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AP Photo/Alexander Zemlianichenko, Pool
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Biden e Putin se encontram em reunião tensa e histórica em Genebra

Encontro os dois líderes na Suíça deve durar cinco horas; entre os pedidos que o presidente americano deve apresentar ao russo estão o fim dos ciberataques contra os EUA e a retirada de tropas da Ucrânia

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2021 | 05h00
Atualizado 16 de junho de 2021 | 09h16

Os presidentes dos EUA, Joe Biden, e da Rússia, Vladimir Putin, apertaram as mãos em sinal de diminuição das tensões no começo da cúpula entre Rússia e Estados Unidos nesta quarta-feira, 16, em Genebra, na Suíça. 

Na reunião, que deve durar ao menos cinco horas, sem pausas para lanche ou almoço, Biden planeja pressionar Putin com uma lista de exigências, incluindo o fim dos ciberataques, a retirada russa da Ucrânia e um duro recado a respeito da interferência do Kremlin nas eleições americanas.

 No entanto, as exigências levantam uma questão que tem atormentado americanos e europeus: o que acontece se Putin ignorá-las, como ele já sinalizou que pretende fazer? Michael McFaul, ex-embaixador americano na Rússia, afirmou esperar mais do encontro do que mera discussão. “Seria bom se houvesse uma relação mais estável”, afirmou McFaul. “Mas, se isso fracassar, é necessário um plano B.”

Biden impôs sanções à Rússia em razão de seus ciberataques e interferências nas eleições - e afirmou na semana passada que reagirá sempre que a Rússia se envolver no que chamou de atividades nocivas. Mas ele também reconheceu os limites de seu poder. 

“Não há garantias de que sejamos capazes de mudar o comportamento de uma pessoa ou de seu país”, afirmou Biden a repórteres no domingo. "Os autocratas têm imenso poder e não têm de responder publicamente por suas ações. E o fato é que existe a possibilidade de, se eu responder na mesma moeda - o que eu certamente farei - isso não ser suficiente para impedi-lo, e ele pode querer continuar avançando.”

É difícil exagerar o que está em jogo para Biden em sua primeira reunião cara a cara com um adversário geopolítico. Um tema central de sua presidência é que as democracias trabalham melhor por seus povos do que as autocracias, e Putin está entre os principais oponentes dessa ideia. Biden também tem intenção de mostrar que os EUA deixaram para trás a tolerância da era Trump em relação a líderes autoritários, e esse momento é crucial para esse esforço.

Especificamente, Biden pretende demonstrar que não se submeterá a Putin da maneira que o ex-presidente Donald Trump se submeteu. Trump desprezou informações de inteligência a respeito da interferência da Rússia nas eleições de 2016, aceitando publicamente os desmentidos de Putin em relação ao tema durante uma cúpula em Helsinki. Em 2017, quando o apresentador da Fox Bill O'Reilly questionou Trump a respeito do histórico de Putin como assassino, Trump respondeu: "Há muitos assassinos. Você acha que nosso país é inocente?”.

Em contraste, questionado pela ABC News em março a respeito de Putin ter sido ou não um assassino, Biden afirmou diretamente que sim. E em uma cerimônia em celebração ao Memorial Day, em 30 de maio, Biden afirmou que diria ao líder russo quando o encontrasse que os EUA não ficariam do seu lado nem permitiriam seus abusos contra os direitos humanos.

Mas os EUA e seus aliados europeus têm lutado para fazer Putin mudar sua abordagem beligerante. Sanções e cúpulas fracassaram em persuadi-lo a suavizar sua ameaça militar à Ucrânia. A Rússia conseguiu interferir nas eleições americanas de 2020 da mesma maneira que em 2016, afirmam autoridades de inteligência. Na quarta-feira, quando Biden chegava ao Reino Unido, um tribunal russo criminalizava uma organização fundada pelo líder de oposição Alexei Navalni, um sinal nada sutil de que Putin não será dissuadido facilmente.

E as sanções têm seus limites. No mês passado, o governo americano decidiu não sancionar a empresa russa por trás do gasoduto Nord Stream 2, concluindo que isso poderia desestabilizar as relações com a Rússia e os países europeus que receberão gás natural por meio de suas instalações.

