Kevin Lamarque/Reuters
Kevin Lamarque/Reuters

Em noite desastrosa na TV, Trump sugere que cura da covid está na 'mentalidade de rebanho'

Presidente se atrapalha ao vivo em um programa de perguntas e respostas com eleitores na ABC News

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2020 | 21h27

WASHINGTON - Na noite de terça-feira, em uma rara aparição fora da Fox News, emissora preferida dos conservadores americanos, Donald Trump participou de um programa de perguntas e respostas com eleitores na ABC News. Era para ser simples, mas foi um desastre. Sob pressão, enfrentando questões sobre saúde, imigração e pandemia, colocadas de maneira agressiva por cidadãos furiosos, o presidente desmoronou. 

No momento mais tenso, ele chegou a interromper a pergunta de um eleitor – erro considerado grave neste formato de programa. “Por favor, pare e me deixe terminar minha pergunta, senhor”, afirmou Ellesia Blaque, uma professora da Filadélfia que explicou que tinha um problema grave de saúde. “Por ter uma doença preexistente, não sou levada a sério.” Trump desviou o olhar e engoliu seco, mas não a interrompeu mais. 

Em determinados momentos, o presidente parecia confuso, falando de maneira desconexa. Pressionado por um eleitor sobre a pandemia, Trump disse que a “mentalidade de rebanho” derrotaria o coronavírus – confundindo o termo com “imunidade de rebanho”. “O vírus vai embora sem a vacina, George”, disse Trump ao apresentador George Stephanopoulos. “Claro que ao longo de um período de tempo. A gente vai desenvolver uma mentalidade de rebanho.”

O coronavírus, porém, não foi o único momento de desorientação de Trump no palco do National Constitution Center. Em resposta a um eleitor que contou chorando como sua mãe, uma imigrante, morreu de câncer, o presidente se enrolou na resposta, repetindo diversas vezes que ela havia morrido de “covid”. 

O desempenho constrangedor do presidente foi imediatamente aproveitado pelos rivais, especialmente pelo Lincoln Project, um coletivo de republicanos que decidiu fazer campanha para o democrata Joe Biden. No YouTube, o grupo vem ganhando notoriedade por lançar vídeos agressivos contra o presidente. 

“Este não é um homem em quem você confiaria a distribuição nacional de vacinas”, escreveu, em um post no Twitter, o Lincoln Project ao legendar as imagens que mostram Trump criando o termo “mentalidade de rebanho”. 

Analistas e estrategistas também não se contiveram ao comentar a noite do presidente. “Adoraria saber quem na Casa Branca achou que seria uma boa ideia deixar Trump participar desse tipo de programa”, afirmou a colunista Karen Tumulty, do Washington Post.

“O comentário sobre ‘mentalidade de rebanho’ mostra o quanto o presidente está fora da realidade”, disse Aaron Rupar, do site Vox. “Ele acusou os democratas de não adotarem a obrigatoriedade nacional do uso de máscaras. Alguém precisa avisá-lo de que o presidente é ele”, afirmou.

“As perguntas difíceis fizeram do debate da ABC News um programa de TV fascinante”, escreveu Bill Goodykoontz, do jornal Arizona Republic, de Phoenix. “Mas as respostas de Trump fizeram do debate um programa deprimente.” 

Para Jennifer Rubin, também do Washington Post, o “desastre” da noite de terça-feira “mostra que Trump nunca deveria ter transformado a capacidade mental em tema de campanha” – em referência às constantes provocações do presidente ao rival democrata, caracterizado como um “velho gagá”.

Segundo Charles Pierce, da revista Esquire, o desempenho de Trump na ABC News foi como “um trem descarrilando na direção de um depósito de lixo em chamas”. Na Fox News, porém, o debate foi descrito como uma “emboscada” pela apresentadora Laura Ingraham – amiga de Trump. No Twitter, o presidente comemorou. “Obrigado pelos elogios ao programa da ABC News”, escreveu. / NYT, WP e REUTERS

 

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