EFE/Martial Trezzini
EFE/Martial Trezzini

Em reunião fechada, Maduro diz não aceitar críticas da ONU

Venezuelano alerta que questionamento sobre situação de direitos humanos no país é 'falta de respeito'; 'Estado' foi o único meio de comunicação a entrar no encontro

Jamil Chade, CORRESPONDENTE - GENEBRA , O Estado de S. Paulo

12 de novembro de 2015 | 18h05

GENEBRA – A presença do presidente Nicolás Maduro no órgão de direitos humanos da ONU abriu uma crise entre a Venezuela e a cúpula das Nações Unidas. Nesta quinta-feira, o venezuelano usou o palco do Conselho de Direitos Humanos da entidade, em Genebra, para defender os “avanços no campo de direitos humanos”. Mas ouviu duras críticas por parte das Nações Unidas. Inconformado, Maduro lançou ataques contra a entidade, enquanto países aliados anunciaram que iriam protestar a Ban Ki-moon pelo tratamento que o venezuelano recebeu.

Zeid al Hussein, alto-comissário de Direitos Humanos da ONU, usou a ocasião para alertar para os abusos cometidos por Maduro, indicou que os esforços para reduzir a pobreza perderam força, denunciou a repressão e acusou o governo de estar silenciando jornalistas, advogados e opositores. 

Havia sido Maduro quem pediu que a ONU reunisse seu órgão principal de direitos humanos. Em protesto, vários países se recusaram a enviar seus embaixadores ao encontro e estiveram presentes apenas com funcionários de baixo escalão. O encontro também foi criticado pelo governo americano que, em uma nota, atacou o “uso político do Conselho de Direitos Humanos” por Maduro.

Mas a delegação venezuelana acabou surpreendida pelas declarações de Zeid, por meio de uma mensagem pré-gravada. “Isso foi uma vergonha”, atacou Maduro, em uma reunião fechada apenas com aliados em que o Estado foi o único meio de comunicação que conseguiu entrar. “Não é a primeira vez que um funcionário qualquer nos ataca de maneira mentirosa, abusiva e mal-intencionada”, disse.  

Falando em uma reunião sem a presença da imprensa a um grupo de países que incluía Brasil, Arábia Saudita, Argélia, Cuba, Vietnã, Irã, Rússia e outros emergentes, Maduro acusou governos de “manipular cargos na ONU” e de estar sendo usada como “arma política contra processos dissidentes”. 

“Sr. alto-comissário, o sr. tem medo da Venezuela”, atacou, insistindo que pediu encontros com Zeid e lhe foi recusado. “Ele se nega a me receber e lança um vídeo. Isso é uma falta de respeito. Não estou aqui para isso. Ele não pode condenar a Venezuela. Isso não podemos aceitar e temos de enfrentar. Isso foi um atentado ao estado constitucional da Venezuela”, insistiu. “Quem é a ONU? Burocratas ou os governos?”, criticou. “Quem são eles?”

“Que nos respeitem. Exijo máximo respeito de quem nos ataca de forma covarde”, declarou. 

Por iniciativa de Caracas, uma carta foi enviada pelos países que fazem parte da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América (Alba) em protesto diante do comportamento de Zeid. “Não sei como isso foi possível”, atacou na reunião fechada a delegação saudita. “Não podemos deixar isso ocorrer de novo”, insistiu. Argélia e outros países também apoiaram. O Brasil, porém, não assinou a carta.

Críticas - Zeid, em sua mensagem, não poupou críticas a Maduro. “Temos expressado sérias preocupações sobre a independência do poder judiciário, a imparcialidade dos juízes e as pressões que enfrenta quando se trata de casos politicamente sensíveis “, disse,  citando diretamente a situação de Leopoldo Lopez. “Ele é uma ilustração evidente dos problemas”, insistiu. 

Zeid também denunciou a “intimidação, ameaças e ataques a jornalistas e advogados” e apelou para que o governo cumpra com as recomendações da ONU de “não submeter ninguém a pressão”.  

O comissário ainda notou que os avanços no combate à pobreza perderam força e alertou que “a declaração de um estado de exceção em 24 cidades (na fronteira com a Colômbia) é muito preocupante e deve ser retirada”. Zeid completou alertando que Estados devem “proteger os direitos humanos de todos, inclusive daqueles que não estão de acordo com as políticas do Estado”. 

A oposição venezuelana e organizações não governamentais (ONGs) internacionais também criticaram a autorização para que Maduro tomasse a palavra na ONU. “A Venezuela não deveria ser autorizada a usar o Conselho como um instrumento para se auto-promover”, disse a Human Rights Watch. 

Julieta López, tia do líder opositor Leopoldo López, foi uma das 50 ativistas que assinou uma petição para apoiar um boicote, além do líder estudantil, Eusebio Costa, a mulher de López, Lilian Tintori, e Mitzy Capriles, mulher do ex-prefeito de Caracas, Antonio Ledezma.

"A presença de Maduro no Conselho é uma piada aos venezuelanos. Não existe liberdade de expressão na Venezuela, as prisões estão lotadas e a oposição, presa", insistiu Costa. "Não podemos esconder a realidade de um país", disse Julieta.

O discurso ocorre a poucas semanas das eleições, marcadas para dezembro. Para os opositores, Maduro tentou usar a ONU como palco. No Conselho de Direitos Humanos, a Venezuela ocupa um dos três cargos destinados para a América Latina e sua escolha foi amplamente criticada por entidades de direitos humanos. 

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