Em Moscou, um parque de diversões e vida normal ao lado do ‘QG da crise’

Em Moscou, um parque de diversões e vida normal ao lado do ‘QG da crise’

Capital da Rússia mantinha clima de tranquilidade enquanto Putin e Scholz se reuniam no Kremlin

Eduardo Gayer, Enviado especial, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2022 | 18h00

MOSCOU – As ruas de Moscou parecem ignorar as tensões envolvendo a Rússia e a Ucrânia. Bem ao lado do Kremlin, sede do governo local, onde o presidente Vladimir Putin recebeu nesta terça-feira, 15, o chanceler da Alemanha, Olaf Scholz, para debater a crise com o Ocidente, a Praça Vermelha abriga um parque de diversões repleto de gente feliz – e, aparentemente, despreocupada.

Entre carrosséis, pista de patinação no gelo, vendas de souvenires e bancas de pirulito, a bancária Alissa Wehaunaut diz não acreditar na possibilidade de uma guerra entre Rússia e Ucrânia. "Nem penso nisso. Gosto de Putin e acho que ele está certo", conta à reportagem. De acordo com Alissa, sua família e seus amigos pensam como ela.

A recepcionista Catarina tem opinião semelhante, mas evita elogios diretos a Putin. “A realidade é que nunca levamos essa chance de guerra a sério. Rússia e a Ucrânia estão somente em uma batalha para mostrar quem é mais forte. Tudo ficará bem no final”, afirma, em tom tranquilo. Ela preferiu não revelar seu sobrenome.

As duas entrevistadas conversaram com a reportagem na Praça Vermelha, conhecida pelos desfiles militares durante os anos de União Soviética. Também na praça ficam a Catedral de São Basílio, um símbolo da arquitetura dos tempos dos czares, e a galeria GUM, antes controlada pelo Partido Comunista e hoje um centro de compras com as lojas mais caras do capitalismo mundial.

Alegando questões de segurança de Putin, o  governo russo não permite entrevistas em vídeo na área, que ainda abriga o hotel Four Seasons, onde o presidente Jair Bolsonaro está hospedado durante sua visita oficial a Moscou.

As questões da Rússia com a Ucrânia são seculares e envolvem pautas identitárias históricas. Ex-embaixador e professor de Relações Internacionais ESPM-SP, Fausto Godoy lembra que a civilização russa “nasceu” na região de Kiev – hoje, capital da Ucrânia. “Além disso, a Ucrânia está dividida. Parte ocidental é pró-Europa, a outra parte é separatista. Não existe coesão”, destaca o antigo funcionário do Itamaraty, sobre o delicado xadrez geopolítico local.

O encontro entre Scholz e Putin no Kremlin, vizinho do parque de diversões, aconteceu nesta terça-feira, 15, mesmo dia do desembarque do presidente Jair Bolsonaro em Moscou e da retirada de algumas tropas russas da fronteira com a Ucrânia. Após a reunião na sede do governo, os líderes alemão e russo concordaram em colocar em pauta algumas demandas de Moscou sobre segurança.

Na quarta-feira, é a vez do presidente brasileiro se reunir com Putin no Kremlin. A crise com a Ucrânia, contudo, não deve ser a pauta central da agenda, por orientação do próprio Itamaraty, como mostrou o Estadão/Broadcast Político. Mais do que tentar ampliar a balança comercial com a Rússia, hoje deficitária, o foco da visita oficial de Bolsonaro é manter aberto o fluxo de fertilizantes com o País.

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