Em protesto, policiais egípcios pedem perdão

Temida e odiada, polícia que barbarizou opositores vai às ruas do Cairo pedir melhores salários

Lourival Sant’Anna, enviado especial

15 de fevereiro de 2011 | 01h00

 

CAIRO - Cerca de 2 mil policiais se reuniram na frente do prédio do Ministério do Interior do Egito na segunda-feira, 14, para responsabilizar o governo pela repressão aos protestos que levaram à derrubada do presidente Hosni Mubarak, na semana passada. Eles também queriam pedir perdão à população pelos excessos cometidos e dizer que desejam voltar ao trabalho, com melhores salários.

 

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Alguns policiais já haviam comparecido ao ministério na véspera, mas na segunda foi a primeira vez que eles apareceram nessa quantidade, depois de terem sumido havia duas semanas.

 

"A polícia e o povo são um só", foi a principal palavra de ordem dos manifestantes, parte deles com a farda preta da polícia - temida e odiada por sua brutalidade e corrupção -, e outros à paisana. Dezenas de soldados do Exército, apoiados por dois tanques parados em frente ao Ministério do Interior, observavam a manifestação. Apenas intervieram quando um homem com uma bandeira tentou subir num dos tanques. Acabou levado preso por um oficial do Exército.

 

Dezenas dos que estavam à paisana cercaram o repórter do Estado e sua intérprete, uma jornalista egípcia que pediu demissão de um canal de TV por não poder noticiar as manifestações contra o governo. Eles disseram que são agentes, fora da carreira, que atuam à paisana ou fardados, e admitiram que participaram dos ataques aos manifestantes na chamada "Quarta-Feira Sangrenta," há duas semanas.

 

Os policiais disseram ainda que a ordem partiu do então ministro do Interior, Habib El-Adly, que está sendo investigado pela Procuradoria-geral da República por vários crimes, incluindo o massacre de 24 cristãos em Alexandria, na virada do ano. O Estado perguntou por que eles obedeceram à ordem de espancar manifestantes e jornalistas se não a consideravam correta. Eles responderam que ganham 500 libras egípcias (US$ 83) por mês e, se não obedecessem, receberiam 100 libras (US$ 17). "Não teríamos o que comer."

 

No protesto, os policiais exigiram também a demissão de Ismail Shaer, vice-ministro do Interior, que continua no cargo, e - segundo eles - também ordenou as agressões. Os policiais reivindicam equiparação de seus salários aos do Exército.

 

Os manifestantes explicavam que, enquanto um soldado da polícia ganha 500 libras, um do Exército recebe 1.200 libras (US$ 200). O Egito tem 350 mil policiais e 470 mil militares. Apenas um terço dos policiais - em geral de trânsito - voltou às ruas. O Exército está mantendo a ordem e até organizando o trânsito. "O regime também foi ruim para nós", disseram alguns policiais. "Nós também pertencemos ao povo."

 

"Eu não perdoo", reagiu Ahmed Arabiya, um segurança de banco aposentado de 60 anos que observava o protesto. Ele contou que na véspera mesmo teve de dar cem libras para um policial para resolver um problema num tribunal. "Os policiais fizeram muito mal para nós."

 

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