Alexander Zemlianichenko/AP
Alexander Zemlianichenko/AP

Em torno da Ucrânia, EUA e Rússia travam guerra de sinais para evitar a guerra real

Ambos os lados tentam convencer o outro de que o custo do conflito é elevado demais. Trata-se de um jogo complexo, jogado com ambiguidades deliberadas, o que eleva o risco de erros de cálculo

Max Fisher / The New York Times, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2022 | 10h00

WASHINGTON - Enquanto seu impasse sobre a Ucrânia continua, Moscou e Washington estão jogando um jogo cada vez mais arriscado e cada vez mais complexo, de emitir sinais para tentar garantir seus objetivos sem disparar nenhum tiro.

A diplomacia tradicional é apenas um componente desta dança. Movimentos de tropas, alertas para sanções e leis, fechamentos de embaixadas, encontros entre líderes e vazamentos de informações de inteligência destinam-se, em parte, a testar cada país a respeito de sua disposição de levar adiante certas ameaças ou aceitar certos riscos.

É uma forma de negociação em que há muito em jogo, conduzida por ações tanto quanto por palavras e destinada a definir o futuro da Europa tão conclusivamente como por uma guerra, ao telegrafar o possível conflito em vez de travá-lo diretamente.

A Rússia, ao deslocar milhares de soldados do extremo oriente do país para sua fronteira com a Ucrânia, espera convencer Washington e Kiev que está disposta a travar uma grande guerra para garantir suas demandas de segurança pela força — e então seria melhor para americanos e ucranianos atender às demandas russas pacificamente.

O governo de Joe Biden, ao afirmar que a invasão da Rússia pode ser iminente, chegando até a fechar sua embaixada em Kiev e prometendo retaliação econômica, sinaliza que Moscou não pode esperar concessões desesperadas dos americanos, o que torna uma maior escalada menos proveitosa.

Houve uma saraivada de gestos do tipo. A Rússia realizou exercícios militares no Mar Negro, insinuando que poderia impedir rotas marítimas comerciais. O presidente Biden emitiu declarações conjuntas com líderes europeus, expressando que os aliados não hesitam em relação a sanções que também poderiam prejudicar a Europa.

Quanto mais ambos os lados tentam fazer de suas ameaças críveis, porém, por exemplo realocando tropas, mais eles arriscam um erro de cálculo que poderia sair de controle.

Cada lado também cultiva ambiguidades a respeito do que aceitará ou não, fará ou não, na esperança de forçar o adversário a preparar-se para qualquer eventualidade, desperdiçando suas energias.

A Casa Branca afirmou que o presidente russo, Vladimir Putin, poderia decidir invadir nesta semana, esvaziando sua cuidadosa obscuridade e ao mesmo tempo demonstrando, especialmente para os cautelosos europeus, que qualquer invasão seria iniciativa da Rússia, em vez de resposta a alguma provocação externa.

Na terça-feira, Moscou mobilizou-se para criar mais confusão, retirando algumas forças enquanto continuava seus exercícios de guerra e Putin acusava a Ucrânia de genocídio contra a nativa minoria russófona que habita o país. Ao oscilar simultaneamente entre desescalada e invasão, Moscou pressionou mais o Ocidente a preparar-se para ambas.

“Essa dinâmica é muito volátil”, afirmou a cientista política Keren Yarhi-Milo, da Universidade Columbia, que estuda as maneiras que países emitem sinais e mobilizam-se em meio a crises. 

Uma gama de fatores particulares a esta crise, acrescentou ela — culturas políticas diferentes, públicos variados, incerteza crescente — “tornam a sinalização, neste caso, muito, muito difícil”.

O resultado é uma cacofonia diplomática quase tão difícil de navegar quanto a guerra em si, com riscos igualmente elevados.

Jogos de persuasão

Com seus posicionamentos, Moscou e Washington tentam resolver duas notáveis questões a respeito de um possível conflito, cada qual para seu próprio benefício. Uma invasão russa traria a Moscou mais recompensas do que malefícios? E o Ocidente teria menos tolerância do que a Rússia às dores das sanções propostas por Biden e as abandonaria?

Se Moscou for capaz de convencer Washington de que a resposta para ambas as perguntas é “sim”, então Biden e seus aliados seriam, em teoria, forçados a concluir que seria melhor fazer qualquer concessão que impeça a Rússia de lançar uma guerra.

Mas se Washington for capaz de persuadir Moscou de que ambas as respostas são “não”, então Putin terá todo incentivo para evitar perdas e recuar de sua ameaça.

Putin tem sido ambíguo a respeito do que considera uma invasão bem-sucedida à Ucrânia. E movimentos como sua recente visita à China ou a bravatas de seus embaixadores, fazendo pouco das eventuais sanções, sinalizam que ele está disposto e é capaz de lidar com custos no futuro próximo.

É evidente que, se a guerra fosse realmente tão vantajosa, já poderia ter começado, o que é uma das muitas pistas de que Putin pode, em parte, estar blefando, apesar de ser impossível afirmar em que medida.

Biden, de sua parte, mandou armamento para a Ucrânia, mensagem que ele tornaria qualquer conflito mais doloroso para a Rússia, e delineou detalhadamente as sanções retaliatórias. Ele sugeriu unidade do Ocidente a respeito das sanções, o que pode ser um blefe tanto quanto a ameaça de guerra de Putin.

