Ramon Espinosa/AP
Ramon Espinosa/AP

Em um ano, 185 mil cubanos vão ao exterior

Previsão de que viagens internacionais levariam a uma guinada política e econômica fracassou

Peter Orsi, Associated Press

18 de janeiro de 2014 | 02h07

HAVANA - Em fevereiro do ano passado, Amalia Reigosa Blanco experimentou pela primeira vez a corrida de um avião decolando. Visitou lojas de roupas da capital da moda da Itália e percorreu ruas calçadas de paralelepípedo ecoando uma língua desconhecida. Descobriu como é a neve. E depois voltou para Cuba.

No fim de novembro, 185 mil cubanos tinham partido para o exterior em 258 mil viagens, informou um funcionário da migração no mês passado. Isso representa um aumento de 35% sobre o ano anterior.

"Espero poder sair de novo em férias", disse a estudante de línguas, de 19 anos, abrindo um largo sorriso ao lembrar sua primeira viagem ao exterior para visitar a família em Milão. "Adoraria conhecer Paris."

Amalia foi uma das primeiras em Cuba a aproveitar as novas normas sobre viagens que esta semana completam um ano. Com elas, o governo eliminou um requisito de visto de saída que durante cinco décadas dificultava a ida ao exterior da maioria dos moradores.

Durante muito tempo, a medida foi justificada como necessária para impedir a evasão de cérebros já que médicos, atletas e outros cidadãos talentosos eram atraídos para fora da ilha socialista com a promessa de riquezas capitalistas.

Um ano depois da nova lei, uma quantidade recorde de cubanos viaja. Alguns não voltaram, mas não há sinais do êxodo em massa que chegou a ser previsto. Dissidentes estão saindo, voltando e melhorando seu perfil internacional - e sua condição financeira. Mas houve pouco impacto em sua capacidade de realizar uma transformação política em casa.

"Estou certo de que houve uma resistência interna à reforma migratória. Sei que em alguns casos, ministros disseram 'todos os médicos vão sair' e posso imaginar algumas pessoas no aparelho ideológico dizendo 'se deixarmos os dissidentes viajar, isso vai ser terrível'", disse Carlos Alzugaray, um ex-diplomata e conhecido intelectual cubano. "O que a vida mostrou? Eles fizeram a reforma e não aconteceu nada."

Cerca de 66 mil cubanos viajaram para os EUA durante o período, uma cifra que aparentemente inclui todos, de turistas a moradores com vistos de imigrantes, de pesquisadores em intercâmbios acadêmicos a cidadãos com dupla cidadania espanhola e cubana que podem entrar nos EUA sem visto.

Ania Roman, de 46 anos, funcionária de uma loja de cosméticos, foi a Miami em março, mas mesmo as ruas limpas e calmas do bairro onde seu irmão vive não foram atrativo suficiente para ela ficar. "Por que não fiquei? Simplesmente porque tenho uma mãe de 68 anos aqui e meus filhos. Não vou deixá-los."

Retorno. Somente 40% dos viajantes, ou 26 mil, retornaram à ilha até agora. Isso significa que 40 mil cubanos continuam no exterior - comparável ao número de imigrantes cubanos para os EUA em 2012.

Não há maneira de conhecer seus planos, mas muitos provavelmente acabarão retornando à ilha, após encerrar o ano acadêmico, por exemplo, ou aproveitar uma nova provisão da reforma sobre viagens que permite que os cubanos fiquem no exterior por dois anos sem perder seus direitos de residência.

Cubanos que permanecerem nos EUA por pelo menos um ano se qualificam a ter residência neste país e isso significa que pela primeira vez alguns poderão levar vidas "binacionais".

Ainda há barreiras às viagens, como o preço das passagens aéreas e a dificuldade de obter vistos de países que veem os cubanos como possíveis imigrantes. Mas parece inevitável que a lei acarretará um pequeno aumento da emigração, ao menos enquanto a economia cubana permanecer tão fraca. Outros partirão para escapar do comunismo, embora os emigrantes mais recentes tenderam a sair mais por oportunidades financeiras do que por liberdade política. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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