Poucos temas ilustram melhor o dilema de Biden do que os recentes ataques com ransomware contra empresas americanas realizados por coletivos criminosos de hackers com base na Rússia. Em maio, um desses ataques teve como alvo a Colonial Pipeline, o que interrompeu temporariamente o abastecimento de combustíveis em partes dos EUA, e semanas depois outro ataque do tipo atingiu a maior produtora de carne do mundo, forçando a empresa a interromper as atividades de todas as suas instalações de processamento nos EUA.

O presidente afirmou que os ataques com ransomware são inaceitáveis, mas não anunciou ainda nenhuma retaliação. Ainda assim, a audácia desses ataques elevou a pressão para que Biden responda de maneira contundente.

“Temos de garantir que novas tecnologias e regras de conduta no ciberespaço sejam estabelecidas, incluindo lidar com a crescente ameaça dos ataques com ransomware, e sejam regidas por nossos valores democráticos e não pelos autocratas que estão permitindo que isso aconteça”, afirmou Biden a soldados americanos na base da Força Aérea Real de Mildenhall, na Inglaterra, antecipando parte de sua agenda na reunião do G-7 que começou na sexta-feira.

Mas Putin deverá demonstrar desdém. Questionado em uma entrevista de 2018 com a  NBC a respeito do motivo da Rússia não prender hackers suspeitos de terem interferido nas eleições americanas em 2016, Putin respondeu: “Se eles não violaram a lei russa, não há por que processá-los na Rússia”.

Em uma cúpula econômica em São Petersburgo, este mês, o porta-voz do Kremlin Dmitri Peskov afirmou que a Rússia não é o único país onde hackers estão presentes, e Putin disse a um canal estatal de TV que a ideia de que cibercriminosos russos atacaram um oleoduto e uma empresa de processamento de carne é absurda e simplesmente ridícula.

“Os ciberataques são certamente a carta curinga no relacionamento que poderia fazer as coisas piorarem bastante”, afirmou Ian Bremmer, presidente do Eurasia Group, uma firma de análise de risco. “Vamos ter de pressionar mais a Rússia para agir contra isso, e não está claro se Putin se importa - e não está claro se Biden está preparado para pressioná-lo com força suficiente.”

Tática russa

Enquanto isso, Putin não tem hesitado em rebater os sinais de Biden. A imprensa estatal da Rússia tenta retratar Biden, de 78 anos, como um idoso frágil e sem forças, exibindo a imagem do americano tropeçando na escada do avião presidencial justapostas a uma filmagem de Putin, de 68 anos, conduzindo um veículo off-road na Sibéria.

Depois de Biden concordar durante entrevista à ABC News que Putin foi um assassino, alguns legisladores russos questionaram a saúde mental do americano. Dmitri Medvedev, que presidiu a Rússia entre 2008 e 2012, afirmou que o tempo não poupou Biden e citou Sigmund Freud: “Nada na vida custa tão caro quanto a doença e a estupidez”.

Putin tem sido mais discreto em seus comentários. Mas em uma demonstração de escárnio do Kremlin, ele esperou até que todos os 306 votos que Biden conquistou no colégio eleitoral tivessem sido registrados formalmente antes de felicitá-lo por sua vitória nas eleições, o que analistas viram como uma tentativa de legitimar as alegações infundadas de Trump de que o resultado da eleição foi fraudado.

Em resposta ao rótulo de “assassino”, Putin respondeu com uma brincadeira infantil equivalente a “Eu sei o que você é, mas o que eu sou?”.

E o russo tem reiterado sua antiga mensagem de que reclamações de americanos a respeito de violações de direitos humanos são hipócritas. Em resposta à intenção anunciada por Biden de pressionar a Rússia a respeito da maneira que o país responde a Navalni e outros ativistas políticos, Putin citou o processo dos EUA contra os insurgentes que participaram do ataque de 6 de janeiro contra o Capitólio, afirmando que eles não são saqueadores nem ladrões, mas pessoas que apresentaram reivindicações políticas.

Então, na quinta-feira, noticiou-se que a Rússia estava se preparando para fornecer ao Irã um avançado sistema de satélite que aumentará a capacidade de espionagem de Teerã e dará ao país persa a possibilidade de rastrear alvos militares no Oriente Médio e em outras regiões.

