Em Misrata, 'dinheiro de Kadafi' é recusado no comércio

Todas as notas em circulação são emitidas pelo governo líbio, mas modelos mais antigos são rejeitados na cidade

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2011 | 00h00

MISRATA

O comércio de Misrata está deixando de fazer negócios com visitantes de outras partes da própria Líbia por orgulho. Cercados durante quatro meses na mais violenta e cruel operação militar realizada pelas forças de Muamar Kadafi, os rebeldes da cidade - na prática, toda a população - não aceitam mais notas de dinares líbios que são identificadas com o regime.

A situação é estranha, porque todas as notas de dinares líbios em circulação no país foram emitidas pelas autoridades monetárias nomeadas pelo ex-ditador. Ocorre que os modelos mais antigos de cédulas, de um tamanho maior do que as mais recentes, são identificados pela população como sendo as "notas de Kadafi".

Além de recusarem as notas maiores, os comerciantes fazem gestos de reprovação, alguns bastante irritados. "Esse dinheiro é de Kadafi. Aqui em Misrata ninguém aceita essas notas", explicou ao Estado um vendedor ambulante que oferecia bugigangas com as cores da bandeira rebelde - vermelho, preto e verde.

No tempo em que o Estado permaneceu na cidade, o contratempo se mostrou mais grave do que o imaginado. O hotel não pôde ser pago com as notas líbias "de Trípoli". Nem refeições nem água. "Mas o que é isso? Como assim esse dinheiro não é Líbio?", se assustou Khaled Medhat, morador de Trípoli de passagem por Misrata.

Vida normal. Apesar da recusa das "notas de Kadafi", o comércio e os serviços de Misrata - a terceira maior cidade da Líbia - começam a retornar ao normal depois do cerco que matou mais de mil pessoas.

A Rua Trípoli, a principal da cidade, foi destruída pela guerra e a maioria de seus prédios terá de ser demolida. Em outras ruas menos importantes, porém, o comércio está na ativa e fortalecido pela procura de produtos por moradores de outras regiões do país.

A embaixada da França anunciou ontem a reabertura de suas atividades em Trípoli. Fechada no início da revolução, a representação diplomática foi reaberta durante o conflito em Benghazi, segunda cidade do país, onde assessorou os contatos com o Conselho Nacional de Transição (CNT).

O grupo é liderado por Pierre Seillan, vice de Antoine Sivan, enviado francês à cidade de Benghazi. Paris havia fechado sua embaixada em Trípoli em 26 de fevereiro, quando retirou todos seus funcionários do país por questões de segurança.

Reconhecimento. O governo do presidente Nicolas Sarkozy pressionou o Conselho de Segurança da ONU pela aprovação das resoluções que abriram espaço ao bombardeio da Otan e foi também o primeiro a reconhecer o CNT como representante diplomático oficial da Líbia, em detrimento de Muamar Kadafi. Por essa razão, os franceses são recebidos com grande apoio popular pelos rebeldes em diferentes cidades do país. / A.N.

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