Gonzalo Fuentes/REUTERS
Gonzalo Fuentes/REUTERS

Em Paris, pandemia acelera declínio do famoso ‘Quartier Latin'’

Fechamento de amadas livrarias é o golpe mais recente contra o esplendor cultural do bairro

Constant Méheut, The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2021 | 15h00

PARIS - Com seus toldos amarelo-claro e prateleiras abarrotadas, as livrarias Gibert Jeune, que vendem livros baratos e de segunda mão, marcaram o Quartier Latin, em Paris, por mais de um século, como um ponto de parada obrigatório para os intelectuais descolados do bairro, amado também pelos turistas.

“Tão antigas e tão imutáveis”, afirma Anny Louchart, 74 anos, uma cliente de longa data que fuçava em caixas de revistas em uma das lojas, com a voz repleta de nostalgia.

Mas um assistente de vendas disse a Anny que quatro das sete unidades da livraria na região, incluindo aquela em que estavam, fechariam em breve, feridas fatalmente pela queda nas vendas provocada pela pandemia.

“Vai fechar”, disse ela, “e uma parte do bairro morre também”.

O encerramento das livrarias Gibert Jeune, que mantém alguns endereços inaugurados no fim do século 19, é o mais recente de uma série de fechamentos emblemáticos que erodiram a identidade cultural do Quartier Latin como central parisiense das letras e lar de incontáveis escritores, filósofos, artistas, revolucionários e estudantes.

A gentrificação que muitos parisienses temem estar roubando a alma de sua cidade não poupou o Quartier Latin, onde lojas de roupas de grife e restaurantes de fast-food invadiram muitos dos espaços anteriormente ocupados por cafés tradicionais, livrarias e cinemas. O charme do bairro aumentou os preços dos aluguéis, fazendo sumir a vibrante vida estudantil.

Levantamentos da agência de planejamento urbano Apur mostram que 42% das livrarias do Quartier Latin desapareceram nos últimos 20 anos, e os ambulantes que vendem livros ao ar livre em Paris também lutam para sobreviver.

Mas a notícia do fechamento de lojas da livraria Gibert Jeune - uma instituição que parecia imortal para muitas pessoas - disparou um gatilho incomum. É um ataque ao coração da identidade do bairro: acesso à cultura a um preço possível.

Três lojas da Gibert Jeune acabam de fechar, e a quarta deverá encerrar as atividades nos próximos dias.

“Essa era a livraria que melhor encarnava o espírito do Quartier Latin”, afirma Éric Anceau, historiador que leciona na Sorbonne, renomada universidade fundada no centro do Quartier Latin em 1253. O nome do bairro deriva do uso do latim como língua de estudo pelos estudantes da Sorbonne durante a Idade Média.

Em uma tarde recente, Ingrid Ernst, uma animada urbanista aposentada, dava uma volta pelo bairro. A cada esquina, ela apontava o dedo para um café que tinha virado um supermercado ou uma loja de discos transformada em hotel de luxo.

“É o processo clássico de gentrificação”, diz Ingrid, 69 anos, enquanto se queixa a respeito da proliferação dos elevadores nos prédios da região, um sinal de “gentrificação a toda velocidade”.

Ingrid afirmou que agora não consegue mais pagar pelo pequeno estúdio que aluga em um sótão desde que se mudou para o Quartier Latin, em 1972, quando o imóvel ainda fervilhava com a energia dos protestos liderados pelos estudantes do “Maio de 1968”, que tomaram as ruas do bairro.

O Quartier Latin abriga muitas universidades, mas cada vez menos estudantes. Eles foram expulsos do bairro pelos altos preços de aluguel, que estão entre os mais caros de Paris, e pela criação de novos campi nas imediações da capital, para atender uma demanda maior.

“É quase impossível viver aqui como estudante”, afirma Constance Pena, 19 anos, sentada em um banco próximo à Sorbonne. Ela veio de um subúrbio a oeste da capital para estudar em uma biblioteca do Quartier Latin.

Foram-se os tempos em que Ernest Hemingway escreveu que Paris e seu Quartier Latin garantiam “uma maneira de viver bem e trabalhar, independentemente do quão pobre você fosse”.

Michel Carmona, historiador e geógrafo especializado em Paris, afirma que a erosão cultural do Quartier Latin começou na década de 1980 e está ligada ao gradual declínio da vida estudantil. “Livrarias baratas, cafés e cinemas são feitos principalmente para estudantes”, diz.

Ele acrescentou que os moradores do bairro foram se tornando cada vez mais “pessoas em trânsito” - estrangeiros ricos ávidos por manter um apartamento ali ou turistas alugando apartamentos pelo Airbnb.

No centro desta dinâmica jaz um paradoxo: a gentrificação acaba com o mesmíssimo charme boêmio que atrai as pessoas para o Quartier Latin.

Anceau afirma que o clima no bairro está “apocalíptico" desde o início da pandemia. O pessimismo que se assentou sobre Paris tem sido talvez mais evidente no Quartier Latin, cujo coração - os cafés, restaurantes, cinemas e museus - parou de pulsar em razão das medidas de confinamento determinadas pelo governo para combater as infecções por coronavírus.

O fechamento temporário desses pilares da cultura soou aos moradores locais como um ensaio do futuro próximo. Cafés e cinemas estão fechados desde o outono, quando a segunda onda de infecções começava na França, e muitos temem que alguns deles terão falido quando as restrições forem suspensas.

As filas de cinéfilos que ocupavam no meio do dia as calçadas da Rue Champollion, uma estreita via de paralelepípedos nas proximidades da Sorbonne, não estão mais lá. Os três cinemas da rua que exibiam filmes de arte foram fechados pelo lockdown.

Um dos cinemas, Le Champo, exibe páginas de seu livro de visitas - “a caixa de memória”, como ele é chamado - pelo vidro de suas janelas fechadas. Uma mensagem de 2018, deixada pelo prolífico roteirista Jean-Claude Carrière, que morreu mês passado, diz: “Viva Le Champo! Muitos anos passados…e quantos anos mais por vir?”/ Tradução de Augusto Calil

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