AFP PHOTO / Odd ANDERSEN
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Em Templin, segredos do favoritismo de Merkel 

Cidade que cunhou a ‘Angela política’ a admira, mesmo sem apoiá-la nas urnas

Andrei Netto, Enviado Especial / Templin, Alemanha, O Estado de S.Paulo

22 Setembro 2017 | 05h00

Passaram-se quase 50 anos, mas Erika Benn ainda se recorda do dia em que chorou de emoção ao ver sua pupila Angela Kasner, de 14 anos, vencer a Olimpíada de Russo, primeiro em sua cidade, depois em Neubrandenburg, e finalmente em Berlim. Nessa época, a jovem esguia, muito magra, muito reservada e circunspecta, aplicada, inteligente e ambiciosa, cursava o oitavo ano da escola primária Johann Wolfgang von Goethe, na pequena cidade medieval de Templin, na Alemanha Oriental, próxima da fronteira com a Polônia. 

Angela fazia parte do Clube de Russo, organizado pela professora em seu apartamento para aprimorar, todos os domingos, o idioma da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Hoje com 80 anos, Erika pensa na adolescente quando vê sua ex-aluna, a hoje chanceler da Alemanha, Angela Merkel, de 63 anos.  “A senhora Merkel”, disse ao Estado a ex-professora, em sinal de respeito à atual chefe de governo, “era uma aluna muito boa, muito ambiciosa, que eu apreciava muito”. 

A proximidade afetiva, no entanto, pouco vai significar no domingo, quando a chanceler estiver disputando nas urnas, contra o social-democrata Martin Schulz, sua quarta eleição, que pode vir a transformá-la na mais longeva líder política da Alemanha contemporânea. “Eu poderia votar em seu favor, mas não em favor do Partido Democrata-Cristão (CDU)”, diz a professora, eleitora do Die Linke, de esquerda radical, depois de se decepcionar com o Partido Social-Democrata (SPD). “Em Templin nós não gostamos muito da política de Merkel”, explica.

A professora não exagera quando fala no desamor dos moradores da cidade, situada a 77 quilômetros ao norte de Berlim, não longe do Mar Báltico. No município rural de 16 mil habitantes, de tendência progressista, o prefeito eleito é Detlef Tabert, do Die Linke (A Esquerda), que em sua última disputa teve nada menos de 63,4% dos votos.

Se não conta com apoio político, a chanceler é mesmo assim apreciada pelos moradores de Templin por sua personalidade humilde. “Ela é muito respeitada pela pessoa que é, por sua discrição e pela forma como toma conta de sua mãe. Ela vem à cidade com muita frequência, e isso provoca um respeito grande da comunidade”, diz o aposentado Wernea Forth, ex-professor de matemática de Marcus, irmão de Angela. “Além disso, há uma coisa que nunca ninguém na Alemanha imagina que Merkel possa se envolver: corrupção. Você pode imaginar com qualquer pessoa, mas não com ela.”

Filha de um pastor protestante, Horst Kasner, e de Herlind Jentzsch, uma professora de inglês e latim, Angela mudou-se para o município em 1957, aos 3 anos. Enquanto milhares de alemães orientais sonhavam com a oportunidade de migrar para a Alemanha Ocidental, seu pai fez, por opção, o trajeto inverso, deixando a próspera Hamburgo para assumir o comando de um seminário pastoral no interior profundo da Alemanha Oriental.

“Horst era socialista convicto e fazia parte de um grupo pastoral que foi ao leste para fazer parte da construção do sistema socialista na Alemanha, o programa de ação Für ein besseres Deutschland (Por uma Alemanha melhor). Mas não quer dizer que não fosse um crítico. Nos anos 80 estava claro para ele que as coisas iam mal na Alemanha Oriental”, conta Jacqueline Boysen, cientista política da Academia Evangélica de Berlim e biógrafa da chanceler alemã.

Merkel foi transferida para Leipzig, onde estudaria Física na Universidade Karl-Marx – chegando ao doutorado. Lá conheceu seu primeiro marido, o também físico Ulrich Merkel, com quem viveu entre 1977 e 1982. Foi então, na vida adulta, que aprofundou a busca por sua identidade política, primeiro frequentando reuniões do grupo social-democrata, e a seguir identificando-se no interior do movimento oposicionista, de perfil burguês, no qual militou. Sua ficha no Ministério da Segurança de Estado (Stasi), a polícia política do país, aponta a futura chanceler como hostil à Alemanha Oriental e ao comunismo e apoiadora do sindicato polonês reformista Solidariedade. 

Na opinião de moradores de Templin e também de sua biógrafa, a conjunção da origem familiar evangélica e despojada e da vida no leste socialista durante a Guerra Fria – e o consequente contato permanente com a ideologia e o Estado onipresentes – forjaram o caráter pessoal e político da chanceler, considerada uma das personalidades mais influentes do mundo. Simples a ponto de cozinhar para a família em seu apartamento em Berlim, a chanceler vê a política com pragmatismo, não como dogma ideológico. 

