REUTERS/Lucas Jackson
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Em semana decisiva, Sanders vê Biden crescer e não consegue mudar rumos da campanha

Senador não conseguiu apoio interno no momento em que o ex-vice-presidente Joe Biden ganha cada vez mais força

Sean Sullivan / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2020 | 10h10

DETROIT - Depois de amargar derrotas importantes na Superterça de 3 de março, o senador Bernie Sanders enfrenta mais uma semana crítica em que esperava angariar apoios, mudar o rumo de sua campanha e revitalizar a disputa com o ex-vice-presidente Joe Biden. Mas não foi isso que aconteceu. E Sanders gastou muito tempo lutando contra o próprio partido que ele espera liderar.  

O senador de Vermont acusou ex-rivais de ceder à pressão do establishment para apoiar Joe Biden. Alguns de seus apoiadores fizeram inclusive alegações infundadas de que Biden estava se deteriorando mentalmente. E Sanders descartou um discurso que sua equipe disse que seria uma declaração importante sobre justiça racial.

"Não havia abertura para um consenso", disse Markos Moulitsas, fundador do site liberal Daily Kos, que apoiou a senadora Elizabeth Warren, de Massachusetts. Warren desistiu após os resultados da Superterça e não apoiou Sanders.

A deputada Alexandria Ocasio-Cortez, uma proeminente defensora do Sanders que fez campanha com ele, discordou dos apoiadores do Sanders que atacavam Warren. A decisão de Warren de não endossar Sanders depois de ter abandonado a campanha, ao criticar Sanders pelas provocações online de seus aliados, foi uma repreensão notável de um aliado ideológico. 

"Quando as coisas começam a dar errado, não acho que procurar quem culpar, ao invés de identificar como se adaptar, é a coisa mais inteligente a se fazer", disse Ocasio-Cortez em entrevista. 

Dificuldades 

Mas na noite de terça-feira ficou claro: a tentativa de uma abordagem mais abrangente por parte de Sanders enfrentava problemas. Crescendo desde a Superterça, Biden obteve vitórias consideráveis em Michigan e em outros três Estados, aproximando-se de uma liderança cada vez mais importante no número de delegados. 

As perdas de Sanders uma semana antes haviam criado um momento de acerto de contas para uma campanha que parecia adequada para um campo fraturado, mas mal preparada para uma rápida consolidação de seus oponentes. Os funcionários da campanha de Sanders  haviam discutido por meses o poder de seus seguidores limitados - mas apaixonados - em uma disputa onde a oposição estava dividida.

Quando o partido reuniu-se em torno de Biden quase da noite para o dia, foi um soco no estômago e a campanha lutou para se recuperar. Os aliados de Sanders ficaram impressionados com a rapidez com que Pete Buttigieg e a senadora Amy Klobuchar, duas importantes lideranças centristas, apoiaram Biden.

"Você basicamente teve o evento mais inédito na história das primárias presidenciais", disse Ben Tulchin, consultor de pesquisas de Sanders. "Saindo desse evento sem precedentes, tivemos que focar nos Estados de 10 e 17 de março". A campanha jogou tudo o que havia na vitória de Michigan, um Estado rico em delegados, onde Sanders teve sua maior virada há quatro anos contra Hillary Clinton. Se ele pudesse mostrar que era mais forte que Biden em um Estado essencial para a vitória do presidente Trump, a campanha estaria de volta - o que também não aconteceu. 

Quando Sanders cancelou os planos de Sanders passar um tempo no Mississippi em favor de Michigan, sinalizou para muitos democratas que ele estava desistindo dos eleitores negros no sul, que favoreceram fortemente Biden.

Ao mesmo tempo, integrantes da campanha elaboraram um plano para Sanders intensificar seus ataques ao ex-vice-presidente, enviando um memorando aos apoiadores antes mesmo da Superterça declarando uma nova fase e divulgando um anúncio de TV que atacava Biden pelo nome pela primeira vez.

Como o ex-vice-presidente acumulava novos apoios todos os dias, retratando-se como uma força unificadora e o candidato cada vez mais inevitável, Sanders, que se sente menos à vontade atacando diretamente Biden ou qualquer outra pessoa do que falando de seu próprio programa, abriu novas frentes contra seu principal rival, buscando prejudicá-lo pelos direitos dos gays e pelo aborto. 

Na segunda, em um evento em St. Louis, Sanders assinalou uma série de questões sobre as quais ele disse que Biden estava errado. "Joe Biden votou na guerra no Iraque. Eu votei contra a guerra no Iraque", disse ele. "Joe Biden votou no resgate de Wall Street. Ajudei a liderar o esforço contra o resgate de Wall Street. Joe votou em acordos comerciais desastrosos. Ajudei a liderar o esforço contra esses terríveis acordos comerciais". 

Em seguida, ele apontou para um dos principais pontos de Biden - a elegibilidade. "Meu objetivo aqui é pedir que você pense: em uma eleição geral, qual candidato pode gerar entusiasmo e empolgação?", Sanders questionou.  

A incapacidade de Sanders de aumentar sua coalizão tem sido prejudicial, uma vez que uma premissa central de sua candidatura é a de que ele expandirá o eleitorado, atraindo jovens para a política. Isso, em teoria, compensaria seu desafio de conquistar democratas mais tradicionais. 

Coalizão difícil 

A semana passada mostrou o quanto a campanha de Sanders é uma coalizão rebelde e não uma operação rígida, pois os aliados expressaram várias teorias conflitantes sobre o que ele precisava fazer. Alguns disseram que Sanders precisa mostrar um lado mais pessoal, uma sugestão recorrente da qual ele tem sido relutante.

"Ele precisa realmente falar de coração para as pessoas", disse RoseAnn DeMoro, uma amiga íntimo de Sanders que enviou um e-mail ao senador e sua mulher na semana passada incentivando essa abordagem. "Estamos enfrentando tubarões", acrescentou, e Sanders deveria "dizer à América quem ele é".

A campanha também viveu idas e voltas sobre decisões estratégicas, debatendo nos últimos dias se lançaria pesquisas internas mostrando uma disputa competitiva com Biden em Michigan, por exemplo, de acordo com pessoas com conhecimento da situação. No final, a campanha não divulgou dados de pesquisa, optando por não arriscar definir expectativas e depois ficar aquém. Ao fim da terça e com os novos resultados de Biden, o caminho de Sanders estava mais incerto do que nunca. 

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