Washington Post photo by Bill O'Leary
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Trump é assunto proibido em reunião de descendentes de presidentes dos EUA

Cerca de 50 filhos, netos e bisnetos de presidentes americanos participaram nesta semana de encontro da Associação Histórica da Casa Branca; mesmo nos bastidores, houve mais lembranças do passado do que reflexões sobre o presente

O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2018 | 14h59

WASHINGTON - Um encontro recente de quatro dias na Associação Histórica da Casa Branca, na capital americana, reuniu cerca de 50 descendentes de presidentes dos Estados Unidos e mais de 400 acadêmicos, bibliotecários e preservacionistas.

Essa reunião das famílias dos líderes americanos lembrou uma pequena fraternidade, cheia de diversão, fatos inofensivos e uma reverência pela história da Casa Branca. Entre os presentes, estava Lyon Gardiner Tyler, de 93 anos, neto do 10º presidente dos EUA, John Tyler (1841-1845).

Os parentes dos presidentes compartilharam suas lembranças pessoais e antigas histórias familiares. E ficaram o mais longe que puderam da política moderna, que dominava o entorno da cidade.

O que eles pensam da alegação do presidente Donald Trump de que o Google manipula suas buscas para prejudicá-lo? Ou da polêmica sobre a suposta interferência russa na votação de 2016? Ou do papel oficial de Ivanka Trump na Ala Oeste da Casa Branca?

"Ninguém fala sobre isso", garante Susan Ford Bales, filha do presidente Gerald Ford (1974-1977). "Não! Não, não, não, não e não."

Trump e suas polêmicas estiveram tão distantes dos tópicos discutidos no encontro que durante um painel de duas horas no Kennedy Center, cujo assunto foi a Casa Branca, ninguém no palco sequer mencionou o nome do republicano.

Além disso, este é um tipo estranho de reunião de família e todo mundo sabe o que acontece quando se discute política em uma reunião de família. Mesmo que seu pai tenha sido presidente. Especialmente se seu pai foi presidente.

"Como vivemos lá (na Casa Branca), temos um respeito pelo cargo, quer você goste da família (que a ocupa agora) ou não", disse Susan, que era adolescente quando seu pai ocupou a presidência dos EUA. "Me lembro de ser criticada por usar calça jeans na Casa Branca. E as críticas que você recebe são muito duras. Então você nunca quer criticar."

"É sobre respeito e dignidade", diz Jason Van Buren, descendente de Martin Van Buren (1837-1841) na frente de um palco do Kennedy Center montado de forma a imitar o Salão Oval. "Então você quer manter algo que pode ser político fora disso."

No fim das contas, sobre o que essas pessoas conversaram nestes quatro dias? Lynda Johnson Robb, filha do presidente Lyndon Johnson (1963-1969) gabou-se de que seu casamento, celebrado na Casa Branca, é o mais longevo entre todos celebrados lá. Ela e o ex-senador Chuck Robb comemoraram seu 50º aniversário de casamento em dezembro.

Susan também se lembrou de como era namorar enquanto vivia na residência oficial do presidente americano. "Os coitados dos meninos ficam encharcados. Eles não estavam indo a um encontro com uma garota qualquer, eles se encontravam também com o comandante chefe da nação", disse - ser acompanhada pelo serviço secreto dos EUA o tempo todo também não era algo que ajudasse a vida romântica de uma adolescente.

Tweed Roosevelt explicou que toda vez que usa seu cartão de crédito tem que explicar que é bisneto de Theodore Roosevelt (1901-1909) e não de Franklin Roosevelt (1933-1945).

Clifton Truman Daniel contou anedotas sobre como é ser neto de Harry S. Truman (1945-1953). Ele diz que uma vez o ex-presidente foi visitá-lo em Nova York. Daniel se lembra do avô acordando cedo e se posicionando em uma sala de estar com uma pilha de jornais.

Quando Daniel e o irmão mais novo tentaram se esgueirar para ver TV, o avô percebeu e deu uma bronca nos dois. Quando sua mãe, Margaret Truman, acordou, encontrou seus dois filhos empoleirados em ambos os lados da cadeira do avô.

"Nenhum de nós se movia enquanto ele lia para nós um livro que não tinha nenhuma figura", recordou Daniel. "E ela disse: 'O que você está lendo para essas crianças?'" Truman mostrou a ela "A História da Guerra do Peloponeso", obra escrita por Tucídides. Às 6 da manhã para um menino de 4 anos e outro de 2 anos."

Mesmo nos bastidores do encontro, houve mais lembranças do passado do que reflexões sobre o presente

Quando os descendentes dos presidentes se reuniram no bar do Hotel Willard, onde o parte dos encontros ocorreu, eles conversavam sobre os quartos em que dormiram na Casa Branca ou, sobre os funcionários que conheceram.

"São os empregados da Casa Branca que a tornam um lugar tão especial para morar", afirma Susan. Em uma cerimônia de plantio de árvores no gramado do sul, organizada nesta semana pela primeira-dama Melania Trump, Susan reconheceu um jardineiro que trabalha no local desde a administração de seu pai. Ela o abraçou.

Todos os descendentes dos presidentes americanos tiveram a oportunidade de voltar à Casa Branca em um jantar privado organizado pela família Trump na quarta-feira. Lá eles se reuniram na Sala Leste para ouvir o presidente chamá-los pelo nome. E Trump surpreendeu a multidão ao anunciar que os convidados, incluindo todos os participantes da cúpula da Associação Histórica da Casa Branca, poderiam visitar o Salão Oval naquela noite.

Lyon Gardiner Tyler estava lá, acompanhado por sua filha, Susan. Ele tem uma estranha semelhança com seu avô e sorriu foto após foto com aqueles que queriam capturar uma conexão com o passado. / THE WASHINGTON POST

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