Em uma cidade negra, poder branco está enraizado

CENÁRIO: Jeff Smith / NYT

Jeff Smith/NYT, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2014 | 02h01

Se quisermos entender as disparidades do poder racial que vimos em Ferguson, temos de compreender que esta questão não se refere só a negros e brancos, mas também a uma sociedade verde. A maioria das cidades do Cinturão da Ferrugem, onde se concentram as indústrias metalúrgicas, siderúrgicas e automobilística, perdeu boa parte de sua população desde os anos 60. A composição demográfica da população de Ferguson mudou rapidamente: em 1990, era 74% branca e 25% negra; em 2000, 52% negra e 45% branca; em 2010, 67% negra e 29% branca.

O Condado de St. Louis é composto por 90 municípios, a maioria deles com prefeitura e polícia próprias. Muitos dependem do faturamento de bloqueios de trânsito e das multas decorrentes. Segundo um estudo da ONG Melhor Juntos, Ferguson tira quase 25% de seu faturamento de taxas e emolumentos dos tribunais.

Com uma polícia fundamentalmente branca que depende de maneira desproporcional do dinheiro apurado das multas de trânsito, os negros são obrigados a parar, são intimados e presos numa proporção muito maior em relação à da população negra da cidade.

No ano passado, em Ferguson, 86% dos bloqueios, 92% das revistas e 93% das prisões foram de cidadãos negros - apesar do fato de os policiais terem encontrado mais contrabando com motoristas brancos (34%) do que negros (22%). Isso aumenta a desigualdade, porque os negros com dificuldades econômicas contribuem mais com recursos para o governo local do que os brancos relativamente ricos.

Igrejas, organizações distritais democráticas e outras instituições cívicas mobilizam os eleitores em circunscrições negras. No entanto, como somente nos últimos 15 anos os negros se mudaram para locais como Ferguson, é menor o número de comunidades negras com organizações cívicas que funcionam. Isso contribui para explicar por que Ferguson, de maioria negra, tem uma estrutura de poder quase totalmente branca: um prefeito branco e um conselho escolar com seis membros brancos e um hispânico, que recentemente suspenderam um jovem superintendente negro conceituado - que depois pediu demissão - e uma força policial em que os negros são apenas 6% dos agentes.

Muitas cidades da região - e os bairros de classe operária mais próximos do centro em todo o país - se assemelham a Ferguson. Os habitantes brancos mais antigos consolidaram seu poder e continuam dominando as Câmaras Municipais e os conselhos escolares, apesar da enorme transformação na composição demográfica. Eles mantiveram o controle dos empregos graças ao clientelismo e aos contratos municipais concedidos aos aliados.

O clube dos trabalhadores da região, cujos membros são sindicatos majoritariamente brancos (encanadores, eletricistas etc.), beneficiou-se desses arranjos e manobra uma poderosa operação que arregimenta eleitores para apoiar candidatos brancos. Quanto maior o número de contratos municipais obtidos por uma organização, mais generoso será o financiamento das campanhas para reeleição. Os contratos de construção, de coleta de lixo e outros de longo prazo com empresas excluíram tradicionalmente os negros em termos de empreendimentos, em geral, e também da força de trabalho. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Jeff Smith é professor de política urbana na New School e ex-Senador por Missouri.

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