Mike Htuchings / EFE
Mike Htuchings / EFE

Em reunião do BRICS, chefes de Estado se isolam de realidade africana

Atividades se concentraram em Sandton, reduto financeiro e comercial de maioria branca em Johannesburgo

Felipe Frazão, Enviado Especial / Johannesburgo, O Estado de S.Paulo

30 Julho 2018 | 06h30
Atualizado 30 Julho 2018 | 06h30

JOHANNESBURGO - Uma semana após o centenário de Nelson Mandela, ex-presidente sul-africano que virou símbolo da luta contra o apartheid e ganhou o prêmio Nobel da Paz, os chefes de Estado do BRICS (Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul) passaram os três dias de realização da 10.ª cúpula do grupo, encerrada na sexta-feira, ao largo da realidade de um país em desenvolvimento, marcado por desigualdades sociais.

As atividades oficiais da cúpula, das quais participaram os presidentes Michel Temer (Brasil), Vladimir Putin (Rússia), Xi Jinping (China) e o primeiro ministro Narenda Modia (Índia), foram realizadas em um dos bairros mais ricos do continente africano, Sandton, em Johannesburgo. 

O roteiro original do encontro previa que os presidentes fossem ao sítio arqueológico de Maroteng, conhecido como Berço da Humanidade, mas a atividade foi cancelada. A exceção foi um jantar fechado a convidados, seguido do musical "O legado de Ubuntu", ocorridos dentro do Montecasino, um complexo turístico. O local foi cercado por grades e com policiamento ostensivo, formado por agentes armados, grupos táticos e caminhões para controle de distúrbios civis, estacionados ao redor do centro de convenções e nos hotéis onde os chefes de Estado e de governo se hospedaram.

A região de Sandton ainda passava por obras urbanas de pavimentação de calçadas ao longo do evento. O bairro é um reduto de negócios, com alguns dos imóveis mais caros do país. Concentra os hotéis mais luxuosos da cidade, além de restaurantes, sedes de multinacionais e instituições financeiras. Conforme o mais recente censo oficial, de 2011, o governo calculava em que mais de 222 mil pessoas viviam na região, sendo que o perfil étnico distingue da maioria sul-africana. Em Sandton, 50% da população é branca.

O polo oposto mais conhecido é Soweto, misto de bairro e favela que viveu um boom nos anos do apartheid, onde 98% da população de 1,2 milhão de habitantes é negra. Além de Mandela, lá viveu outro ganhador do prêmio Nobel da Paz, o religioso Desmond Tutu. Apesar dos esforços do governo em promover o turismo associado à imagem de Mandela, os chefes de Estado não foram ao bairro.

As atividades do BRICS se desenrolaram na província de Gauteng, onde se concentra boa parte da classe média sul-africana. É a que mais contribui para o PIB do país - um terço do total. Gauteng sozinha tem um PIB equivalente ao de Marrocos - U$ 102 bilhões, conforme dados de 2016. O local concentra atualmente atenção e esforços políticos do presidente Cyril Ramaphosa e seu partido, o Congresso Nacional Africano.

Tour

Ramaphosa queria levar os colegas ao sítio arqueológico de Maroteng, onde foram encontrados e estão preservados fosseis de ancestrais humanos. Porém, houve resistências das comitivas, e o tour acabou cancelado. O Estado apurou que o deslocamento também desagradava à comitiva brasileira, porque o trajeto levaria cerca de uma hora para chegar ao local. "As providências logísticas foram difíceis e não foi possível realizar esse plano", explicou Ramaphosa.

Em substutição, o governo sul-africano improvisou a transmissão de dança tribal e exibição dos esqueletos fósseis ao vivo num telão dentro de um dos salões do centro de convenções. Não deu certo. O sinal de áudio e vídeo falhou por duas vezes, repetindo um mesmo trecho como um disco arranhado, o que causou constrangimento e obrigou o Ramaphosa a encerrar a cerimônia antes da hora. 

"Acho que já vimos o bastante para nossa mente imaginar e entender de onde viemos", disse o sul-africano. Logo depois, os líderes dos cinco países gravaram suas mãos em blocos de concreto, que seriam levados depois para exposição no sítio arqueológico.

Segredo

O presidente Michel Temer escapou na tarde de quinta-feira e realizou uma visita não divulgada à Fundação Nelson Mandela. A visita foi reservada, mas era negociada há dias pela Presidência e o Itamaraty com a entidade. A sede e o centro de memória funcionam em Houghton Estate, também um bairro desenvolvido de Johannesburgo, reduto de judeus e muçulmanos.


A equipe da Presidência da República informava apenas que Temer havia se deslocado para o hotel onde se hospeda, enquanto o presidente passeava pela fundação e o centro dedicado à memória de Mandela. Nem todos os ministros acompanharam o presidente. No local, Temer encontrou-se com uma neta do ex-presidente sul-africano, a ativista social Ndileka Mandela, o CEO da fundação, Sello Hatang, e a ministra de Desenvolvimento de Pequenos Negócios, Lindiwe Zulu.  

"É uma coisa emocionante. Eu recomendaria fazer uma visita, porque a história dele marca não só a África como o mundo todo e marcou muito o Brasil", disse Temer a jornalistas ao retornar do tour.

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