Trump também parece decidido a tentar complicar o encontro de Biden com Putin. Em um comunicado emitido na quinta-feira, o ex-presidente americano qualificou a reunião que teve com o russo em Helsinki como ótima e muito produtiv”, e provocou seu sucessor: “Boa sorte a Biden ao lidar com o presidente Putin - não caia no sono durante a reunião e, por favor, transmita a ele minhas mais efusivas saudações!”.

Enquanto Biden afirmou nesta semana que a reunião com Putin possibilitará que ele fique sabendo do que eu quero que ele saiba, alguns analistas sugeriram que Putin tende a se mostrar imune ao estilo de comunicação de Biden. “O superpoder de Biden sempre foi sua empatia” e a capacidade de se conectar com as pessoas, afirmou Bremmer, mas Putin "não é um líder caloroso e amistoso”, acrescentando que o russo se tornou “ainda mais cínico em relação aos EUA”.

Já que um dos objetivos de Biden é simplesmente sinalizar uma posição mais dura, a Casa Branca deverá divulgar qualquer demonstração de força do presidente americano como um sucesso, mesmo se a reunião não resultar em avanços específicos.

“Há grandes expectativas ao mesmo tempo em que quase nada está em jogo”, porque nenhum dos lados está tentando alcançar nenhuma grande conquista, afirmou Andrea Kendall-Taylor, especialista em Rússia e Europa do Center for a New American Security. “E um dos fatores mais importantes, também, é que os dois países possuem os dois maiores arsenais nucleares do mundo e têm, fundamentalmente, visões diferentes de mundo.”

McFaul ressaltou que Putin tem longa experiência em encarar de frente presidentes americanos em cúpulas, o que, segundo o ex-embaixador americano, poderia dar ao líder russo vantagem sobre Biden. “Não é sua primeira vez. Ele já esteve lá, e isso cria a primeira assimetria entre eles”, afirmou McFaul.

Biden é o primeiro presidente americano em anos que não declarou intenção de redefinir as relações entre EUA e Rússia, em parte com o objetivo de estabelecer um laço mais forte com Putin. O russo se provou um mestre em convencer presidentes americanos de que os líderes dos países devem trabalhar juntos, somente para manter a Rússia fundamentalmente no mesmo curso de sempre.

É bem conhecido que o ex-presidente George W. Bush, depois de encontrar-se pela primeira vez com Putin, em 2001, afirmou que “Eu olhei o homem nos olhos. Vi uma pessoa muito franca e confiável… Consegui sentir sua alma."

Quando era vice-presidente, Biden aparentemente tinha esse comentário na cabeça quando se encontrou com Putin em 2011 e, segundo relatou, disse ao líder russo, “não acho que você tenha alma”.

Apesar dessa retórica, Biden ressaltou que está aberto para trabalhar com Putin em áreas de interesse mútuo, afirmando que os EUA “não buscam conflito com a Rússia”.

Aliados dos EUA e diplomatas afirmam que o momento do encontro entre os líderes - imediatamente após a participação de Biden em cúpulas do G-7, da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e da União Europeia - permitirá ao presidente americano expressar as preocupações não somente de seu país, mas também da aliança das democracias ocidentais, de maneira mais abrangente.

“O fato de ele se reunir com Putin após ter se encontrado conosco é muito melhor do que se tivesse ocorrido o contrário”, afirmou Philippe Etienne, embaixador francês nos EUA.

Como parte da pauta do encontro, o governo Biden tentará estabelecer “parâmetros básicos" com a Rússia e espera anunciar um acordo a respeito de controle de armas, afirmou Kendall-Taylor, que é coapresentadora do podcast Brussels Sprouts.

Semanas após assumir a presidência, o governo Biden agiu para estender o tratado Novo Start, que restringe a mobilização de mísseis balísticos intercontinentais, acordo que expirará em 2026 se não for renegociado.

“A prioridade número um é simplesmente estabelecer linhas de comunicação em todos os níveis”, afirmou Kendall-Taylor. “Esse governo está preocupado com o risco de conflito entre EUA e Rússia, levando em consideração que operamos em estreita proximidade no mundo e há sempre o risco de desentendimentos.”/ AP, W.POST

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