O governo Biden também tornou público o que afirma ser planos russos de um falso pretexto para a guerra, indicando que qualquer estratégia do tipo será rapidamente desmascarada e tornando o recurso menos atrativo.

Para Entender

Entenda a crise entre Rússia e Otan na Ucrânia

O que começou como uma troca de acusações, em novembro do ano passado, evoluiu para uma crise internacional com mobilização de tropas e de esforços diplomáticos

Mas ameaças e blefes funcionam melhor quando apoiados por ações, o que aumenta o risco de uma guerra que nenhum dos lados queira verdadeiramente. E esses esforços complicam-se pela necessidade de cada lado de persuadir públicos variados a respeito de pontos contraditórios.

Biden deve persuadir Putin de que as sanções do Ocidente seriam automáticas e severas, enquanto também convence os europeus, que arcariam com grande parte desse custo, de que as sanções não os afetariam tão duramente nem seriam impostas sem seu consentimento.

De maneira similar, Putin busca mostrar-se pronto para a guerra aos líderes ocidentais, enquanto convence os russos avessos à guerra que está sendo arrastado para o conflito, por exemplo com falsas alegações de agressões americanas ou ucranianas.

Mas os líderes com frequência têm dificuldade para diferenciar quais declarações Putin quer que eles levem a sério e quais o russo espera que eles ignorem enquanto bravatas para consumo doméstico, alertou Christopher Bort, ex-oficial de inteligência da CIA, num artigo para o Fundo Carnegie para a Paz Internacional.

A "torrente de inverdades” do Kremlin a respeito da Ucrânia, acrescentou Bort, arrisca convencer líderes de que os aperitivos diplomáticos da Rússia podem ser ignorados, por não passarem de um disfarce para uma invasão que Moscou já decidiu lançar — possivelmente liquidando a possibilidade de uma alternativa à guerra.

Perdido na tradução

“O sistema de vocês é muito mais aberto do que o nosso”, afirmou Alexander Gabuev, pesquisador-sênior do Centro Carnegie Moscou. “Isso produz muito mal-entendido.”

Em razão da tomada de decisões no Kremlin ser dominada por poucas autoridades militares e de inteligência, afirmou Gabuev, há uma tendência em assumir que Washington opera da mesma maneira.

Comentários informais de comandantes militares americanos recebem importância especial em Moscou, enquanto congressistas que orientam grande parte das políticas de  Washington são ignorados.

Esses mal-entendidos culturais, acrescentou Gabuev, têm piorado consideravelmente nos anos recentes, enquanto Washington e Moscou expulsam diplomatas mutuamente e encerraram vários intercâmbios extraoficiais, prejudicando a visão que têm da política um do outro.

Isso nem sempre é perigoso. Muitos em Moscou, assumindo que Biden opera como Putin, acreditam que Washington produziu a aparência de conflito com a intenção de declarar uma falsa vitória americana, enquanto o mais razoável Putin recua tropas que insistiu ser defensivas, afirmou Gabuev.

Esse mal-entendido facilita significativamente a possibilidade de Putin retirar seus soldados. E muitos na Rússia veem o Ocidente como agressor e, por isso, veriam um conflito evitado como um triunfo de Putin, não sua rendição.

Ainda assim, quanto menos Washington e Moscou se entenderem mutuamente, mais difícil será para eles decifrar sinais e antecipar reações um do outro.

“O círculo de confiança do presidente russo consolidou-se ao longo do tempo, isolando-o de informações que não correspondam às suas crenças iniciais”, escreveram os acadêmicos Adam Casey e Seva Gunitsky na revista Foreign Affairs.

À medida que o núcleo próximo a Putin diminuiu, escreveram eles, ficou cada vez mais dominado por aduladores que dizem ao líder o que pensam que ele quer ouvir e por comandantes de forças de segurança que tendem a ser belicosos e desconfiados em relação ao Ocidente.

Putin dificilmente seria o único nessa posição: pesquisas constatam que homens-fortes são mais propensos, justamente por essa razão, a iniciar guerras e a perdê-las.

Então, o que Washington assume como ameaça ou blefe, por exemplo, dar de ombros a ameaças de sanções ou sugerir que alguns ucranianos louvariam os libertadores russos, pode refletir uma crença sincera causada por disfuncionalidade política.

“A informação que chega a Putin é, na melhor das hipóteses, fragmentada, e sanções são um tópico altamente técnico, não são compreendidas muito bem nem mesmo em  Washington”, afirmou Eddie Fishman, que trabalhou como alto funcionário do governo Barack Obama para políticas de sanções.

Até agora, ambos os lados evitaram qualquer mal-entendido óbvio. Isso pode decorrer em parte da extensão da crise, que permitiu a cada governo telegrafar repetidamente suas intenções e capacidades. Mas este mesmo fator — o tempo — também cria mais oportunidades para o erro, conforme cada lado reforça sua posição.

“A cada dia que não resolvermos isso estamos aumentando a probabilidade de algo dar errado”, afirmou Yarhi-Milo, a especialista em relações internacionais. “Estamos pondo à prova os nervos de muita gente ao mesmo tempo”, acrescentou ela. “Isso pode acabar mal, muito rapidamente.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.