AP Photo/Pablo Martinez Monsivais
AP Photo/Pablo Martinez Monsivais

Em Orlando, Obama pede mudança em debate sobre armas

Presidente conforta famílias das vítimas e diz que atirador era ‘lobo solitário’ capaz de provocar devastação porque tinha em mãos arma poderosa

Cláudia Trevisan, Enviada Especial / Orlando, O Estado de S. Paulo

16 Junho 2016 | 18h09

O atirador que matou 49 pessoas e deixou 53 feridas em uma casa noturna de Orlando, na Flórida, era um “lobo solitário” que foi capaz de provocar devastação sem precedentes por ter em suas mãos um fuzil de assalto poderoso, disse nesta quinta-feira (16) o presidente americano, Barack Obama. Depois de se encontrar com sobreviventes e parentes dos mortos, ele reiterou que a prevenção de futuros ataques não pode ser dissociada da discussão sobre o controle de armas nos EUA.

“Nós não podemos antecipar ou capturar cada pessoa louca que queira causar dano a seus vizinhos, ou a seus amigos, ou a seus colegas de trabalho ou a estranhos”, declarou Obama depois de depositar flores em um memorial em homenagem às vítimas no centro de Orlando. “Mas nós podemos fazer alguma coisa em relação à dimensão do dano que eles provocam”, ressaltou, ao lado do vice-presidente, Joe Biden.

Segundo Obama, as motivações do criminoso, Omar Mateen, podem ter sido distintas das dos atiradores que abriram fogo em um cinema de Aurora e em uma escola primária de Newton, em 2012, mas os instrumentos são os mesmos. “Aqueles que defendem o fácil acesso a fuzis de assalto deveriam encontrar essas famílias e explicar por que isso faz sentido.”

A ideia de que o atirador que entrou na Pulse poderia ser contido se os frequentadores do clube também estivessem armados “desafia o bom senso”, declarou Obama, sem mencionar o nome de Donald Trump, defensor desse tipo de medida. 

Na avaliação do presidente, o controle sobre a venda de armas se tornou ainda mais necessário diante do fato de que os dois últimos grandes ataques em solo americano – em Orlando e San Bernardino – foram planejados dentro do país. “Eles foram perpetrados, aparentemente, não por conspiradores externos, não por vastas redes ou células sofisticadas, mas por indivíduos desequilibrados deturpados pela propaganda de ódio que veem na internet.”

Em seu pronunciamento, o presidente disse que manterá o combate “incansável” ao Estado Islâmico e à Al-Qaeda, mas ressaltou que isso será insuficiente para conter atos terroristas dentro dos EUA se não for acompanhado de mudanças na política de armas.

Obama defende a proibição de acesso a fuzis de assalto e o aumento das checagens de antecedentes criminais e sanidade mental de compradores. As propostas enfrentam resistência do Partido Republicano e do lobby da Associação Nacional do Rifle (NRA, na sigla em inglês). 

Os republicanos tendem a ver o ataque de Orlando sob o prisma do terrorismo e descartam sua associação com a discussão sobre armas, enquanto Obama defende que as duas questões não podem ser dissociadas. Ontem, o senador John McCain acusou o presidente de ser “responsável” pelo atentado por sua decisão de retirar as tropas americanas do Iraque em 2011 – o que teria criado as condições para o surgimento do Estado Islâmico.

O massacre na boate Pulse foi um ataque terrorista, mas também um ato de ódio contra a comunidade LGBT, declarou Obama. E em mais uma referência indireta à retórica adotada por Trump, o presidente disse que é “muito perigoso” dividir o mundo entre “nós” e “eles”, com a manifestação de desprezo a determinados grupos em razão da cor da pele, religião ou orientação sexual. 

“Esse é um bom momento para todos nós refletirmos sobre como tratamos uns aos outros e para insistir no respeito e na igualdade de cada ser humano”, afirmou. “Para muitas pessoas aqui que são lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros, a casa noturna Pulse sempre foi um porto seguro.”

Perto do local onde Obama se encontrou com sobreviventes e famílias de vítimas, Mike Goings e outras cinco pessoas seguravam uma enorme bandeira com as cores do arco-íris, o principal símbolo do movimento LGBT. 

“Obama é um campeão da nossa causa e o fato de ele estar aqui é uma demonstração de que todos os americanos devem ser tratados da mesma maneira, sem discriminação”, disse Goings, que perdeu dois amigos na Pulse. Segurando a outra ponta da bandeira estava o heterossexual Jason Calcanis, que havia acabado de conhecer as demais pessoas que sustentavam o símbolo. “É muito importante que o presidente esteja aqui”, afirmou.

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