Arash Khamooshi/The New York Times
Arash Khamooshi/The New York Times

Em posse, novo presidente do Irã acena à diplomacia

Ultraconservador Ebrahim Raisi assume o cargo com o desafio de superar a pandemia, crise econômica e descontentamento popular

The Washington Post, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2021 | 21h34

ISTAMBUL  - O novo presidente iraniano, o ultraconservador Ebrahim Raisi, prometeu nesta quinta-feira, 5, em sua posse apoiar qualquer iniciativa para suspender as sanções ocidentais, mas advertiu que elas não impedirão o Irã de defender seus direitos legais. Ele assume o poder tendo à frente desafios crônicos. O país enfrenta uma mortífera onda de covid-19, sua economia está pressionada pelas sanções e protestos antigoverno sinalizam um profundo descontentamento.

No exterior, o Irã está extremamente isolado, preso a um crescente conflito com Israel. Negociações com os EUA e outras potências mundiais para ressuscitar o acordo nuclear estão empacadas. Mesmo antes da posse de Raisi, grupos de defesa de direitos humanos já pediam que ele fosse julgado por crimes contra a humanidade, por seu suposto papel em execuções em massa no Irã ocorridas mais de três décadas atrás.

Os iranianos já sinalizaram que ele pode não ser a pessoa certa para a função. Mais da metade dos eleitores aptos se abstiveram da última votação presidencial, na qual Raisi, um clérigo muçulmano xiita ultraconservador, pareceu ser o escolhido do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. Raisi ganhou de lavada, mas somente depois de vários candidatos proeminentes terem sido impedidos de participar da disputa.

Sua vitória consolidou o poder nas mãos dos conservadores linha-dura, um desdobramento que alguns analistas afirmam ter o mérito de unificar a liderança do Irã – após anos de disputas internas durante o mandato de seu antecessor Hassan Rohani – o que municia melhor o governo para enfrentar as várias crises do país.

Outros analistas ponderaram que Raisi poderia se valer dessa unidade para satisfazer uma crescente lista de demandas públicas. 

Em meio a uma escassez de água no sul, a resposta atrapalhada à pandemia de coronavírus e protestos em todo o país, há uma crise de confiança da população no governo, afirmou Esfandyar Batmanghelidj, fundador e diretor executivo da Bourse & Bazaar Foundation, um centro de estudos estratégicos com sede em Londres que tem como foco a economia do Irã.

“A maneira mais fácil de dissipar as questões a respeito de legitimidade levantadas pela votação seria demonstrar um nível de competência administrativa nas muitas crises que o Irã está enfrentando”, disse o especialista. 

Em seu discurso nesta quinta-feira, ele afirmou que apoiará qualquer plano diplomático que permita o levantamento das sanções econômicas, mas ressaltou que nem as elas nem a pressão impedirão o Irã de defender seus direitos legais. Logo após a posse, os EUA pediram uma retomada rápida das negociações para reativar um acordo nuclear e forçar o Irã a cumprir seus compromissos, em troca do levantamento das penalidades de Washington.

Crise urgente

Em um outro discurso na terça-feira, o novo líder reconheceu o clamor por mudança no país e prometeu combater a pobreza, a corrupção, o desemprego e a inflação alta. Mas ele se referiu brevemente à crise mais urgente no Irã: a pandemia de coronavírus, que ao longo da semana passada matou cerca de 400 pessoas por dia, de acordo com dados do Ministério da Saúde. A trôpega resposta à crise – atribuída ao governo de Rohani e ao líder supremo – deixou o país sem vacinas suficientes para enfrentar a mais recente onda de contágio; e iranianos têm apelado para o mercado clandestino e até viajado para a Armênia para conseguir se vacinar.

Após a circulação, nos dias recentes, de vídeos que mostraram hospitais lotados e pacientes deitados nos corredores, a crise do coronavírus deverá se provar um dos testes iniciais para a liderança de Raisi, afirmou Batmanghelidj. 

Segundo Batmanghelidj, a economia do Irã tem melhorado, mas qualquer percalço em termos de comércio exterior, confiança na moeda ou preocupações a respeito do orçamento do governo poderia empurrar a economia de volta ao período de crise em que ela esteve por três anos. A suspensão das sanções dos EUA, que têm agravado as dificuldades econômicas do Irã e afugentado empresas que poderiam atualizar a infraestrutura do país, seria a prioridade mais urgente, na avaliação dele.

Ao mesmo tempo, o governo teria de intervir mais cirurgicamente para melhorar as condições de indústrias estatais prejudicadas por escassez de eletricidade e outros problemas, além de ajudar também as empresas privadas, constantemente enredadas na restritiva burocracia do país.

Protestos que ocorreram no mês passado no sul do Irã em razão de escassez de água evidenciaram desafios heterogêneos à espera do governo, que há anos é acusado de administrar mal os recursos do país e responder a insatisfações populares com medidas insuficientes e repressão das forças de segurança.

Noventa por cento dos cada vez mais escassos recursos hídricos do Irã são usados na agricultura. Construções de represas, secas e o aquecimento global têm intensificado os períodos de escassez, especialmente no sul do Irã, uma área rural que também abriga mais de 80% das reservas de petróleo do país. Apesar disso, a região é empobrecida e assolada por antigas insatisfações a respeito de discriminação e negligência do governo. Protestos motivados por escassez ocorreram repetidamente nos anos recentes na Província de Khuzestan, no sudoeste do país.

“A crise da água está ligada diretamente aos meios de sustento das pessoas”, afirmou Ebrahim Bakhshi, ativista pelos direitos humanos nascido em Khuzestan que atualmente vive no exílio. Sua família deixou a província mais de uma década atrás, em grande parte por causa da poluição na água e na atmosfera, afirmou ele. Ao longo dos anos, a terra fértil foi retirada da região, e a construção de represas fez secar seus campos de palmeiras. Mais recentemente, grandes quantidades de búfalos d’água têm morrido, afirmou ele.

Os clamores dos protestos mais recentes concentravam a raiva nos governantes do Irã, assim como em temores de que o objetivo do governo seja forçar a saída de uma população insubmissa da região, afirmou Bakhshi. Antes dos protestos em Khuzestan silenciarem, as autoridades cortaram o acesso à internet, enquanto demonstrações de solidariedade aos manifestantes pela água se espalhavam para outras partes do Irã, incluindo a capital.

"Protestos têm ocorrido no Irã em um ritmo constante, em baixa intensidade, já há três anos”, afirmou Batmanghelidj. Mas não está claro se o governo considera a persistência das manifestações alarmante — ou se a verdade é o oposto, e os protestos são vistos como uma maneira administrável de permitir que o povo dê vazão à insatisfação, afirmou ele.

“Acho que vão começar de novo”, afirmou a respeito dos protestos Nasser Karimi, especialista em clima e geografia do Irã que também nasceu em Khuzestan. Os problemas tendem a persistir, disse ele, caso não haja uma mudança nas prioridades do governo iraniano, agora voltadas a aumentar a população e perseguir metas agrícolas inatingíveis que estimularam agricultores a tentar cultivar em desertos. Ele considera que a ideologia dos governantes do Irã tornou o país uma terra devastada.

"Raisi não é um presidente desenvolvimentista”, afirmou Karimi. “É um presidente que pretende aprofundar as metas ideológicas da República Islâmica — que aumentará os problemas, em vez de solucioná-los”./TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL, COM AFP 

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