Kerem Yucel / AFP
Kerem Yucel / AFP

Em Minneapolis, violência e apelos por justiça se misturam em protestos

Manifestantes incendiaram uma delegacia de polícia e saquearam lojas por causa da morte de um homem negro por um policial branco

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2020 | 09h09

MINNEAPOLIS - “Diga o nome dele!” os manifestantes cantaram na noite de quinta-feira, enquanto policiais usando equipamento anti-motim abaixavam as máscaras faciais e seguravam os bastões, preparando-se para avançar em direção à multidão. "George Floyd.!"

Milhares de manifestantes invadiram as ruas do centro de Minneapolis e manifestações se espalharam pelas redondezas na quinta-feira, com prédios em chamas - incluindo os escritórios de um departamento de polícia - e violentos confrontos com a polícia. 

Os protestos, agora em seu terceiro dia após a morte de George Floyd, um homem negro de 48 anos, sufocado por um policial branco durante uma abordagem policial, mostrou sinais de intensificação e de violência. Os pedidos de justiça se transformaram em ataques a um departamento de polícia que há muito tempo é acusado de racismo contra os afro-americanos da cidade.

No fim da noite de quinta-feira, 28, manifestantes invandiram a 3ª Delegacia de Polícia de Minneapolis e puseram fogo no prédio. A polícia disse em comunicado que "os manifestantes entraram à força no prédio e fizeram vários focos de incêndios".As manifestações, amplamente pacíficas até a quarta-feira, 28, estavam contidas a um bairro na parte sul da cidade, mas na quinta-feira os manifestantes se reuniram na vizinha St. Paul, onde as reuniões foram acompanhadas de saques e vandalismo. 

No fim do dia, os manifestantes entraram em choque com a polícia repetidamente, enquanto alguns na multidão dispararam fogos de artifício e projéteis contra as fileiras de policiais. O governador democrata Tim Walz pediu ajuda à Guarda Nacional para ajudar as autoridades locais a recuperar o controle.Caminhando por uma avenida em Minneapolis, Michael McDowell disse que as multidões reunidas para protestar contra a morte de Floyd é formada pelas pessoas que não eram ouvidas.

Sem camisa e com uma máscara branca, McDowell, ativista e fundador do Black Lives Matter Minneapolis, evocou Martin Luther King Jr. ao notar como os distúrbios que se espalharam pela cidade são uma resposta natural à morte de Floyd.

"Há pessoas reagindo a um sistema violento", disse McDowell. "Você pode substituir propriedades, você pode substituir empresas, você pode substituir coisas materiais, mas você não pode substituir uma vida. Esse homem se foi para sempre, porque um policial sentiu que tinha o direito de tirar a sua vida. Muita gente está cansada disso. Eles não vão mais aguentar."

Por isso, ele disse: "Minneapolis está queimando". Refletindo sobre as imagens e cenas violentas que saíram de Minneapolis nesta semana, McDowell disse que não havia como controlar uma comunidade reagindo à violência como eles viram no vídeo dos momentos finais de Floyd, comparando o que está acotnecendo a “um levante.”

  "Não acho que as pessoas estejam sendo tão violentas quanto o sistema tem sido em relação a elas", disse ele.

Grande parte da cidade acordou com céu esfumaçado na sexta-feira, enquanto os incêndios continuavam em pelo menos meia dúzia de prédios incendiados durante protestos matinais perto de um prédio da polícia em Minneapolis, não muito longe de onde Floyd foi filmado, sufocado, implorando por ar, enquanto um policial apoiava seu peso sobre o joelho na garganta de Floyd.  

Mercearias foram saqueadas e incendiadas; um edifício de vários andares em construção para novas moradias populares foi destruído; e vários quarteirões de empresas foram danificados. 

