EFE/ Ana Paula Chain
EFE/ Ana Paula Chain

Em São Paulo, venezuelanos lamentam falta de união do próprio povo

Muitos venezuelanos que vivem no Brasil torcem para mudança de regime na Venezuela para poderem voltar ao seu país

Waldheim García Montoya / EFE, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2019 | 14h48

"Falta coordenação. Os bolivianos são muito unidos, mas nós, os venezuelanos, não somos assim", lamentou, em referência à consolidada comunidade de cidadãos da Bolívia que vive no Brasil, a venezuelana Oliuska Arvoredo, que espera que o governo de Nicolás Maduro caia, como muitos exilados no país.

O líder opositor e autoproclamado presidente interino da Venezuela, Juan Guaidó, anunciou nesta terça-feira, 30, que conta com o apoio de um grupo de militares para restaurar a democracia e "acabar com a usurpação de poder" - como os antichavistas se referem ao governo de Nicolás Maduro -, em um vídeo gravado de uma base aérea de Caracas e publicado nas redes sociais.

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Aos 19 anos, Oliuska é estudante de Ciências Políticas e chegou a São Paulo graças ao programa "Operação Acolhida", que envolve 11 ministérios, possui apoio e engajamento de organizações da sociedade civil e de diversas agências da Organização das Nações Unidas (ONU), e que, em abril, completou um ano de funcionamento.

A jovem, que veio com o marido, o filho e dois irmãos, espera conseguir um emprego, como fez o companheiro, que está trabalhando em um laboratório ótico. Ela, no entanto, que disse ter deixado a Venezuela por falta de comida e condições para estudar, lamenta a falta de união entre os imigrantes venezuelanos. O receio é de que as crianças que nasçam no exterior ou desde muito pequenas sejam criadas no Brasil possam perder os laços culturais com o país natal.

De acordo com a Polícia Federal, em 2017 cerca de 70 mil venezuelanos entraram no território brasileiro e, em 2018, esse número chegou a 130 mil, sendo que 96 mil pediram para regularizar a situação. A quantidade pode ser maior se foram considerados os que entraram de forma irregular ou estão de passagem para seguir rumo à Argentina, Uruguai, Paraguai ou Chile.

A maioria dos venezuelanos entrou por Roraima, fazendo registro prévio em Pacaraima, a primeira cidade da fronteira. Depois, a "Operação Acolhida" coordena a realocação em outras partes do país. Até março, 5.482 venezuelanos já havia sido reconduzidos. Rio Grande do Sul (18,4%), São Paulo (16,2%) e Paraná (10,3%) foram os Estados que mais imigrantes receberam.

A cidade de São Paulo também foi o destino do marceneiro Eduardo Marrero, de 36 anos, que estudava administração de empresas. Como muitos dos compatriotas, afirmou que voltará para o seu país assim que o governo do presidente Maduro acabar. "Acho que uma das saídas é que o cenário militar mude. Temos muito a agradecer ao Brasil, mas a Venezuela é o meu país e tenho fé e esperança na mudança", disse Marrero.

O padre Paolo Parise, diretor da instituição Missão Paz, está à frente do abrigo que recebe imigrantes em São Paulo, muitos deles venezuelanos. "Os haitianos têm mais histórico de migração, enquanto os venezuelanos sempre foram um povo que recebeu imigrantes, e agora é forçado a sair do seu país", explicou ele, ao comparar dois importantes fluxos migratórios do país nos últimos cinco anos.

Segundo Parise, agora, com os venezuelanos, existe mais diálogo e coordenação entre os governos e os diversos atores, com um planejamento mais detalhado do itinerário e ações dentro do Brasil. "O grande desafio é pensar depois da chegada, no processo de inserção, aprendizagem do idioma, busca de emprego", disse o padre, para quem a chegada a São Paulo deve ser vista como uma "etapa" do processo de realocação e não como uma solução definitiva dos venezuelanos que recebem amparo no Brasil.

O religioso afirmou, no entanto, que a conjuntura econômica do Brasil atualmente é mais complicada do que na época dos haitianos. "Há mais desemprego e o risco, na percepção dos brasileiros, é que os venezuelanos podem tirar deles postos de trabalho, porque muitos inclusive têm título profissional", avaliou.

De acordo com Yssyssay Rodrigues, coordenadora de Projeto da Organização Internacional para as Migrações (OIM) da ONU em Roraima, existem quatro modalidades contempladas pelo programa: transferência de um abrigo para outro dentro do país; reunião familiar - em que o programa facilita a compra passagem aérea em território nacional até o local onde estão os parentes -; por trabalho - com ofertas coordenadas pelo Exército -; e através da sociedade civil - em ações específicas como a de amparo por pessoas comuns.

Além das 303 passagens aéreas pagas pela OIM, a Força Área facilitou, no último ano, 39 voos fretados para venezuelanos de Boa Vista para 52 municípios em 16 Estados do país. O perfil do venezuelano que chega ao país é de uma pessoa com idade entre 20 e 40 anos, 55,7% dos imigrantes são homens e 81% é casado ou tem um parceiro. /EFE

 

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