Em Selma, 70 mil reeditam marcha

Violência policial e desigualdade de renda preocupam jovens em ato no Alabama

CLAUDIA TREVISAN , ENVIADA ESPECIAL/ , SELMA, ALABAMA, O Estado de S.Paulo

09 Março 2015 | 02h02

Ao menos 70 mil pessoas de diferentes cores, credos e idades refizeram ontem os passos dos que marcharam há 50 anos da Capela Brown para cruzar a ponte Edmund Pettus, em Selma, símbolo da conquista do direito de voto pelos negros americanos. A maioria veio de outras cidades dos EUA, em caravanas destinadas a prestar homenagem aos ativistas que arriscaram suas vidas para desafiar a segregação racial.

Hynessi Carter, de 18 anos, estava em um grupo de 20 estudantes secundaristas que viajou de Minnesota para participar das celebrações. "Nós viemos para aprender mais sobre o movimento pelos direitos civis", disse ao Estado depois de fazer uma selfie com o grupo. Os estudantes também estão preocupados com problemas do país hoje: violência policial e desigualdade de renda.

A multidão dominou as ruas da cidade de 20 mil habitantes. A polícia, que estimou o público em 70 mil pessoas, avaliou que seriam necessárias horas para que todos cruzassem a ponte, segundo o Selma Times-Journal.

Entre os participantes estavam centenas de integrantes da Igreja Unitária Universalista, cujos membros tiveram participação ativa no movimento pelos direitos civis 50 anos atrás. Dois dos quatro mártires das marchas de Selma a Montgomery pertenciam à igreja: o ministro James Reeb e Viola Liuzzo, mãe de cinco filho morta a tiros por defensores da supremacia branca quando ajudava os participantes da marcha a retornarem a suas casas de Montgomery.

Tanto Reeb quanto Liuzzo eram brancos e seu apoio aos negros não era aceito pela Ku Klux Klan. A morte de Reeb é retratada no filme Selma, que este ano concorreu ao Oscar: ele foi espancado até à morte depois de sair de um restaurante da cidade na noite de 9 de março de 1965. Horas antes, havia participado da segunda tentativa de realização da marcha a Montgomery.

Mary Perkins viajou da Flórida com seu marido para participar do evento de ontem. Ambos estavam acompanhados da filha, do genro e de suas duas netas: Gabrielle e Elizabeth Moore, de 3 e 7 anos, respectivamente. "Meus pais eram de Selma e eu vim para lembrar tudo o que aconteceu para que chegássemos aqui, todo sangue que foi derramado, e para mostrar que nós não desistiremos", disse Perkins. Em suas mãos, um cartaz com os dizeres "Ainda lutando pelos direitos de voto".

História. No dia 7 de março de 1965, um grupo de 600 ativistas que pretendia marchar de Selma a Montgomery foi brutalmente atacado pela polícia depois de cruzar a ponte Edmund Pettus, a mesma que foi tomada pelos que ontem celebraram seu sacrifício. A data ficou conhecida como Domingo Sangrento.

A violência policial e a morte de Reeb dias mais tarde comoveram a opinião pública americana e levaram o presidente Lyndon Johnson a enviar ao Congresso o projeto da Lei do Direito de Voto, no dia 15 de março.

Liderada por Martin Luther King Jr., a marcha do dia 9 de março deu meia volta depois da travessia da ponte - o reverendo decidiu aguardar autorização judicial para seguir adiante. A caminhada acabou tendo início no dia 21, quando 2,5 mil pessoas saíram da Capela Brown, em Selma. No dia 25, cerca de 25 mil pessoas caminharam até às escadarias da Assembleia Legislativa do Alabama, em Montgomery.

Com 90 anos de idade e em uma cadeira de rodas, Corine Crayton viajou a Selma de Opp, outra cidade do Alabama. Ela não participou da marcha de 1965, mas trabalhou com King em Montgomery. Ainda hoje, chora ao falar do assassinato do líder do movimento pelos direitos civis, em 1968.

Seu pai trabalhava em uma fazenda de propriedade de brancos e sua mãe era cozinheira de uma família branca. Crayton estudou na Universidade de Selma e trabalhou como professora.

"Nós percorremos um longo caminho, mas ainda há um longo caminho a percorrer", afirmou, ecoando um sentimento comum entre os que estiveram em Selma no fim de semana.

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