A cena caótica deixou algumas autoridades da cidade aos prantos, e pedindo paz. “Vocês têm tem todo o direito de ficarem bravos, chateados, de expressar sua raiva”, disse Andrea Jenkins, legisladora do Conselho da Cidade de Minneapolis que representa a área, em entrevista coletiva na prefeitura. “Mas vocês não têm o direito de perpetrar violência e danos nas próprias comunidades pelas quais vocês afirmam estar lutando." Jenkins, que é negra e pediu à cidade que declare o racismo uma emergência de saúde pública, cantou versos de “Amazing Grace”, um hino cristão do século XVII que se tornou o símbolo da luta por igualdade racial nos Estados Unidos  

A tentativa de Jenkins de prestar homenagem a Floyd e incentivar a calma não funcionou. A alguns quilômetros de distância, na vizinha St. Paul, nuvens de gás lacrimogêneo já estavam subindo no ar, quando a polícia entrou em confronto com saqueadores que estavam invadindo uma loja.

Na sede do governo do Estado de Minnesota à distância, os lojistas se esforçavam para proteger seus negócios. Com a fumaça subindo de um incêndio à distância, os trabalhadores subiam as escadas, pendurando compensados nas janelas para proteger as vidraças, enquanto carros da polícia, com sirenes tocando, passavam por eles. 

Dezenas de empresas colocaram placas simples e artesanais nas portas, implorando para serem poupadas da fúria. “Este é um pequeno negócio de propriedade de negros americanos”, dizia uma das placas deles. "Este é um negócio de propriedade da comunidade", estava escrito em outro. Muitas lojas estavam fechadas, mas alguns proprietários permaneceram, em guarda, porque não confiavam que alguém mais faria isso por eles.

Em um posto de gasolina, um homem afro-americano se preparava para defender sua loja com seus funcionários e amigos. "Queremos que a paz prevaleça, mas as tensões estão aumentando agora", disse o homem, recusando-se a dar seu nome por medo de retaliação. "A dor e as coisas que as pessoas estão sentindo agora estão enraizadas há anos".

Ao seu lado estava um de seus amigos mais antigos, que estava lá de guarda com ele. “Isso não é raiva, é dor”, disse. “Esse é o tipo de coisa que precisamos abordar na comunidade negra. Eles precisam parar a brutalidade contra os negros. Esse tipo de coisa vem acontecendo há muito tempo. Nossos congressistas não estão ouvindo. Temos pobreza, dependência de drogas, mas eles não querem nos ajudar em nossa comunidade. Infelizmente, não sabemos como apontar nossa dor nas direções adequadas, por isso fazemos isso.”

Na rua, a polícia estava lutando para conter a cena enquanto saqueadores quebravam janelas em lojas e restaurantes locais. Eles atiraram fogos de artifício e arremessaram tijolos pelas janelas dos carros da polícia. A alguns quarteirões de distância, uma densa fumaça negra saía de uma loja de autopeças que estava aberta.

A quilômetros de distância, no centro de Minneapolis, o cenário ficou mais calmo quando milhares de pessoas se reuniram nas ruas perto da prefeitura para pedir a prisão dos quatro policiais que estavam no local da morte de Floyd.

"Se o assassinato está em um vídeo para todos verem, por que os assassinos não estão na prisão agora?" Michelle Gross, ativista afiliada ao grupo local Cidadãos Unidos Contra a Brutalidade Policial, declarou, atraindo aplausos da multidão. 

Ela apontou um dedo para a prefeitura, que, segundo ela, provocou os tumultos ao não tratar de questões de racismo e má conduta do departamento de polícia. “Os incêndios desta noite pertencem completa e diretamente às pessoas de lá", disse ela.

Mais tarde, os manifestantes tentaram parar o tráfego na principal rodovia que chega à cidade, enquanto outros entraram em choque com a polícia à sombra do famoso mural de Bob Dylan na cidade, perto da Hennepin Avenue, no centro.

 "Sem justiça, sem paz", eles cantaram. "Vamos processar a polícia." Pouco antes da meia-noite no Nicollet Mall, um shopping no centro de Minneapolis, Shelby Flannery, que é branca, disse que a solidariedade a levou aos protestos.

"Você precisa fazer parte da reação para encontrar mudanças", disse ela, observando que acredita que todos deveriam ficar bravos com a violência policial. "É preciso ter valores alinhados com o bem, não com o mal". / The Washington Post 

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