Mauricio Lima/The New York Times
Mauricio Lima/The New York Times

Em Nagorno-Karabakh, vários graus da tragédia, num cemitério e nas montanhas

Após fim de guerra de seis semanas, armênios são obrigados a deixar região que consideram ser historicamente o seu lar

Anton Troianovski / The New York Times, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2020 | 03h00
Atualizado 20 de novembro de 2020 | 08h42

KELBAJAR, AZERBAIJÃO - São poucas coisas às quais você se agarra. Homens retirando o motor de um carro inutilizado à margem da estrada. Um caminhão transitando repleto de sofás e estofados de sala de estar. As faces coradas das forças de manutenção da paz russas em um veículo blindado de transporte de tropas seguindo na direção de um vale nebuloso, destruído.

Talvez o foco nessas pequenas coisas seja uma maneira de a mente funcionar diante de uma tragédia como essa. 

Esta era a região de Kelbajar na semana passada, cenário da mais recente onda devastadora de um conflito que persiste há gerações entre armênios e azerbaijanos.

O distrito montanhoso faz parte do enclave separatista de Nagorno-Karabakh, que legalmente pertence ao Azerbaijão, mas é habitado quase que exclusivamente por armênios. Tropas armênias capturaram Kelbajar em 1993, expulsando milhares de azerbaijanos que foram obrigados a fugir para as montanhas geladas para escapar.

Na semana passada, depois de milhares morrerem numa ofensiva do Azerbaijão que durou seis semanas para retomada de Nagorno-Karabakh, eram os armênios que fugiam da que consideram ser historicamente a sua terra, muitos deles incendiando suas casas na fuga.

Em torno o que se vê é o espectro da morte: os rumores sobre corpos de armênios ainda espalhados pelas estradas na direção sul e o olhar vago dos soldados quando falam dos drones armados do Azerbaijão. E também ruínas de um cemitério azerbaijano da era soviética, pedaços de uma lápide gravada com minaretes abandonados na grama queimada.

Retornei na semana passada a Nagorno-Karabakh com o fotógrafo Mauricio Lima para documentar as consequências imediatas desta que é a mais cruel guerra do século nas montanhas voláteis do Cáucaso. Com a Rússia ao norte, Turquia e Irã ao sul, o Mar Cáspio a leste e o estrategicamente crucial Mar Vermelho a oeste, o Cáucaso parece destinado a sofrer por causa da competição entre as potências regionais para exercerem influência.

E a sensação é de que a violência é eterna. Os assassinatos de armênios pelos azerbaijanos no início do século 20; a violência das retaliações de ambos os lados no final da década de 80, com revoltas, perseguições, guerra e a expulsão violenta de mais de meio milhão de azerbaijanos do então enclave de Nagorno-Karabakh. E agora, uma guerra de seis semanas que acabou na semana passada que provocou a morte de mais de dois mil armênios e um número desconhecido de azerbaijanos.

À medida que seguíamos para Nagorno-Karabakh na última sexta-feira, passamos por uma coluna de soldados russos, no que foi uma cena absurda. Nosso ônibus ficou preso em meio a algumas vacas à margem da estrada que margeia o lago Sevan, com suas águas azuis, à esquerda, e os russos armados, separados por uma tela verde.

Acontece que todos estávamos indo na mesma direção - o Monastério de Dadivank, um local sagrado secular cujo destino agora preocupa os armênios e historiadores de todo o mundo. Ele faz parte do distrito de Kelbajar, que aparentemente foi transferido para controle azerbaijano no domingo com base no acordo de paz intermediado pelo presidente Vladimir Putin, transferência que depois foi adiada para 25 de novembro.

Os russos instalaram um posto de observação perto do monastério, onde os armênios se reúnem para dizer adeus ou batizar seus filhos. Enquanto eu conversava com o abade Hoyhannes Hoyhannisyan, a casa do guarda ardia em chamas. O antigo guarda do local a incendiou, mesmo com o abade pedindo para não colocar fogo nela.

“As pessoas sempre pensam e agem assim”, disse o abade, referindo-se aos armênios. “Para eles é melhor queimar a casa, assim ela não é deixada para ser profanada”.

Seguimos mais para o interior de Nagorno-Karabakh. Passamos por casas incendiadas, carbonizadas, ainda fumegantes, e entramos em área ainda controlada pelos armênios. E a pergunta é: quantos retornarão?

Em Stepanakert, capital do enclave, as ruas estavam desertas. Crateras nas calçadas provocadas por munições, paredes dos prédios marcadas por estilhaços de bala, lojas incendiadas, vidro quebrado, janelas e portas destruídas. Não havia água quente e nem aquecimento, somente o serviço de Internet era azerbaijano, vindo da terra que os armênios acabaram de perder.

Uma das poucas pessoas nas ruas era o prefeito Danielyan, 58 anos. Ele me convidou para ir à sua casa que dá vista para a histórica cidade de Shusha, no topo da colina, cerca de nove quilômetros distante e que agora é controlada pelo Azerbaijão. Cabe agora aos soldados russos manterem a paz e separarem armênios e azerbaijanos.

“No momento, infelizmente, temos de viver separados para ter ordem. É uma esperança e um sonho vivermos juntos”, disse ele.

Paramos no cemitério militar. Estive ali no mês anterior, na terceira semana da guerra e me deparei com uma área na colina preparada para os mortos recentes. Havia 60 novos túmulos desta vez, com covas abertas para mais mortos.

Então chegou a hora de partir. Entre 13h de sábado e meia-noite, a única estrada aberta para sair de Nagorno-Karabakh seria controlada pelos azerbaijanos. Os soldados nos redirecionaram para uma estrada marginal pelas montanhas, com um congestionamento de quase 10 quilômetros. Durante horas ficamos presos em Kelbajar e pouco nos mexemos, cercados por armênios em fuga. O caminhão atrás de nós carregava quase uma casa inteira, intacta.

A noite caiu, o cenário ficou ainda mais apocalíptico. As casas em torno estavam em chamas, colunas de fumaça branca subiam para o céu escuro. Num determinado ponto irrompeu uma briga e, praticamente sem serviço de celular, ninguém sabia para onde ir.

Finalmente, fizemos meia volta e pegamos a estrada principal, passando por linhas de tensão elétrica derrubadas. Mas antes disto, o motorista saiu do caminhão que estava à nossa frente, acendeu um cigarro e desatou a xingar.

O homem, Arsen Nalbanzyan, disse-me que no distrito da Armênia onde vive, 31 das 36 vilas eram de azerbaijanos nos tempos soviéticos. “Vivíamos normalmente”, disse descrevendo casamentos compartilhados e apadrinhamento de crianças uns dos outros. Mesmo nos últimos anos, afirmou "eu bebia com amigos azerbaijanos em Moscou e São Petersburgo".

Foram as elites do país, disse ele, que fomentaram o ódio entre as pessoas em seu próprio benefício.

“Isto tudo foi feito pelo dinheiro, caixa”, disse ele, o rosto iluminado pelos faróis do carro, cercado pelo cheiro das casas queimadas na noite gelada. “Eles não pensam nas pessoas - nas pessoas como nós”. “E agora, quem sabe o que vai acontecer?” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.