EFE
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Em primeiro caso de roubo de bebês no franquismo, ex-médico é absolvido 

Tribunal em Madri considerou o ex-ginecologista Eduardo Vela culpado, mas seus crimes já prescreveram

O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2018 | 09h43

MADRI - Apesar de considerá-lo responsável pelos crimes, um tribunal de Madri absolveu nesta segunda-feira, 8, o ex-ginecologista Eduardo Vela pela prescrição dos atos imputados, no primeiro processo celebrado pelo caso dos "bebês roubados" durante o franquismo na Espanha.

O tribunal informou em um comunicado que absolveu Eduardo Vela, de 85 anos, acusado de entregar de modo irregular para adoção uma recém-nascida (agora com 49 anos) a uma mulher estéril, "dos delitos de detenção ilegal, suposição de parto e falsidade em documento oficial (...) por considerar que os atos estão prescritos".

As juízas consideraram que ficou "provado de forma incontestável no julgamento que o doutor Vela entregou a bebê para adoção fora dos canais legais e sem que conste que tenha mediado consentimento nem sequer conhecimento por parte dos progenitores do recém-nascido", afirma o texto. 

"No entanto, na data da apresentação da denúncia, abril de 2012, os delitos denunciados estavam prescritos", completa.

A decisão desta segunda-feira pode ser objeto de um recurso no Tribunal Supremo pela demandante, Inés Madrigal, ou por parte do Ministério Público.

Décadas depois dos fatos, a Espanha aguardava com expectativa o veredicto, em um caso que pode ter afetado milhares de famílias durante a ditadura.

Madrigal, a bebê entregue para adoção por Vela, afirmou que esperava que o caso ajudasse a reabrir centenas de casos arquivados na Espanha. 

"Neste país não pode ficar impune alguém que julgue ser Deus", afirmou na conclusão do processo em setembro.

A Promotoria solicitara pena de 11 anos de prisão para Vela, além de uma indenização de € 350 mil euros, por privar a denunciante de sua "identidade biológica e social". 

Vela trabalhava na clínica San Ramón de Madri, onde em junho de 1969 entregou a demandante, recém-nascida, com uma certidão de nascimento falsificada.

Um padre jesuíta foi o mediador da entrega. Ele conhecia Inés Pérez, na época com 46 anos, casada e estéril.

Inés Madrigal só descobriu que era adotada ao completar a maioridade, quando a mãe confessou que não era sua progenitora. Apesar de seus esforços, não conseguiu descobrir nada sobre a identidade de seus pais biológicos.

Vários anos depois, ela se tornou a primeira demandante que conseguiu levar a julgamento um caso do tipo na Espanha, onde entre 2 mil e 3 mil denúncias similares foram arquivadas por falta de provas ou prescrição dos fatos.

Em um capítulo menos conhecido da ditadura franquista (1939-1975), essas crianças eram retiradas de seus pais após o parto e declaradas mortas, sem a apresentação de provas.

Depois, eram adotadas por casais estéreis, de preferência próximos ao regime franquista e geralmente com a cumplicidade da Igreja Católica. O tráfico perdurou na democracia, pelo menos até 1987, por razões econômicas. / AFP

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