Em quem você confia?

Obama mostrou amadorismo com a crise síria e viu-se numa posição na qual não queria estar; agora uma figura improvável jogou-lhe uma boia: Putin

É COLUNISTA, MAUREEN , DOWD, THE NEW YORK TIMES , É COLUNISTA, MAUREEN , DOWD, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2013 | 02h12

Vladimir Putin, que mantém Edward Snowden na correia e deixa membros de uma banda de garotas rebeldes apodrecerem na cadeia, atirou uma boia de salvação ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

O presidente russo havia friamente criticado Obama sobre Snowden e a questão da Síria e, ainda na semana passada, chamou o secretário de Estado John Kerry de mentiroso.

Agora que está claro que Obama não conseguirá convencer o Congresso dos EUA, o público americano, sua própria mulher, o mundo, Liz Cheney ou até Donald "Choque e Pavor" Rumsfeld a bombardear a Síria - ainda que só um pouquinho -, Putin aparece, sem camisa, para o salvamento, oferecendo-lhe uma maneira de salvar pelo menos as aparências?

Se fosse num filme, nós saberíamos que era um truque. Não se pode confiar no desalmado Putin - botox deu ao ex-agente da KGB um rosto ainda mais impassível - ou no cruel ditador sírio, seu aliado, Bashar Assad. Na terça-feira, Putin, o pacificador, já estava impondo condições.

Enquanto Obama e Kerry - com a ajuda de Hillary e alguns senadores - sopravam e bufavam que fora sua ameaça militar que trouxera a novidade, Putin agia para neutralizá-los, dizendo que eles teriam de abandonar sua ameaça militar para algum acordo poder prosperar.

O entrechocar de sabres do governo mais pareceu joelhos chocalhando. Que saudade dos bons velhos tempos em que Obama liderava de trás. Agora, esses caras estão liderando por escorregões da língua.

O amadorismo começou quando Obama vacilou sobre a Síria e não conseguiu explicar o que estava em jogo ali. Ele sofreu uma escalada em agosto de 2012 com um escorregão do metódico artesão das palavras sobre "uma linha vermelha" - que o presidente e Kerry mais tarde tentaram corrigir como a linha vermelha para o mundo, mesmo que o mundo estivesse desviando o olhar.

A liderança ambígua, vacilante, de Obama levou-o ao exato lugar onde ele não queria estar: unilateral em vez de unificado. De novo, como no caso do controle de armas e outras questões, ele não fez o trabalho de base necessário para angariar apoio. A abordagem canhestra atingiu o clímax com duas observações desastradas de Kerry, mostrando dificuldade para exercer o papel de uma vida. Durante uma coletiva à imprensa em Londres na segunda-feira, ele ofereceu a desistência do ataque se Assad entregasse "cada pedacinho de suas armas químicas à comunidade internacional" e prometeu que, se eles atacassem, seria um esforço "incrivelmente pequeno".

Uma porta-voz do Departamento de Estado desmentiu o primeiro escorregão de Kerry, mas quando a Casa Branca percebeu que era o único sinal de saída de emergência à vista, Kerry desmentiu o desmentido, afirmando no Congresso, na terça-feira, que ele não "se expressara mal".

O presidente corrigiu o segundo escorregão de Kerry com Savannah Guthrie da NBC na noite de segunda-feira, declarando que "os EUA não dão alfinetadas", repetindo o que Kerry tinha dito na terça-feira.

Para garantir, Obama, em seu pronunciamento à nação na terça-feira à noite, assegurou o que o mundo sabia: "Os militares dos Estados Unidos não dão alfinetadas". Onde o irresponsável seguro (George W.) Bush adotou uma folha de parreira diplomática para usar a força no Iraque, o responsável inseguro Obama está adotando uma folha de parreira de força para usar a diplomacia na Síria.

Enquanto os democratas se afastavam na ponta dos pés da linha vermelha, ansiosos para chutar para o futuro a lata de sarin, sua própria retórica áspera os assombrava. Kerry comparou Assad a Hitler na semana passada e Harry Reid evocou "campos de extermínio nazistas" no plenário do Senado na segunda-feira.

De novo, um eco dos equívocos no Iraque.

Ao defender sua proposta hiperbólica de guerra, Bush ficou ofendido com os alemães numa visita, em 2002, irritado por eles não parecerem captar o horror de "um ditador que atacava com gás seu próprio povo", como ele disse a um repórter em Berlim.

Obama chorou sobre as crianças vítimas do tiroteio de Newtown. Ele está chocado, como disse em seu discurso de terça-feira, com "imagens de crianças se retorcendo de dor e morrendo num chão frio de hospital" sob efeito de "gás venenoso". Ele achava - ou achava que achava - que vingar o ataque com gás era a coisa certa a fazer. Mas Bush, mais uma vez assombrando a presidência de seu sucessor, drenou credibilidade, recursos e compaixão.

Apesar de a maioria dos americanos estremecer ante a notícia de que 400 crianças foram mortas por um monstro, elas se retraem sobre o Oriente Médio agora: estão saturados de xiitas contra sunitas, de alauitas e todos os ódios antigos. Kerry pode bravatear que "não vamos esperar muito" para Assad cuspir as armas, mas será difícil para ele sustentar isso, dado que uma nova pesquisa NBC/Wall Street Journal indica que o americano normal é agora um pacifista; em 2005, 60% dos republicanos concordaram com Bush que os EUA deviam promover a democracia no mundo; agora, somente 19% deles acreditam nisso.

Bush, Dick Cheney e Rumsfeld lançaram um esquema de engenharia social para mudar a mentalidade no Oriente Médio sobre democracia e a mentalidade em casa sobre a relutância pós-Vietnã em usar a força para impor valores por meio da guerra.

Eles conseguiram mudar drasticamente a mentalidade no Oriente Médio e em casa, mas no sentido inverso ao que pretendiam.

Humilhado após o 11 de Setembro, o país ficou feliz de punir um vilão árabe, mesmo que o errado. Essa ilusão em massa, mais o turbilhão econômico, lançou os americanos num estado de humilhação permanente. E isso é muito ruim. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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