Marcela Betancourt/Acervo Pessoal
Marcela Betancourt/Acervo Pessoal

'Em todo o mundo, as mulheres têm medo'

Ativista chilena que realizou performance sobre a violência contra a mulher em frente ao Estádio Nacional comenta a luta feminista na América Latina

Entrevista com

Marcela Betancourt, ativista chilena

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2020 | 05h00

“Em todo o mundo, as mulheres têm medo”. A frase da chilena Marcela Betancourt, 48 anos, foi dada para explicar como a performance “Um violador em seu caminho” - de um grupo de meninas de Valparaíso - ganhou as ruas do Chile e de diversos países no ano passado. “Todos os anos as mulheres comemoram esse dia e dessa vez é um ano de movimentação social. É um momento importante para denunciar muitas coisas. É importante esse grito de mudança”, afirma ao Estado a ativista.

A partir deste domingo, 8, grupos feministas retomam marchas e paralisações no Chile para pedir políticas públicas e punições que impeçam o feminicídio. Outras pautas, como o direito ao aborto e maior participação política, também serão levadas às manifestações. 

Como conheceu o coletivo das meninas Las Tesis?

Em dezembro do ano passado, depois de dois meses do início dos protestos. No Chile, ainda temos muitos abusos de direitos fundamentais, não temos educação gratuita, a aposentadoria é muito ruim, então os cidadãos foram para as ruas. A transformação social não tem incluído o feminismo, o direito das mulheres. Então as meninas de Valparaíso (Las Tesis) fizeram uma performance para passar uma mensagem de como somos abusadas e tratadas como culpadas por esse abuso. E elas fizeram algo que já há muito sabemos, falaram do Estado como cúmplice porque não fornece cuidados com o bem-estar da mulher. A polícia tem violado os direitos humanos e, no caso das mulheres, essa violação vem sempre com cunho sexual. Muitas meninas foram colocadas nuas nas ruas. Las Tesis faz essa denúncia. Agora, muitas mulheres da minha idade estão olhando para essa nova geração, que tem um ímpeto diferente, a não aceitação do abuso contra a mulher. Minha geração muitas vezes teve de aguentar abusos, de ficar calada, de aguentar a ditadura.

E como seu grupo decidiu atuar?

Fizemos um chamado para repetir a performance em frente ao Estádio Nacional (na capital Santiago). E por que lá? o Estádio Nacional foi um centro de abuso durante a ditadura. Sempre que se tem um documentário sobre a ditadura, por exemplo, esse local é exibido e vários homens vão até lá mostrar o que aconteceu. Mas não foi só homem que sofreu lá, as mulheres também. Nossa performance foi uma homenagem a essas mulheres assassinadas lá. Fizemos o convite e cerca de 10 mil mulheres participaram. Achamos que iriam umas 45, 50, mas no fim apareceram 10 mil. Somos um grupo que está no começo e decidimos fazer parte desse processo de transformação e atuar em outros temas também, como a paridade de gênero. 

Falando da paridade de gênero, é uma vitória a aprovação de paridade de gênero para escrever uma nova Constituição?

O que acontece agora é um resultado de décadas de trabalhos das feministas. Somos mais um grupo representante disso. Na década de 1920, começamos a lutar pela participação na eleição. Desde então, temos organizações feministas surgindo. E agora somos uma a mais. No Chile, nunca tivemos uma Constituição cidadã, sempre a mesma oligarquia que decide e muitos direitos não são respeitados. Ainda temos a Constituição da ditadura de Pinochet. Agora é um momento histórico para mudar a Constituição com paridade de gênero. A mulher tem que ficar dentro dessa transformação, não podemos ficar segregadas novamente. 

Para realizar a performance, vocês precisaram conversar com as meninas de Valparaíso?

Foi uma iniciativa de muitas mulheres do nosso grupo de amigas. Nem conhecemos pessoalmente as meninas de Las Tesis. Elas são muito generosas porque colocam a sua arte à disposição das mulheres para esse momento de denúncia. Enviamos a elas uma mensagem que foi respondida de forma muito generosa. Temos muito respeito ao trabalho delas. 

Foi uma surpresa ver esse movimento se espalhar por vários países?

Foi uma explosão muito interessante. E isso acontece porque em todo mundo as mulheres têm medo, medo de caminhar na rua sozinhas, de pegar um uber de noite, de ficar por último no trabalho, Muitas mulheres sofrem abusos dentro de seus próprios relacionamentos. Essa explosão é assim porque temos um elemento em comum: o medo de caminhar sozinhas. 

Qual a importância desse dia internacional da mulher?

A gente se soma à convocatória do coletivo 8 M aqui no Chile e devemos ir para as ruas no dia 8 de março. Todos os anos as mulheres comemoram esse dia e dessa vez é um ano de movimentação social. É um momento importante para denunciar muitas coisas. É importante esse grito de mudança. A massividade que vai ter será importante também. Acreditamos que a polícia não vai reprimir, mas não sabemos o que vai acontecer.

 

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