(Erin Schaff/The New York Times)
(Erin Schaff/The New York Times)

Em resposta ao discurso de Biden, republicanos acusam o presidente de 'dividir a nação'

Em declaração após a fala do democrata, senador Tim Scott não ofereceu uma alternativa abrangente aos planos de educação e cuidados infantis da Casa Branca, em vez disso, chamou os investimentos de "grande desperdício"

Catie Edmondson, The New York Times, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2021 | 10h00

WASHINGTON — Alinhados contra o novo plano trilionário apresentado pelo presidente Joe Biden, na noite de quarta-feira, os republicanos destacaram o senador Tim Scott, da Carolina do Sul, para dar a resposta oficial em nome do partido à agenda proposta pelo governo e acusaram Biden de “dividir a nação” ao abandonar a promessa de buscar um consenso político.

Em sua réplica ao primeiro discurso de Biden numa sessão conjunta do Congresso, Scott deu sinais da amarga disputa que está por vir contra os esforços do presidente para aumentar a assistência governamental aos trabalhadores, estudantes e famílias.

O senador da Carolina do Sul classificou o “Plano para as Famílias Americanas”, no valor de US$ 1,8 trilhão, como um "grande desperdício". 

Também queixou-se de que Biden deixou de lado um compromisso com os republicanos — que deixaram claro que não têm qualquer intenção de apoiar a ajuda governamental à escala por ele solicitada — para fazer passar uma agenda unilateral.

A resposta de Scott veio depois de muitos republicanos terem ficado sentados e em silêncio na Câmara, enquanto os democratas levantavam-se para aplaudir Biden pela agenda econômica apresentada, incluindo quando mencionou como o pacote econômico de US$ 1,9 trilhão — promulgado este ano sobre a oposição unificada do Partido Republicano — será fundamental na redução da pobreza infantil em mais de metade.

Scott, o único republicano negro do Senado, também usou sua resposta para criticar temas da agenda de governo democrata.

Na fala, o senador criticou medidas contra a covid-19, como o lockdown, que fechou escolas e igrejas, além de reprovar o debate nacional sobre racismo sistêmico que se instalou no meio de protestos de assassinatos de negros americanos pela polícia.

“A América não é um país racista”, disse o Scott, invocando a sua própria experiência como homem negro do Sul. “É errado tentar usar o nosso passado doloroso para tentar encerrar desonestamente os debates no presente”.

Embora não tenha citado o presidente, Scott fez referência ao projeto de lei de direitos de voto apresentado pelos democratas, que Biden apelou ao Congresso para que fosse aprovado rapidamente, e sugeriu que estava pessoalmente ofendido pelas tentativas de o enquadrar como o sucessor moderno do movimento de direitos civis.

“Não se trata aqui de direitos civis, nem do nosso passado racial”, disse ele. “Trata-se de manipular eleições no futuro”, alegou.

O discurso de Scott, saudado pelos republicanos, sublinhou as dificuldades que Biden enfrenta para conquistar seu objetivo de união partidária, e de receber o apoio dos republicanos para a aprovação de uma lista de temas — que vão desde infraestrutura, cuidados infantis, até uma revisão do policiamento —, que serão analisadas pelo Congresso.

Scott, de 55 anos de idade, foi escolhido para apresentar a refutação aos planos de Biden pelos líderes republicanos do Senado e da Câmara, Mitch McConnell, do Kentucky, e Kevin McCarthy, da Califórnia, respectivamente.

Eles justificaram a escolha pela confiança de longa data no político sulista e por sua ascensão como figura unificadora no Congresso, principalmente em questões que tratam de reforma racial e policial.

Como argumento de que a visão de Biden de mais apoio governamental aos americanos da classe trabalhadora foi mal conduzida, Scott citou a sua história pessoal de vida —  ele falou sobre o quão “desiludido e zangado” esteve e que quase fracassou na escola depois dos seus pais terem se divorciado e sua mãe solteira ter trabalhado para sustentar ele e o irmão.

“A beleza do sonho americano é que as famílias conseguem defini-lo por si próprias”, disse Scott. “Deveríamos estar expandindo oportunidades e opções para todas as famílias, não jogando dinheiro a certos problemas porque os democratas pensam que sabem o que é melhor”.

Ao concluir seu discurso, Scott, que é profundamente religioso, abordou temas sobre redenção e graça.

“O nosso melhor futuro não virá de esquemas em Washington ou de sonhos socialistas; virá do povo americano — negros, hispânicos, brancos, asiáticos, republicanos e democratas”, disse ele. “Corajosos agentes da polícia e bairros negros. Nós não somos adversários. Estamos todos juntos nisto”.

Mas grande parte do seu discurso centrou-se em acusar o Biden e os congressistas democratas de “nos afastarem cada vez mais”, e centrou-se num tema que os republicanos acreditam que os ajudará a recuperar maiorias na Câmara e no Senado em 2022: retratar Biden como um devoto da esquerda.

Enquanto na semana passada os republicanos apresentaram sua magra alternativa ao pacote de infraestrutura proposto por Biden — oferecendo uma contraproposta de US$ 568 milhões que os democratas rejeitaram e chamaram de inadequada — eles não ofereceram qualquer proposta de lei sobre educação e cuidados infantis, e não se espera que ofereçam uma alternativa abrangente às últimas propostas do presidente.

Em vez disso, na quarta-feira à tarde, enquanto aguardavam o discurso presidencial, alguns republicanos foram ao Senado para denunciar de forma preventiva a abordagem de Biden.

Pintaram o plano de infraestruturas do presidente em duas vertentes — uma para reforçar estradas e pontes do país e outra para expandir o acesso à educação e cuidados infantis, com um preço total de pouco mais de US$ 4 bilhões — como um exagero governamental desnecessário, caro e intrusivo.

"Atrás da cara familiar do presidente Biden, é como se os democratas mais radicais de Washington tivessem recebido as chaves, e estão a tentar acelerar que, o quanto antes, os eleitores americanos peçam o carro de volta", disse McConnell. "Mas não é demasiado tarde. Esta Casa Branca pode sacudir os seus devaneios de um legado socialista arrebatador que nunca irá acontecer nos Estados Unidos".

 

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