Em Moscou, ministro sírio fala pela 1ª vez em possível renúncia de Assad

Depois de quase 18 meses de violência e 23 mil mortes, segundo a oposição síria, o regime de Damasco abriu ontem a porta para uma eventual renúncia do ditador Bashar Assad. Em encontro com o chanceler russo, Sergei Lavrov, em Moscou, o vice-premiê e ministro da Economia, Qadri Jamil, falou pela primeira vez na possibilidade de Assad deixar o poder, após um processo de negociação com os rebeldes.

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2012 | 03h03

Em Paris, o Conselho Nacional Sírio (CNS) reagiu com ceticismo à proposta e disse esperar "ações reais" de Damasco, condicionando qualquer diálogo à mudança na cúpula do governo sírio.

Admitindo abrir negociações com os oposicionistas, o ministro de Assad afirmou: "Nós podemos estudar todas as questões e estamos prontos a discutir até mesmo essa questão", disse ele, referindo-se a uma renúncia. Jamil, porém, rejeitou a exigência dos rebeldes de que, antes de qualquer negociação, Assad deixe o poder. "A demissão como precondição para abrir um diálogo significa que é impossível abrir o diálogo."

O ministro teria sido convidado a visitar Moscou - pela terceira vez nas últimas semanas - para debater a proposta de antecipação das eleições presidenciais na Síria, previstas para 2014. A oferta do regime seria realizar uma disputa multipartidária, com participação dos insurgentes, mas também de Assad. A eleição seria realizada sob supervisão internacional.

Nos bastidores diplomáticos, os Estados Unidos, a França, a Grã-Bretanha, além de países da região que apoiam a rebelião - como Turquia, Catar e Arábia Saudita -, indicaram que não aceitariam a participação do ditador em uma eleição.

Enquanto em Moscou o regime abria a porta de uma eventual negociação, em Paris a oposição, reunida em torno do CNS, descartou qualquer possibilidade de diálogo enquanto Assad estiver no poder. Após um encontro no Palácio do Eliseu com o presidente da França, François Hollande, Burhan Ghalion, ex-presidente do conselho e um dos porta-vozes do movimento, foi categórico: "Não vamos negociar sua saída. Ele deve sair, ponto final", afirmou.

"Nós esperamos ações reais. Queremos que essa quadrilha, que hoje governa a Síria, desintegre-se e deixe o poder. Queremos dar ao povo sírio o direito à autodeterminação", continuou Ghalion. "Estamos prontos a negociar a saída de todo mundo, de todos os que fizeram o povo sofrer massacres contínuos nos últimos meses. Mas negociar o quê? Negociar sua saída, sem arranjos." O porta-voz disse ainda que Assad "merece ser julgado por um tribunal".

Combates. Enquanto as discussões diplomáticas evoluem, embora ainda sem resultados práticos, os combates em Alepo continuam intensos. Ontem, os bairros de Baba al-Hadeed, Bustan al-Qasr e Sakhour voltaram a ser bombardeados, de acordo com informações do Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH), grupo opositor com sede em Londres.

Também houve combates na capital, Damasco, além de Deraa, Hama e Deir Izzor - ou seja, no norte, no oeste, no leste e no centro-sul do país. Em toda a Síria, mais de 130 pessoas teriam morrido só ontem, entre as quais 89 civis desarmados, ainda conforme dados do observatório sírio.

Testemunhas relatam o uso intenso do poder aéreo de Assad contra os rebeldes, incluindo disparos contra alvos civis. Artilharia pesada também estaria sendo empregada.

Segundo cálculos do grupo, mais de 23 mil pessoas já morreram desde o início do levante popular. As Nações Unidas estabelecem oficialmente a cifra em 17 mil mortos.

Dois repórteres, um árabe e um turco, enviados especiais da emissora de TV árabe Al-Hurra, que tem sede em Washington, continuam desaparecidos na Síria. Os dois teriam sido capturados pelas Forças Armadas quando cobriam o conflito em Alepo. No mesmo dia, a jornalista japonesa Mika Yamamoto foi morta enquanto relatava a guerra entre forças de Assad e insurgentes.

Na segunda-feira, os últimos 300 observadores das Nações Unidas deixaram a Síria.

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