The White House via REUTERS
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Em reunião com Putin, Biden alerta para retaliações econômicas por escalada na Ucrânia

EUA e demais membros da Otan temem uma invasão russa ao território ucraniano conforme o país avança com tropas na fronteira da ex-república soviética.

Redação, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2021 | 18h43

WASHINGTON - Os presidentes Joe Biden e Vladimir Putin se reuniram por duas horas nesta terça-feira, 7, em meio ao agravamento das tensões na Ucrânia. O líder americano utilizou o encontro para alertar sobre possíveis sanções econômicas caso a situação continue a se deteriorar. 

“O presidente Biden expressou as profundas preocupações dos Estados Unidos e de nossos aliados europeus sobre a escalada de forças da Rússia em torno da Ucrânia”, informou a Casa Branca em comunicado.  "(O presidente) deixou claro que os EUA e nossos aliados responderiam com fortes medidas econômicas e outras no caso de uma escalada militar.”

Não ficou claro, porém, quais seriam essas medidas. Fontes oficiais informaram à imprensa americana na segunda-feira, 6, que o movimento seria para isolar a Rússia do sistema financeiro internacional, uma medida drástica reservada para casos extremos. As últimas sanções contra o país, após a escalada de tensões de 2014 na Crimeia, no entanto, não surtiram efeito.

"Houve muitas trocas, não houve nenhum dedo apontado, mas o presidente foi claro sobre a posição dos EUA", informou Jake Sullivan, o conselheiro de segurança nacional do presidente, em entrevista coletiva.

“Ele disse ao presidente Putin diretamente que, se a Rússia invadir a Ucrânia, os EUA e nossos aliados europeus responderão com fortes medidas econômicas”, disse. Sullivan se recusou a entrar em detalhes sobre a reunião.

Putin, por outro lado, pediu garantias de que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) não se expandirá para o leste. "A Otan está empreendendo tentativas perigosas de usar o território ucraniano e desenvolver seu potencial militar em nossas fronteiras", disse o Kremlin em comunicado, "e é por isso que a Rússia tem um interesse sério em obter garantias jurídicas seguras que descartem a possibilidade de uma expansão da Otan no leste".

Os líderes também conversaram sobre controle de armas nucleares, a segurança cibernética e o programa nuclear iraniano. Ambos os lados disseram esperar que os dois líderes possam realizar uma cúpula pessoalmente para discutir os laços entre as duas nações.

O encontro diplomático, o mais importante do governo de Joe Biden até o momento, começou às 10h de Washington, (12h de Brasília). Biden participou da Sala de Situação da Casa Branca, o lugar mais seguro da residência presidencial. Putin participou de sua casa em Sochi, a cidade turística russa no Mar Negro.

Risco de invasão russa à Ucrânia

A TV estatal russa divulgou imagens do início do encontro, com Putin acenando para o presidente americano. “Saudações, Sr. Presidente!” disse.

"É bom ver você de novo", respondeu Biden. “Infelizmente da última vez não nos vimos no G-20. Espero que da próxima vez que nos encontrarmos o façamos pessoalmente.”

Apesar da cordialidade dos cumprimentos, Putin e Biden tinham uma enorme lista de divergências para tratar, sendo o envio de tropas russas ao longo da fronteira da Ucrânia o ponto mais sensível da reunião.

A situação voltou a escalar nas últimas semanas devido à crescente ajuda militar ocidental à Ucrânia. A ex-república soviética se inclinou para o Ocidente desde que uma revolta popular derrubou o então presidente pró-Rússia em 2014. A Rússia vê a aliança como um avanço da Otan que ameaça seu território.

Em um discurso ao Conselho do Ministério das Relações Exteriores da Rússia em novembro, Putin advertiu que o Ocidente tem uma "abordagem superficial a nossos avisos sobre linhas vermelhas". 

