Em Rafah, plantações dão lugar a crateras

Cidade na fronteira com o Egito guarda os sinais da ofensiva de Israel contra túneis do Hamas

LOURIVAL SANTANNA, ENVIADO ESPECIAL, RAFAH, FAIXA DE GAZA, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2014 | 02h04

Os bombardeios israelenses na zona rural de Rafah, que faz fronteira com Israel e o Egito, mudaram a topografia do sul da Faixa de Gaza. Antigos campos de tomate, batata e azeitona deram lugar a dunas, formadas pela terra arenosa removida pelas granadas de morteiro dos tanques e os mísseis disparados por caças israelenses. Israel afirma ter destruído mais de 30 túneis que ligavam a Faixa de Gaza ao seu território, a maioria nesse lugar.

Os moradores garantem não ter visto túneis nem combatentes das Brigadas Ezzedine al-Qassam, o braço armado do Hamas, nessa região. "Israel só queria destruir nossas terras e nossas casas", disseram os agricultores Sami Siam, de 50 anos, e Ayub Abu Sneima, de 28.

"Olhe para esse lugar: só havia árvores, algumas de 20, 30 anos", disse Adel Abu Lebda, engenheiro-chefe da subprefeitura de Al-Shuka, onde fica a zona rural, e cuja sede também foi bombardeada. "Fui eu que pavimentei esta estrada, em 2005", lembrou Lebda, apontando para a via agora toda de terra, depois que os tanques israelenses avançaram por ela, destruindo o asfalto.

Apesar das negativas dos moradores, jornalistas palestinos que também percorriam a região confirmaram que ali havia entradas para túneis militares das brigadas do Hamas, que pretendiam usá-los em incursões nos kibutzim, as fazendas coletivas, e em emboscadas contra patrulhas do lado israelense.

Além desses túneis militares, Israel bombardeou também a área sobre a rede subterrânea que ligava o Egito à Faixa de Gaza, e constituiu entre 2008 e 2013 o cordão umbilical econômico do território. Por ali passavam de alimentos, remédios e material de construção até automóveis e tratores, além de armamento. Até que, há um ano, os militares egípcios derrubaram o governo da Irmandade Muçulmana, aliada do Hamas, e bloquearam o contrabando. Os bombardeios israelenses destruíram o prédio da alfândega, que arrecadava os impostos sobre o comércio, que representavam 60% da receita do governo do Hamas.

Na cidade de Rafah, a devastação é bem menor do que as reportagens publicadas nos últimos dias - com base em relatos de moradores feitos por telefone - faziam crer. As lojas do mercado central, que pelos relatos parecia ter sido demolido, estão intactas, com exceção de algumas vitrines.

Os andares superiores é que foram destruídos. Uma faixa na parede do segundo andar indica que lá funcionava o Fórum da Educação, entidade pertencente à Jihad Islâmica. No terceiro andar, a reportagem do Estado encontrou um cartaz com a foto de Ahmed Yassin, fundador do Hamas, e uma bandeira do grupo.

Em Rafah está uma das três escolas da ONU atingidas por bombardeios israelenses. Três mil desabrigados continuam vivendo nela. Eles disseram ao Estado que, às 10h30 de domingo, um míssil caiu em frente ao portão da escola. Fragmentos dele se espalharam pelo pátio, matando 10 pessoas e ferindo 40. "Desmaiei e, quando acordei, estava em um hospital", contou Munir Rowaidy, de 27 anos, estudante na Universidade Al-Aqsa. Ele foi ferido na barriga.

"Viemos para cá porque disseram que era mais seguro", lembrou Hasna Kashif, de 29 anos, cujo filho Saker, de 8 anos, foi morto. "Ele estava brincando no pátio. Ouvi uma explosão e desci rápido para ver o que tinha acontecido, e encontrei o corpo dele no chão", conta Hasna, enquanto seu marido, Bassam, de 31 anos, mostra uma foto do filho em seu celular. Ao lado dos três filhos que restaram, Hasna acrescentou: "Um dia antes tive um pressentimento de que sairia desta escola sem um dos meus filhos".

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