Em protesto recorde, egípcios rejeitam medidas da junta militar e novo premiê Uma longa carreira ligada ao Exército

Revolta. Na maior manifestação desde o início da semana, mais de 100 mil egípcios ocupam a Praça Tahrir para exigir a renúncia do marechal Tantawi e a transferência dos poderes a um gabinete civil, formado por líderes de todas as tendências políticas

LOURIVAL SANTANNA, ENVIADO ESPECIAL / CAIRO, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2011 | 03h02

Mais de 100 mil pessoas ocuparam ontem a Praça Tahrir, no centro do Cairo, na maior manifestação desde o início da última onda de protestos, há uma semana. Foi mais uma eloquente rejeição às medidas tomadas pela junta militar - a última delas a nomeação de um novo premiê, Kamal Ganzouri, de 78 anos, que já ocupou o cargo entre 1996 e 1999, durante o governo de Hosni Mubarak, deposto em fevereiro por protestos semelhantes.

Num forte contraste, uma manifestação de apoio aos militares reuniu apenas 4 mil pessoas. Os manifestantes voltaram exigir a renúncia do comandante do Conselho Supremo das Forças Armadas, marechal Mohamed Hussein Tantawi, e a transferência de todos os poderes para um gabinete civil, formado por dirigentes de todas as tendências políticas.

O gabinete civil anterior renunciou na segunda-feira, em protesto contra a repressão às manifestações, que deixou ao menos 41 mortos. Na segunda-feira, os egípcios vão às urnas para começar a eleger um novo Parlamento, mas exigem que a transição prossiga sem a tutela dos militares, que prometeram eleição presidencial para até o fim de junho.

Em um pronunciamento pela TV, Ganzouri disse que recebeu "mais poderes" do que o chefe do gabinete anterior, Essam Sharaf, e não teria aceitado se acreditasse que o marechal Tantawi pretende continuar no poder. "Os poderes que me foram dados excedem todos os mandatos semelhantes", afirmou Ganzouri, titubeante e visivelmente desconfortável. "Assumirei autoridade plena e, portanto, sou capaz de servir meu país."

Na Praça Tahrir, a nomeação de Ganzouri, assim como as outras medidas da cúpula militar - o pedido de perdão pelas mortes de manifestantes e as reiteradas promessas de conduzir o país à democracia -, soou como uma repetição do roteiro seguido por Mubarak, que relutou durante três semanas até finalmente renunciar.

Poder desgastado. Assim como em janeiro e fevereiro, todo o espectro da sociedade egípcia estava ontem representado na praça. "O Conselho Supremo das Forças Armadas não tem condições de governar o país", disse ao Estado o juiz Zakaria Abdel-Aziz, líder de um movimento de magistrados independentes. "A saída é um gabinete civil que receba toda a autoridade do conselho militar", prosseguiu Abdel-Aziz, que disse não apoiar nenhum candidato a presidente. "Precisamos de uma revolução também no Poder Judiciário, para que ele se torne independente."

O mecânico Aidel Ahmed Hassanin, de 51 anos, veio com o filho Senah, um alfaiate de 30 anos, e a neta Sama, de 4 anos. "Estamos aqui porque sofremos muito e queremos uma vida melhor", disse Hassanin. "Vivemos todos em um único quarto. Tudo é muito caro: comida, roupas. Nove meses depois da revolução, sentimos que nada aconteceu. A revolução foi roubada."

"Vim acompanhar minha filha para ver se o que ela está defendendo é correto ou não. E também para protegê-la", declarou a contadora Feten Sayed, de 50 anos. "Eu a apoio, pois são as reivindicações de todos, não só de minha filha."

Nura Ferez, a filha, de 25 anos, completou: "Nestes nove meses depois da revolução, nada mudou, nada aconteceu. Quero liberdade, dignidade e um bom sistema político. Os militares demoraram demais para fazer a transição e não fizeram nada."

A 6 quilômetros dali, na Praça Abbasya, o ambiente era bem diferente. A manifestação de apoio aos militares, iniciada depois da oração do meio-dia, durou pouco, enquanto na Tahrir a ocupação é permanente. E não havia outros jornalistas, temerosos de represálias por parte de grupos violentos que apoiam os militares.

"Quero estabilidade para o país e meu trabalho", disse Ibrahim Ahmed, um motorista de 39 anos.

"Ficar contra os militares é contrário aos interesses do Egito, é entregar o país para o Ocidente", argumentou a bancária Hoda Behery, de 45 anos. "Se os militares caírem, não haverá ordem nem segurança. A culpa pelos confrontos é dos manifestantes, não da polícia."

Sua irmã Nashua, uma dona de casa de 40 anos, afirmou que foi à Praça Tahrir: "Vi que são os cristãos que incentivam os muçulmanos a entrar em confronto com a polícia."

O novo premiê do Egito, Kamal Ganzouri, tem 78 anos e uma longa carreira identificada com a elite militar que governa o Egito desde a década de 50. Durante a era Anuar Sadat (1970-1981), de quem foi assessor, governou as províncias do Novo Vale e Bani Suef. Nos anos 90, serviu como primeiro-ministro de Hosni Mubarak entre 1996 e 1999. Ganzouri também foi vice-premiê e ministro do Planejamento do antigo regime. Os manifestantes que exigem a transferência imediata do poder dos militares para os civis afirmam que ele não tem legitimidade para representá-los.

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