Murtaja Lateef/EFE
Murtaja Lateef/EFE

Em raro caso de espionagem terrorista, tradutora do Pentágono é condenada por expor fontes no Iraque

Mariam Taha Thompson, de 63 anos, foi condenada a 23 anos por repassar informações militares dos EUA a um libanês com ligações com o Hezbollah e por quem ela diz ter se apaixonado

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2021 | 23h45

WASHINGTON - Uma tradutora de uma força-tarefa de Operações Especiais dos Estados Unidos no Iraque foi condenada nesta quarta-feira, 23, a 23 anos de prisão em um raro caso de espionagem terrorista, depois que ela admitiu que entregou nomes de informantes e outros dados confidenciais a um libanês com ligações com o grupo militante xiita Hezbollah.

Mariam Taha Thompson, de 63 anos, que morava em Rochester, Minnesota, confessou ser culpada em 26 de março de fornecer informações de defesa nacional para ajudar um governo estrangeiro. Os promotores alegaram que ela repassou a informação a um homem por quem se apaixonou, acreditando que ajudaria o Hezbollah libanês, um grupo designado pelos EUA como terrorista.

Os promotores disseram que Thompson arriscou a vida de fontes e soldados dos EUA porque esperava que o homem se casasse com ela. "A sentença de Thompson deve ser uma advertência clara a todos os detentores de autorização de que as violações de seu juramento a este país não serão consideradas levianamente, especialmente quando colocam vidas em risco", disse John Demers, procurador-geral adjunto da divisão de segurança nacional do Departamento de Justiça, em um comunicado.

Embora a defesa de Thompson tenha solicitado 7 anos, o juiz distrital dos EUA John Bates disse que não sabia de nenhum caso de espionagem em que um réu foi condenado a menos de 15 anos por divulgar as identidades de fontes humanas - muito menos para uma organização terrorista em uma área ativa de operações. A acusação havia pedido 30 anos de prisão. 

O juiz encurtou a sentença, no entanto, dizendo que Thompson era uma pessoa simpática com uma história de vida inspiradora que serviu a seu país adotivo com as tropas dos EUA no Afeganistão, Iraque e Síria. O juiz também reconheceu que o pedido do governo equivalia a uma sentença de prisão perpétua.

“Esta foi uma situação real de risco, não uma situação hipotética e, portanto, é extremamente séria”, disse o juiz.

Com bom comportamento, Bates estimou que Thompson poderia completar sua sentença quando tiver 81 anos, cinco anos abaixo de sua expectativa de vida estimada.

Em um apelo por clemência, ela se desculpou por aqueles que colocou em perigo: "Meritíssimo, amo este país e amo nossos soldados ... Não me propus a machucá-los ou causar danos à nossa segurança nacional. Eu só queria ter alguém que me amasse na minha velhice e, como estava desesperada por esse amor, esqueci quem eu era por um curto período de tempo", disse Thompson, pedindo tempo para ficar com seus netos antes de morrer.

De acordo com documentos judiciais, Thompson trabalhava como intérprete em uma base militar estrangeira quando estabeleceu, em 2017, um relacionamento por meio de um aplicativo de vídeo com um homem que lhe disse estar vinculado ao Hezbollah libanês. "Com o tempo, ela desenvolveu um interesse romântico por ele", segundo a justiça americana.

O FBI prendeu Thompson em 27 de fevereiro de 2020, em uma instalação militar dos EUA em Erbil, Iraque, que abriga um esforço de contraterrorismo de Operações Especiais dos EUA e onde ela trabalhava, informaram os documentos judiciais.

Thompson entregou informações depois que as forças dos EUA, em dezembro de 2019, lançaram ataques aéreos contra o Kataib Hezbollah, uma organização terrorista estrangeira apoiada pelo Irã, culminando em um ataque de drones em 3 de janeiro de 2020 que matou seu fundador e também o líder militar iraniano Qassim Suleimani, segundo os promotores. 

O membro do grupo pediu a ela informações sobre quem estava ajudando no esforço de seleção dos alvos dos EUA. A intérprete, que tinha autorização de segurança ultrassecreta do governo, começou a acessar informações confidenciais nos sistemas de computadores do Pentágono em 30 de dezembro, um dia antes de os manifestantes invadirem a Embaixada dos EUA no Iraque enquanto as tensões aumentavam, segundo a promotoria.

Thompson finalmente começou a acessar dezenas de arquivos e usou várias técnicas para entregar informações confidenciais de defesa nacional, incluindo as identidades de pelo menos oito agentes clandestinos; pelo menos dez alvos americanos; várias táticas, técnicas e procedimentos, disse o governo./W. Post e AFP 

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