Foi assim que Merkel conseguiu modernizar o Partido Democrata-Cristão (CDU) e devolvê-lo ao poder, ao bater o social-democrata e reformista Gerhard Schroder em março de 2004, assumindo pela primeira vez a chefia do governo da maior potência econômica da Europa. “A CDU era um partido démodé. Merkel analisou bem que havia um fosso entre o interesse dos jovens, de famílias, de empreendedores, do meio educativo, e o programa da CDU. Ela soube adaptá-lo às preocupações e necessidades da sociedade”, entende Jacqueline Boysen.

Merkel: Europa não pode contar só com EUA e Reino Unido

Sintonizada com seu tempo, a chanceler não resiste às grandes transformações sociais, mas as implementa com calma. Um exemplo foi a decisão de abandonar a energia nuclear, ou ainda a adoção do casamento homossexual, aprovado em menos de uma semana de debates, contra a vontade de parte de seu partido no Parlamento e sem manifestações de rua. “Merkel é muito hábil para sentir as mudanças na opinião pública e para incorporá-las como bandeiras de seu partido”, avalia Stefan Seidendorf, cientista político e diretor-adjunto do Instituto Franco-Alemão de Ludwigsburg.

É esse caráter simples, ilibado, pragmático e marcado por um reformismo moderado que explica o sucesso eleitoral de Merkel nos últimos 12 anos. Soma-se a isso uma gestão econômica sólida e próspera, que permitiu ao país zerar seu déficit público e atravessar a crise brutal da zona do euro sem sofrer abalos. Tanta eficiência faz a maior parte do eleitorado colocar em segundo plano a gestão da crise dos refugiados de 2015, quando foi mais criticada por abrir as fronteiras a mais de 800 mil estrangeiros.

Pesquisas indicam que ela poderá escolher com que partido formará seu próximo governo: o liberal (FDP), o ecologista (Verde) ou, em última hipótese, mais uma vez com o SPD. “A questão não é se Merkel vencerá, mas com que partido será feita a próxima coalizão”, diz a analista de risco político Famke Krumbmüller, da consultoria OpenCitiz.

 

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Com Macron, desafio de Merkel será reformar Europa

Merkel deve fazer avançar reforma institucional de Bruxelas, apesar de visão divergente entre Alemanha e França, dizem especialistas

Andrei Netto, Enviado Especial / Templin, O Estado de S.Paulo

22 Setembro 2017 | 05h00

Prestes a conquistar sua quarta vitória consecutiva nas eleições gerais na Alemanha, a chanceler Angela Merkel terá como maior desafio de seu futuro mandato uma questão internacional: a reforma institucional da União Europeia. Ao lado do presidente da França, Emmanuel Macron, com quem ainda tem divergências, mas ótima relação, a chefe de governo se prepara para lançar as bases de uma transformação profunda de Bruxelas – cujo conteúdo ainda é desconhecido.

A perspectiva de reorganização das instituições do bloco econômico foi aberta pela vitória de Macron nas eleições presidenciais de maio. Pró-Europa e favorável a mais integração, o francês disputou uma eleição tida como crucial para a sorte da União Europeia e venceu todos os candidatos eurocéticos, de extrema direita à esquerda radical. 

Reformista, Macron prometeu mudanças em Bruxelas e encontra na chanceler da Alemanha a parceira ideal para levar as transformações adiante. “As condições para reformar a UE são melhores do que nunca. O primeiro elemento favorável é que Macron é muito pró-europeu e quer reformar as instituições. O segundo elemento é o Brexit. Por fim, Merkel entrará em seu último mandato. Creio que ela deseja preparar seu legado”, avalia Famke Krumbmüller, da consultoria OpenCitiz.

“O mais importante e mais urgente na relação entre Macron e Merkel é a reforma das instituições da UE. A França e a Alemanha têm visões opostas de como a UE deveria se organizar, e provavelmente não será nem como a França deseja, nem como a Alemanha quer. Mas será feito.”

Para Heinrich Oberreuter, cientista político da Universidade de Passau e próximo do Partido Democrata-Cristão, de Merkel, o próximo governo da chanceler terá mesmo de lidar com a reforma da UE. “Creio que seja cedo para dizer se Merkel vai estar próximas às ideias de Macron”, diz, referindo-se à criação de um ministro europeu da Economia e de um Parlamento da zona do euro, propostas francesas. “Há muitas questões sobre a UE na Alemanha, e uma maioria no país não quer uma integração ainda maior. Também será preciso olhar para os países do Leste, que são muito mais nacionalistas em função de suas experiências com a União Soviética.”

Stefan Seidendorf, cientista político do Instituto Franco-Alemão de Ludwigsburg, cita a reforma da UE como mais um exemplo do pragmatismo político da chanceler. “O discurso de Merkel mudou e agora ela faz parte dos que querem ir em frente nas reformas. Mas sua prática é a passos pequenos, sempre com maioria, evitando ficar em minoria”, diz o especialista. “Se houver uma maioria em favor de reformas profundas, as reformas ocorrerão. Caso contrário, ela vai seguir pragmática.” 

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