nove anos atrás das grades

Khin nasceu em 1948 em Pyinmana, cidade que hoje fica nos arredores da capital construída pelos militares do zero no meio da selva, Naypyidaw. Aos 17 anos ele foi preso pela primeira, por protestar contra a então ditadura e distribuir a Declaração Universal dos Direitos Humanos no campus da Universidade de Mandalay. Ele diz estar acostumado com as ameaças dos regimes militares. 

Preso, ele foi enviado para a temida prisão das Ilhas Cocos, a 400 quilômetros da costa birmanesa no Mar de Andaman, "o equivalente a um gulag", que já foi destruída.

Libertado em 1972, foi preso novamente três anos depois por se juntar aos protestos estudantis. Passou um total de nove anos atrás das grades.

Desde o golpe de Estado de 1º de fevereiro, as autoridades intensificaram o uso da força para conter a campanha massiva de desobediência civil que está varrendo o país. Khin Maung Zaw está surpreso com o dinamismo dos manifestantes, mas teme por sua segurança. Quatro deles já morreram desde o início do movimento.

"A faísca se acendeu e as chamas se espalharam", explica ele. E completa: "No passado, quando o Exército se sentiu oprimido, foi capaz de tudo".

Seu último caso de destaque foi a defesa dos jornalistas da Reuters Wa Lone e Kyaw Soe Oo. Ambos passaram quase 18 meses na prisão por revelar as atrocidades cometidas contra a minoria rohingya.

Este caso o afastou do governo de Aung San Suu Kyi, que defendeu os ataques do Exército e até chamou os jornalistas de "traidores", segundo um diplomata americano.

No entanto, Khin Maung Zaw diz que deixou de lado as divergências "pessoais" ao ver que os esforços constantes da Prêmio Nobel da Paz para impedir o retorno do regime militar foram infrutíferos.

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