Em uma rara reviravolta, Rússia inocenta jornalista após comoção pública

Em uma rara reviravolta, Rússia inocenta jornalista após comoção pública

Ivan Golunov foi preso no dia 6 de junho sob acusação de tráfico de drogas

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2019 | 17h33

MOSCOU - A polícia russa abriu mão nesta terça-feira, 11, do inquérito que acusava o jornalista Ivan Golunov de tráfico de drogas. A reviravolta é um raro exemplo de decisão tomada pelo governo do país com base na opinião pública, que preparou um grande protesto na cidade em defesa do profissional. O jornalista, preso na quinta-feira, 6, é conhecido na Rússia por expor casos de corrupção cometidos pela polícia de Moscou. 

O recuo na acusação foi motivada por uma página de Facebook, na qual quase 25 mil pessoas marcaram de ir às ruas na quarta-feira, 12, em solidariedade a Golunov. Como não havia autorização para acontecer, a marcha trouxe um problema às autoridades russas, que poderiam usar a força para controlar a manifestação, insuflando ainda mais os protestantes, ou deixar o evento ocorrer e, assim, demonstrar fraqueza perante os opositores do Kremlin

A midiatização do caso e comoção da opinião popular mudou de forma pouco característica a posição das autoridades, preocupadas com o potencial rebuliço nas redes sociais em um momento que o presidente Vladimir Putin vem enfrentando insatisfação do povo russo com o padrão de vida do país.

O ministro do Interior, Vladimir Kolokoltsev, declarou o encerramento da acusação por falta de evidências. O jornalista, segundo ele, deve ser liberado da prisão domiciliar ainda nesta terça-feira. Kolokoltsev afirmou ainda que alguns policiais foram temporariamente afastados do serviço para serem investigados e que planejava conversar com o presidente russo sobre eles. “Eu acredito que os direitos de todo cidadão, independente de sua profissão, devem ser protegidos”, disse.

A liberdade do jornalista animou seus apoiadores. Galina Timchenko, diretora do portal Medusa, no qual Golunov trabalha, comentou à agência de notícias Interfax que estava feliz e agradeceu a todos que fizeram pressão. “Nós entendemos perfeitamente que isso só foi possível graças ao apoio de centenas de milhares de pessoas”, afirmou. O ativista e político opositor Alexei Navalny, outro crítico ao tratamento dado pela polícia ao jornalista, também comemorou. “Isso é uma notícia fantástica. Um exemplo inspirador do que pode ser alcançado com a solidariedade a alguém que se encontra em perigo”, escreveu.

Segundo a Classificação Mundial de Liberdade de Imprensa de 2019, levantada pela organização Repórteres Sem Fronteiras, a Rússia é um dos piores lugares do mundo para ser jornalista, ocupando a 149º posição de 179 países. A prisão de Ivan Golunov causou uma grande comoção entre os veículos midiáticos, que trabalham sob ameaças e perseguições do governo do país, levando jornalistas a protestar diariamente em frente à delegacia. Na segunda, 10, os três principais jornais do país, Vedomosti, Kommersant e RBK, imprimiram em suas primeiras páginas uma mensagem de solidariedade, com a manchete “Eu sou/nós somos Ivan Golunov”./REUTERS

 

 

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