Denis Balibouse/Reuters
Denis Balibouse/Reuters

Em raro ato de apoio público, Bachelet declara voto em Boric no Chile

Declaração pública de voto é caso raro de manifestação política por parte de um alto encarregado da ONU, bem como para ex-presidentes do país. 

Thaís Ferraz, enviada especial a Santiago, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2021 | 18h53

SANTIAGO  - A alta comissária da ONU para Direitos Humanos e ex-presidente chilena, Michelle Bachelet, declarou voto no candidato da esquerda à presidência Gabriel Boric nesta terça-feira, 14, em um caso raro de manifestação política por parte de um alto encarregado da ONU, bem como para ex-presidentes do país. 

"Não dá no mesmo votar em qualquer candidato e, por isso, vou votar em Gabriel Boric”, disse Bachelet em um vídeo publicado por sua fundação, a Horizonte Cidadão. “E quero fazer um apelo a todos os meus compatriotas para irem votar, respeitando silenciosamente quem pensa diferente”, acrescentou. 

De férias no Chile, Bachelet afirmou ter vindo ao país para cumprir seu dever cívico. “O que vai ser decidido no próximo domingo é fundamental. Ninguém pode ser indiferente”, afirmou, urgindo que o Chile escolha “um presidente que garanta que nosso país possa realmente continuar no caminho do progresso para todos, um caminho de maior liberdade, igualdade e direitos humanos que sejam respeitados; um ambiente sustentável e, claro, a oportunidade de uma nova Constituição.”

O apoio público vem após uma reunião privada entre Bachelet e Boric na casa da ex-presidente chilena, confirmada pelo esquerdista no último debate presidencial, realizado na segunda-feira, 13. “Nos reunimos para conversar, assim como me encontrei com o (ex) presidente Ricardo Lagos”, disse Boric ao ser questionado sobre o encontro pela apresentadora de TV chilena Solead Onetto. “Tivemos uma conversa muito boa porque devo aprender com seus acertos e erros.”

O apoio foi questionado pelo rival de Boric, o candidato de extrema direita José Antonio Kast, que "lamentou" que "a Alta Comissariada da ONU para os Direitos Humanos intervenha desta forma nas eleições". 

A fundação de Bachelet, criada em 2018, já havia declarado seu apoio “inequivocamente” à frente ampla e se colocado à disposição de sua candidatura em novembro, após o primeiro turno da eleição presidencial. 

ONU recomenda discrição

A manifestação de Bachelet é um caso raro. De acordo com o manual de conduta da ONU, funcionários internacionais devem “exercer discrição em seu apoio a um partido ou campanha política e não devem aceitar ou solicitar fundos, escrever artigos ou fazer discursos ou declarações públicas à imprensa”, acrescentando que, em caso de dúvida, esses casos devem ser encaminhados ao chefe executivo.

“Isso sai muito do hábito das Nações Unidas”, afirma o diplomata Rubens Ricupero, que foi secretário-geral da Conferência da ONU sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad). “Eu imagino que ela fez isso porque foi presidente, deve estar preocupada com a situação, mas nos meus muitos anos na ONU, nunca vi algo igual.”

Ricupero não acredita, no entanto, que o ato deva ser punido. “O outro candidato (José Antonio Kast) é um candidato da extrema direita, e a não ser que ele vença as eleições e decida levantar essa questão, não deve passar de uma certa reação. Bachelet pode argumentar que Kast ameaça os direitos humanos, e como ela é Comissária, se sentiu na obrigação de defender os direitos humanos”, afirma. 

Para ele, a manifestação também não deve abrir precedentes. “É um caso muito isolado. Acho que aconteceu porque ela foi presidente, e são poucos os cargos da ONU desse tipo que estão em mãos de pessoas que tiveram esse tipo de função. Só tem ela e o secretário-geral”, diz. 

Ex-presidentes não costumam se manifestar

O cientista político chileno Miguel Herrera, do Centro de Análisis Político da Universidade de Talca, explica que Bachelet não transgrediu nenhuma norma eleitoral chilena. “Tradicionalmente no país o ex-presidente não manifesta apoio a um candidato. No entanto, isso é apenas uma tradição, não uma norma legal”, afirma. 

Ele nota que a posição tem um efeito simbólico sobre parcelas mais tradicionais do eleitorado, como a Nova Maioria. “Pode ter uma certa influência sobre o eleitorado mais duro da coalizão, mas ele é minoritário.”

Para ele, a manifestação de Bachelet não garante bons resultados a Boric. “Bachelet em certo momento apoiou Paula Narváez (sua ex-porta-voz), e ela acabou não passando nem nas primárias de seu próprio setor”, lembra.

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