Em Teerã, incertezas no topo

Enquanto premiê de Israel combate negociações com os iranianos no Congresso dos EUA, sucessão do aiatolá Khamenei é guerra silenciosa

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

04 Março 2015 | 02h06

O primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, está em Washington e Barack Obama não está contente. No pano de fundo desse imbróglio extraordinário entre Washington e seu caro aliado israelense, a vontade de Obama de encerrar a longa disputa com Teerã após ter decidido o complicado contencioso do programa nuclear iraniano.

Nos Estados Unidos, o projeto de Obama desagrada aos republicanos. Foi por isso que eles convidaram, nas barbas de Obama, o israelense Netanyahu a Washington. Também no Irã, há dois campos ferozmente antagônicos: os partidários do "degelo" com os Estados Unidos, tutelados pelo presidente da república Hassan Rohani e, contra eles, um personagem secreto, quase invisível, mas de um poder assustador: Ali Khamenei, o "Guia da Revolução", passionalmente hostil aos Estados Unidos. Portanto, a máquina iraniana também está emperrada.

Se os rumores que circulam no meio da espionagem e em certas embaixadas forem considerados críveis, uma das peças mais perigosas desse tabuleiro corre o risco de cair. Trata-se, justamente, do aiatolá Khamenei, que recusa qualquer aproximação com Washington. Aliás, circulam rumores de que Khamenei estaria gravemente doente.

A grande questão é a seguinte: no caso de um desfecho, quem vai assumir o papel de "guardião supremo da revolução"? Ocorre que os homens passíveis de suceder a Khamenei se dividem também entre os dois campos. Uns querem "virar a página". Outros querem continuar a ler a mesma página, a que escreveu há 40 anos o aiatolá Khomeini: ódio ao "grande satã" americano.

Sem estabelecer uma lista exaustiva, pode-se citar o favorito, o grande aiatolá Hashemi Sharudi, de 66 anos, que possui um trunfo importante: é uma autoridade religiosa muito alta, pois é o "marjah taqlid", o que lhe dá o direito de emitir "fatwas" (decretos islâmicos). Ele é considerado moderado.

Será em março de 2016, daqui a um ano, que a Assembleia de Especialistas - 86 religiosos - ratificará o nome do sucessor de Khamenei. Diante desse moderado que é Sharudi, percebem-se outros integrantes austeros e intransigentes: Ahmad Khatami, catalogado como "radical", e Ahmad Jannati, mais radical ainda. No campo dos moderados há dois homens: Hashemi Rafsanjani e Hassan Rohani, atual presidente.

No caso de não surgir nenhuma figura diante da Assembleia de Especialistas, o filho do atual guia supremo, Motjaba Khamenei, poderia ter sua chance. Aparentemente, esse excelente filho não deve ser muito mais brando que seu terrível pai, já que ele chefia a milícia Basij, submetida à Guarda Revolucionária.

Tais são as sombras que se agitam por trás da grande negociação. O choque entre os dois campos é tão frontal que, há semanas, Rohani ameaçou conceder ao povo o direito de se pronunciar sobre um eventual acordo nuclear por meio de um referendo. A réplica foi fulminante: o jornal Kayhan acusou o presidente de agir sob as ordens de Jerusalém e de Washington. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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