Lourival Sant'Anna/Estadão
Lourival Sant'Anna/Estadão

Em reduto de líder deposto, resistência

No leste da Ucrânia, russos étnicos reafirmam elo com Moscou e recusam novo governo de Kiev

Lourival Sant’Anna, Enviado Especial / Donetsk, Ucrânia,

25 de fevereiro de 2014 | 23h38

DONETSK, UCRÂNIA - Quando os protestos começaram, em novembro, várias estátuas de Lenin, o líder da Revolução Bolchevique, foram derrubadas pelos manifestantes em Kiev e em outras cidades ucranianas - como símbolo não do comunismo, que há duas décadas deixou de ser uma ideologia relevante aqui, mas do domínio russo. Em Donetsk, principal cidade do leste da Ucrânia, a estátua permanece firme na Praça Lenin - e era sob ela que 50 manifestantes, a maioria de etnia russa, protestavam na terça-feira, 25, contra a mudança de governo em Kiev e a aproximação com a União Europeia.

Bandeiras do Partido Comunista e da Rússia compunham o cenário. A identificação com a Rússia é o motivo mais conhecido da posição dos moradores do leste e do sul da Ucrânia, mas há fortes razões econômicas.

Donetsk e outras cidades do leste concentram a base da economia da Ucrânia: minas de carvão, siderúrgicas e produtos agrícolas como trigo, girassol e batata, que no passado tornaram o país o celeiro da URSS.

Seus moradores temem a concorrência dos outros países da União Europeia e, em vez dela, preferem uma união aduaneira com a Rússia, em cujo mercado acreditam ter mais chances, além de ter garantido o suprimento de petróleo e gás.

"Obrigado por ter vindo", agradeceu Pavel Oleinikov, de 30 anos, ao repórter do Estado. "Ao longo de três meses de manifestações em Kiev, nunca vieram aqui nos ouvir, como se não existíssemos." Trabalhador da construção civil, Oleinikov diz em russo - língua predominante no leste - que não apoia a mudança de governo porque foi apenas a substituição de "oligarcas por outros oligarcas".

"Pessoas que queriam o poder no país usaram de propaganda nacionalista, nazista, racista", enumerou, usando os adjetivos geralmente endereçados à oposição e aos manifestantes.

"Os heróis do nosso país lutaram na 2ª. Guerra por nossa liberdade, mas as coisas agora tomaram o rumo oposto", continuou Oleinikov, sob a aprovação de outros manifestantes. Alguns ativistas tentaram impedir as entrevistas e arrastar o repórter dali, por não confiar na imprensa ocidental. No entanto, prevaleceu a ideia dos que queriam expressar suas visões.

À pergunta sobre o que pensa do presidente deposto Viktor Yanukovich, que é de Donetsk, Oleinikov respondeu: "Ele não cuidou de nós, que o elegemos. No entanto, tenho pena dele, porque ficou entre a cruz e a espada - a Europa, os EUA, a Rússia, os poderosos da Ucrânia - e nos esqueceu."

A maioria declarou que não vai votar em ninguém nas eleições de 25 de maio, porque tem certeza de que o governo que vai se instalar restringirá os direitos da minoria russa. "Os grupos poderosos do oeste do país estavam no poder até 2010 e não vimos nenhuma melhoria", disse um homem idoso que não quis ser identificado.

"Não deveriam processar apenas Yanukovich pelas mortes de manifestantes, mas também os líderes dos três principais partidos de oposição", continuou ele. "Precisamos mudar as pessoas na Câmara dos Deputados. Estão lá os mesmos nos últimos dez anos."

Yaroslav, líder do Escudo, um movimento de defesa da minoria russa (17% da população da Ucrânia), foi mais longe. Ele criticou Yanukovich por não ter dispersado os manifestantes na Praça da Independência, em Kiev, logo no início dos protestos, em novembro. Na visão de Yaroslav, de 28 anos, dono de uma loja de sapatos, que não quis dar seu sobrenome por receio de represálias, a antiga oposição, agora no poder, é a única culpada pelas quase cem mortes.

Outros ainda gostam de Yanukovich, que mantém uma mansão em Donetsk. Uma moça que não quis se identificar e garantiu não ser comunista, apesar de estar com um boné do partido, perguntou: "O que esse novo governo deu ao povo, além de sangue? Nós vivíamos bem." Ela acrescentou que o conflito tornou a Ucrânia mais fraca e querem dividir o país.

Nem todos em Donetsk pensam dessa forma. O estudante de biologia Viktor Bairachni, de 23 anos, de etnia ucraniana, chamou o repórter para longe da manifestação e disse: "Historicamente, a Ucrânia foi colônia da Rússia. Essas pessoas estão em pânico, falando do risco da divisão da Ucrânia. Mas, então, por que você vê ali bandeiras da Rússia e não da Ucrânia?" / L.S.

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