GabrielQuintao/Goethe-Institut
GabrielQuintao/Goethe-Institut

Em São Paulo, avanço da direita radical decepciona comunidade alemã

Dezenas de pessoas participaram de 'festa eleitoral' para acompanhar a apuração da votação legislativa; para cônsul-geral em São Paulo, Axel Zeidler, resultado da Alternativa para a Alemanha (AfD) 'não é um perigo para a democracia'

Murillo Ferrari, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2017 | 20h05

Ao som de música alemã contemporânea e acompanhados de comida típica e cerveja, dezenas de pessoas participaram neste domingo, 24, de uma "festa eleitoral" promovida no Goethe Institut de São Paulo para acompanhar os resultados da eleição legislativa que deu à chanceler Angela Merkel seu quarto mandato.

O clima de festividade, no entanto, deu lugar a uma mistura de preocupação e incerteza depois de a imprensa alemã divulgar as projeções da votação, atestando o crescimento eleitoral do partido Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla em alemão), que deve conquistar ao menos 13% dos votos e se tornar primeira legenda radical de direita a chegar ao Parlamento desde o fim da 2ª Guerra.

Cerca de 15 minutos antes, a organização do evento divulgou resultado de uma eleição realizada entre os presentes no qual o AfD apareceu em último lugar, com pouco menos de 2% dos votos. A grande vencedora do simulacro foi a União Democrata-Cristã (CDU) de Merkel, que teve 49% dos votos, vantagem bem mais confortável do que os quase 33% esperados na eleição real.

Na votação simbólica, os social-democratas (SPD) obtiveram 19,6% dos votos e ficaram na segunda posição, cenário similar ao projetado na votação real. Ainda entre os "eleitores" paulistanos, os Verdes e o Partido Liberal Democrático (FDP) empataram em terceiro, com 16,6% dos votos cada, resultados mais favoráveis do que devem obter na Alemanha.

"Nós montamos este evento, que eu comparo com o que fazemos para acompanhar jogos de futebol, porque é também um pouco como as pessoas pensam e até votam", disse a diretora-executiva do Goethe Institut São Paulo, Katharina von Ruckteschell-Katte. "Discussões sobre aspectos positivos e negativos de sistemas eleitorais, como fizemos aqui, são uma forma de promover intercâmbio cultural."

A festa eleitoral também contou com palestra do professor de relações internacionais da FGV, Oliver Stuenkel, que falou sobre a renovação do Bunddestag, o Parlamento alemão, e os principais desafios que a nova coalizão de governo deve enfrentar no país nos próximos anos.

"O avanço dos partidos extremistas mostram que, na sociedade e dentro das ciências políticas, ainda não conseguimos compreender o que está por trás (da ascensão) de Donald Trump nos Estados Unidos, do Brexit na União Europeia e também da votação no AfD", disse Stuenkel.

Ainda sobre o resultado obtido pelos radicais de direita, o cônsul-geral da Alemanha em São Paulo, Axel Zeidler, disse que a votação não pode ser ignorada, "mas também significa que 87% dos eleitores apoiaram os partidos democráticos estabelecidos". "Não é um perigo para a democracia", disse Zeidler, ressaltando também que a formação de uma nova coalizão por Merkel "não deve representar mudanças na relação entre a Alemanha e o Brasil".

O economista Milton Longobardi, de 72 anos, afirmou que foi ao evento porque considera a Alemanha um exemplo de democracia em bom funcionamento e acredita que uma boa avaliação do país europeu poderia contribuir para o desenvolvimento do Brasil.

"Os acontecimentos recentes na política mundial mostram que passamos por momentos turbulentos e acho que podemos aprender com casos positivos", disse Longobardi, que é casado com uma alemã. "Neste sentido, me interessa muito o modelo de financiamento das campanhas eleitorais alemãs, tema que deveria ser melhor pensado no nosso País."

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