Ele destacou como os EUA e seus aliados fornecem armas letais a Kiev, conduzem exercícios militares "provocativos" no Mar Negro e lançam bombardeiros estratégicos a apenas 19 km (12 milhas) das fronteiras da Rússia. 

Putin também alertou contra o posicionamento de sistemas de defesa antimísseis na Ucrânia semelhantes aos da Romênia e da Polônia, alegando que eles poderiam ser armas ofensivas secretas capazes de chegar a Moscou em 10 minutos.

Embora negue qualquer plano para invadir a Ucrânia, relatórios da inteligência americana apontaram que as forças russas já teriam capacidade para uma invasão rápida e imediata.

O país teria construído linhas de abastecimento e unidades médicas e de combustível. Os equipamentos que estão na região poderiam abastecer forças da linha de frente por sete a 10 dias e outras unidades de apoio por até um mês. 

O movimento fez disparar um alarme na Europa e nos EUA sobre a chance do Kremlin ordenar uma invasão - manobra que poderia movimentar cerca de 175 mil militares.

Retaliações limitadas

Apesar do avanço russo, os Estados Unidos disseram não ter a intenção de enviar tropas para a fronteira com a Ucrânia. Por isso, o encontro serviu para alertar Putin sobre possíveis sanções econômicas.

Ainda assim, as opções de Biden são bastante limitadas, já que retaliações muito profundas podem prejudicar seus aliados europeus. As nações europeias dependem da Rússia para grande parte de seus suprimentos de energia, além de temerem por consequências econômicas. 

Logo após o encontro virtual, Biden ligou para as autoridades no Reino Unido, França, Alemanha e Itália. "Os líderes concordaram em permanecer em estreito contato sobre uma abordagem coordenada e abrangente em resposta à concentração militar da Rússia nas fronteiras com a Ucrânia", informou a Casa Branca.

Algumas horas antes do encontro, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, alertou a Rússia que o bloco está disposto a ampliar as sanções e adotar outras "medidas restritivas". Ela, porém, não ofereceu detalhes sobre a natureza dessas medidas restritivas.

Biden conversará na próxima quinta-feira, 9, com o presidente ucraniano, Volodmir Zelenski, sobre os detalhes do encontro com Putin.

Ucrânia é tema sensível para Rússia

O destino da Ucrânia, uma ex-república soviética, é questão sensível para Putin que fala com frequência sobre os laços históricos e étnicos do país com a Rússia. Já para Biden, o que está na mesa é estabelecer uma relação mais estável e previsível com a Rússia.

 A tese do Kremlin é que os ucranianos e os russos são “um só povo”, e que os vizinhos vivem sob um Estado falido controlado por forças ocidentais determinadas a dividir e conquistar o mundo pós-soviético.

Os ucranianos, porém, em grande parte não concordariam com a tese. Mas a convicção de Putin é bem recebida entre muitos russos, que se veem ligados intimamente à Ucrânia por gerações, com laços linguísticos, culturais, econômicos, políticos e familiares.

Mas para Putin - e muitos outros russos - o conflito de quase oito anos com a Ucrânia não trata simplesmente de geopolítica; trata de uma mágoa na psique nacional, de uma injustiça histórica a ser corrigida. Um de seus ex-conselheiros, Gleb Pavlovski, descreveu em uma entrevista a visão do Kremlin a respeito de Ucrânia como um “trauma embrulhado em outro trauma”: a dissolução da União Soviética aliada à separação de um país que os russos consideravam havia muito tempo uma extensão de seu território.

Após a revolução pró-Ocidente na Ucrânia, em 2014, a Rússia invadiu e posteriormente anexou a península ucraniana da Crimeia e fomentou uma guerra separatista ativa até hoje no leste ucraniano. Desde então, Putin tem buscado evitar uma aproximação da Ucrânia com o Ocidente - e tem expressado crescente insatisfação em relação aos Estados Unidos estarem treinando e ajudando a armar os militares ucranianos./ THE NEW YORK TIMES, AFP E REUTERS

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