Rafael Marchante/Reuters
Rafael Marchante/Reuters

Em Portugal, Dia da Liberdade será em quarentena e com sessão solene reduzida

Comemorações de 25 de abril, data em que o país deu fim à ditadura salazarista, serão das janelas; sessão na Assembleia da República gera polêmica

Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2020 | 15h00

RIO - É tradição: todo ano, no dia 25 de abril, os portugueses vão às ruas para celebrar o aniversário do dia em que o país deu fim à ditadura salazarista, em 1974. Com o coronavírus, no entanto, as comemorações populares da Revolução dos Cravos serão remotas - das janelas - e a tradicional sessão solene no Parlamento português vai ser reduzida.

A Associação 25 de Abril, principal centro de construção de memória da data e organizadora dos eventos de rua que a celebram, convocou para o Dia da Liberdade um ‘janelaço’ às 15h. A ideia é que todos cantem a música-símbolo da revolução: Grândola Vila Morena, de Zeca Afonso. Depois, o hino nacional.

Tocada na Rádio Renascença pouco depois da meia noite do dia 25 de abril daquele ano, a música serviu de senha para os militares revoltosos darem início ao movimento que chegaria a Lisboa e daria fim ao Estado Novo, que já durava 41 anos. Uma das palavras-chave da canção, “fraternidade”, é usada agora pela Associação para pedir a todos que fiquem em casa. A letra de Zeca Afonso simboliza os valores da transição política portuguesa e da democracia no país dali em diante.  

“Confia-se que os portugueses respondam afirmativamente aos apelos feitos e demonstrem que Abril está vivo e vai ser ele, com os seus valores, a abrir-nos as portas e indicar-nos os caminhos para a saída da trágica crise em que fomos envolvidos”, diz a associação.

Além dos atos de rua suspensos, a pandemia vai afetar também a tradicional sessão solene promovida anualmente na Assembleia da República. Os encontros costumam ter cerca de 700 pessoas; neste ano, deve ter 130. Mesmo assim, o fato de ainda haver uma sessão marcada para a data tem gerado críticas - já que, mesmo com número reduzido, botar mais de 100 pessoas em um local fechado não é algo recomendado.

Para os representantes da Associação 25 de Abril, as autoridades do país - o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, social-democrata, e o primeiro-ministro António Costa, socialista - souberam encontrar as “soluções mínimas” para celebrar a data neste contexto de pandemia.

“Esta decisão está a ser alvo de uma desesperada tentativa de aproveitamento pelos inimigos do 25 de Abril - porque inimigos da Liberdade e da Democracia - para, de forma oportunista e populista, atacarem o ato que os afastou do poder, porque derrubou a ditadura que os sustentava”, afirma o texto divulgado pela associação.

Com a quarentena iniciada quando ainda havia poucos infectados, Portugal tem conseguido lidar bem com a propagação do vírus, enquanto a vizinha Espanha foi um dos países mais afetados. Com 21.982 casos confirmados, o país lusófono registrou 785 mortes até a manhã desta quinta-feira. Atualmente, a quarentena em terras portuguesas está prorrogada até o dia 2 maio.

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