Abedin Taherkenareh/EFE/EPA
Abedin Taherkenareh/EFE/EPA

Em Teerã, o assunto do momento é a eleição nos EUA

Dia a dia do país foi fortemente alterado por decisões americanas

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2020 | 04h00

TEERÃ - Washington vem exercendo uma política de "pressão máxima" contra Teerã há mais de dois anos, e os iranianos, divididos entre a esperança e o derrotismo, não tiram a eleição presidencial americana da cabeça.

A política doméstica dos EUA a desperta enorme interesse no Irã. O dia a dia de seus habitantes foi fortemente alterado pelas decisões tomadas nos Estados Unidos, em um contexto de relações conflituosas entre Washington e Teerã que já dura mais de quatro anos.

Desta vez, porém, "a percepção geral é que o resultado dessas eleições presidenciais é crucial para a população", explicou à Agência France Press Zeinab Esmaili, repórter no jornal reformista Sharq e especializada em diplomacia.

Nessas circunstâncias, "é normal que falemos sobre as eleições nos Estados Unidos", confirmou Mohamad Amin Naqibzadeh, um estudante de geopolítica de 28 anos.

Desde junho de 2019, as tensões entre Irã e Estados Unidos aumentaram o temor de um conflito direto em duas ocasiões.

E, de fato, em família, entre amigos, ou no bazar, fala-se apenas disso, ou quase, porque as outras duas preocupações - para não dizer obsessões - do momento ainda são a alta dos preços e o valor do rial (moeda nacional) no mercado de câmbio. Ambos estão intimamente relacionados com a disputa eleitoral nos Estados Unidos.

Em 2018, a decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de retirar unilateralmente seu país do acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano assinado em 2015 em Viena e de restabelecer sanções contra a República Islâmica mergulhou o Irã em uma recessão com repercussões sociais dramáticas.

"Caminho confiável"

A pandemia da covid-19, que atinge fortemente o Irã, piorou ainda mais a situação, e o colapso do rial (que perdeu quase 90% de seu valor em relação ao dólar em três anos) não para, levando a uma inflação galopante.

A República Islâmica frequentemente chama de mentiras as alegações de Washington de que suas sanções não afetam a população iraniana.

Oficialmente, a linha das autoridades é clara. Trump, que aspira a um segundo mandato, e seu adversário democrata, Joe Biden, são as duas faces da mesma moeda: a do sistema de "arrogância internacional", do "Grande Satã", ou simplesmente do "inimigo".

Nas ruas de Teerã, porém, a população não esconde que espera que Biden vença.

Diante de um Donald Trump que continuaria sua política de "pressão máxima", caso fosse reeleito, Joe Biden indicou, no primeiro debate, que gostaria de propor "ao Irã um caminho confiável de volta à diplomacia". A possibilidade de reincorporação dos Estados Unidos ao acordo de Viena estaria, então, sobre a mesa.

Se Biden vencer, "há esperança de que volte ao acordo", negociado e selado durante sua gestão como vice-presidente de Barack Obama, diz Mohamad Ali Kiani, outro estudante de geopolítica de 28 anos.

"Em geral, a população acredita que uma vitória de Biden seria melhor para o Irã", constata Esmaili, a jornalista do Sharq.

"O que as pessoas realmente esperam é que sua situação econômica melhore. Eles não se importam com quem está na Casa Branca", pontua Maziar Josravi, um jornalista independente.

"Ilusão"

Para Esmaili, no entanto, os iranianos "consideram muito provável que Trump consiga um segundo mandato e que a alta dos preços e a desvalorização do rial vão continuar".

Nas redes sociais iranianas, o anúncio de que Trump havia testado positivo para covid-19 gerou todo o tipo de teorias e piadas que ligavam sua saúde às taxas de câmbio.

O economista reformista Said Leylaz vê Trump como o candidato favorito dos "conservadores iranianos, especialmente dos radicais" porque, como explicou à Agência France Press, "uma abordagem americana radical a Teerã também radicaliza o jogo político no Irã".

Leylaz espera que, "se Biden chegar ao poder, ele mudará seriamente a política dos EUA em relação ao Irã".

Há, contudo, quem avise que a vitória de Biden também não garantiria uma grande mudança na República Islâmica, já que seriam apenas cinco meses entre a posse do próximo presidente americano (20 de janeiro) e a eleição presidencial iraniana (18 de junho) - um prazo muito curto para abrir qualquer negociação sobre o programa nuclear.

Abertamente contrário a qualquer discussão com Washington, Hamidreza Taraqi, líder do Partido da Coalizão Islâmica, que faz parte da aliança conservadora que ganhou as eleições legislativas de fevereiro, disse que é uma "ilusão" acreditar que Biden pode trazer qualquer "abertura".

A República Islâmica "tentou tanto com os democratas quanto com os republicanos", disse ele à Agência France Press, e "nenhum deles embarcou no caminho de resolver os problemas" do país. /AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.