Scott Olson/Getty Images/AFP
Scott Olson/Getty Images/AFP

Trump e Biden disputam confiança de eleitores para lidar com os tumultos

Viagens a Kenosha, Wisconsin, revelaram apostas políticas dos candidatos

Giovanni Russonello, The New York Times

05 de setembro de 2020 | 09h00

As viagens de Joe Biden e do presidente Donald Trump esta semana a Kenosha, Wisconsin, revelaram as apostas políticas que os dois candidatos presidenciais estão pondo na mesa sobre a maneira como os eleitores responderão às cenas de tumulto que vêm ocorrendo em algumas cidades dos Estados Unidos.

Trump se concentrou em seu apoio às forças de segurança e caracterizou os manifestantes como “antiamericanos”, na esperança de despertar o medo entre os eleitores indecisos diante das manifestações descontroladas.

Biden, por sua vez, respondeu com força, insistindo que os vigilantes de direita também são uma grande parte do problema – e que o racismo estrutural deve ser erradicado das forças de segurança para ajudar a curar o país. Ao mesmo tempo, ele tentou voltar a atenção para a pandemia do coronavírus, dizendo que o presidente não conseguiu lidar com as duas crises.

A pergunta na mente da maioria dos observadores políticos é simples, mas impossível de responder de maneira simples: qual narrativa vencerá?

Para os institutos de pesquisa, que usam perguntas diretas para fazer uma leitura do clima nacional, este momento impõe um desafio. Como fazer perguntas que cheguem ao cerne do debate, quando os lados não conseguem nem concordar com seus termos?

Nas últimas semanas, as formulações convencionais pareceram insuficientes e os institutos de pesquisa precisaram ajustar as perguntas que vêm fazendo. Estão tentando determinar qual candidato ressoa melhor – não apenas se os eleitores estão realmente preocupados com a possibilidade de as explosões de violência urbana chegarem a suas casas, mas também quem eles culpam por essa onda de violência e como acham que se deve reprimi-la.

“O que queremos é uma boa medição e, se as medições anteriores estiverem fora de sintonia com a situação atual, temos de revisá-las e testar outras abordagens”, disse Gary Langer, cuja empresa conduz pesquisas para a ABC News, o Washington Post e outros meios de comunicação.

Vejamos, por exemplo, a expressão “relações raciais”. Ele disse que esses termos “podem ter durabilidade em algumas circunstâncias, mas não são particularmente adequados nas circunstâncias atuais”.

Em pesquisas feitas pela Universidade Quinnipiac nos tumultuados estados da Pensilvânia e da Flórida e divulgadas na última quinta-feira, 3, os pesquisadores perguntaram aos eleitores quem eles achavam que faria um trabalho melhor para guiar o país durante uma crise – linguagem que intencionalmente não especificava nem a pandemia, nem os protestos.

Em ambos os casos, os eleitores se mostraram ligeiramente mais propensos a escolher Trump do que quando questionados especificamente sobre a crise do coronavírus. (Desde o início do verão, ele vem recebendo notas consistentemente baixas na pandemia).

Na Pensilvânia, uma pequena maioria ainda preferiu Biden para comandar o país durante uma crise, mas, na Flórida, houve uma divisão bem equilibrada: 49% Biden, 47% Trump.

Em parte, isto ajuda a explicar por que Trump tentou tanto substituir as conversas sobre justiça racial e coronavírus por um foco que ele chamou de “violência do bando”. Na Pensilvânia, apenas 31% dos eleitores independentes disseram preferir Trump para lidar com a desigualdade racial – mas o número aumentou para 40% quando a pergunta era quem lidaria melhor com uma crise.

Ainda assim, o fato de a maioria dos independentes não ter escolhido Trump nem nessa questão ressalta suas dificuldades com esse grupo crucial, que quase o barrou em 2016, de acordo com as pesquisas, e agora expressa consistentemente dúvidas sobre sua reeleição.

As tentativas do presidente de destacar os confrontos nas cidades claramente tiveram impacto: em suas pesquisas na Pensilvânia e na Flórida, a Quinnipiac apresentou aos eleitores oito grandes questões e pediu que eles identificassem sua principal preocupação. Na Pensilvânia, onde Biden lidera por 8 pontos percentuais entre os prováveis eleitores, “lei e ordem” ficou praticamente empatada em segundo lugar, junto com as relações raciais e o coronavírus. Apenas a economia foi citada com mais frequência.

Na Flórida, quase 1 em cada 5 eleitores citou a lei e a ordem como a principal preocupação – mais uma vez, perdendo apenas para a economia.

Em ambos os casos, os conservadores – seguindo o exemplo de Trump – foram muito mais propensos do que outros a apontar a lei e a ordem como sua maior preocupação, mas 12% a 15% dos moderados também as escolheram.

Uma pesquisa ABC News/Washington Post conduzida pouco antes das convenções dos partidos perguntou aos eleitores se eles achavam que estariam mais ou menos protegidos do crime sob o governo Biden. A resposta mais popular, escolhida por 4 em cada 10, foi que as coisas provavelmente ficariam iguais de um jeito ou de outro. Mas entre aqueles que escolheram um lado, houve uma inclinação de 7 pontos percentuais para os que pensaram que estariam menos seguros com Biden, não Trump.

Os suburbanos brancos – um grupo visado por ambas as campanhas – tinham 20 pontos a mais de probabilidade de dizer que Biden os deixaria menos seguros do que Trump.

Ainda assim, não está claro se a maioria dos eleitores vê os protestos como uma ameaça terrível, como Trump os encoraja. De acordo com uma pesquisa USA Today/Suffolk University divulgada esta semana, os americanos disseram, com uma vantagem de 21 pontos, que, embora alguns protestos tenham resultado em violência, as manifestações pacíficas não deveriam parar. 

Essa pesquisa foi realizada antes que surgisse a notícia de que um homem negro havia morrido em Rochester, Nova York, em março, depois que os policiais colocaram um capuz de malha sobre sua cabeça, jogando mais combustível na fogueira de indignação dos manifestantes. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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