Pete Souza/Casa Branca
Pete Souza/Casa Branca

Em reunião com Obama, Bibi volta a rejeitar retorno às fronteiras pré-67

Recebido ontem na Casa Branca, o primeiro-ministro de Israel, Binyamin "Bibi" Netanyahu, entrou em rota de colisão com o presidente Barack Obama, que na véspera havia defendido um Estado palestino com base nas fronteiras pré-1967, Netanyahu rejeitou a proposta e disse que o plano tornaria Israel "indefensável". Obama evitou o embate e, diante de jornalistas, nem sequer mencionou os pontos de discórdia.

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2011 | 00h00

Pouco após o encontro reservado com o líder americano, Netanyahu afirmou que, para "haver paz", os palestinos precisarão aceitar "algumas realidades". "Embora Israel esteja disposto a fazer concessões generosas, não podemos retornar às linhas de 1967 porque elas são indefensáveis e porque não levam em consideração mudanças demográficas que ocorreram nos últimos 44 anos", disse Netanyahu, sempre evitando a palavra "fronteira".

No dia anterior, o presidente americano havia afirmado em um discurso ao mundo árabe que as fronteiras pré-1967 - que separam Israel da Cisjordânia e Faixa de Gaza - deveriam servir de base para um futuro Estado. O acerto final dependeria ainda de ajustes territoriais mutuamente acordados.

Foi a primeira vez que um presidente americano falou abertamente nesses termos, apesar de Bill Clinton ter usado essas linhas como parâmetros na negociação de Camp David.

Segundo o premiê israelense, "antes de 1967, Israel possuía apenas 9 milhas (cerca de 15 km) de largura. E essas fronteiras não eram da paz, mas de repetidas guerras porque ataques a Israel eram atrativos". Na realidade, apenas no trecho mais estreito da fronteira a largura é a mencionada por Netanyahu. "Estas são linhas indefensáveis, e nós precisaremos ter tropas por longo prazo na Cisjordânia."

No dia anterior, antes do discurso de Obama, Netanyahu telefonou para a secretária de Estado, Hillary Clinton, para que ela convencesse o presidente a eliminar a parte do discurso que mencionava 1967. O presidente ignorou. Além desse ponto, Obama insistiu pela primeira vez que o Estado palestino deveria ser desmilitarizado.

Na sua declaração de ontem, Netanyahu ainda comparou o Hamas à Al-Qaeda e advertiu o presidente palestino, Mahmoud Abbas, a escolher entre negociar a paz "ou manter o pacto com o Hamas". Na terça-feira, o líder israelense discursará no Congresso dos EUA, onde conta com enorme apoio, para delinear a sua proposta de paz.

Obama evitou falar nas fronteiras de 1967 ontem, preferindo sublinhar a amizade entre os dois países. O presidente acrescentou que foi a sétima vez que Netanyahu visitou a Casa Branca. Amanhã, o presidente discursará para os membros da Aipac, mais importante organização pró-Israel dos EUA. A sua nova posição sobre o conflito entre israelenses e palestinos foi criticada por políticos republicanos, como o pré-candidato Mitt Romney.

Steven Cook, do instituto Council on Foreign Relations, disse que a questão das fronteiras "pode ter irritado alguns israelenses e seus simpatizantes nos EUA, mas não altera propostas anteriores para resolver o conflito".

PARA ENTENDER

As razões de Bibi

A posição de Binyamin Netanyahu reflete a retórica da extrema direita israelense, que participa de sua frágil coalizão de governo. Para essa corrente, a retirada dos 300 mil judeus que vivem nos assentamentos da Cisjordânia - cujo crescimento demográfico está diretamente ligado à política de colonização do Estado israelense desde 1967 - é inviável. Além disso, o retorno às fronteiras pré-1967 colocaria em risco a segurança dos israelenses.

As razões de Obama

A proposta de retorno às fronteiras anteriores a 1967 tem como base a Resolução 242 da ONU, aprovada no mesmo ano, e nos acordos entre palestinos e israelenses de 1994 - que admitem a possibilidade de compensação territorial em troca da manutenção de alguns assentamentos.

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