Em uma semana, o ‘centro do mundo’

Vila em que Mandela cresceu receberá seu corpo

QUNU, ÁFRICA DO SUL, O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2013 | 02h07

Em Qunu, vilarejo rural sul-africano onde Nelson Mandela passou sua infância, os habitantes preparam-se solenemente para o retorno de seu filho mais ilustre, que será sepultado no dia 15 na terra de seus antepassados. Os idosos desta aldeia caminham cabisbaixos e moderam a voz para falar do ícone da luta contra o apartheid, morto na quinta-feira aos 95 anos.

"Estamos de luto. Ele merece todo o nosso respeito", declarou o chefe Mfundo Mtirara, sobrinho de Mandela.

Nessa aldeia escondida entre as colinas da Província Oriental do Cabo, a 877 quilômetros de Johannesburgo, o pudor proíbe uma expressão ruidosa das emoções. Nada de cânticos, portanto, para lembrar Madiba - o nome do clã de Mandela, utilizado de forma afetuosa para se referir a ele - nem de vigílias à luz de velas. Tampouco haverá danças.

A casa de Mandela, que domina essa paisagem descrita com ternura em suas memórias, é sóbria e não se vê nenhuma agitação ao seu redor. Nada que lembre a efervescência que reina nos arredores de sua residência de Johannesburgo, onde centenas de anônimos deixavam ontem flores e mensagens de pêsames. Alguns soldados e policiais montam guarda em suas imediações. Como sempre.

A estrada asfaltada que passa em frente à casa foi fechada ao público, já prevendo a afluência de visitantes. O chefe Mtirara foi o encarregado de anunciar a notícia da morte a alguns dos parentes de Mandela, que nasceu a 22 quilômetros dali, em Mvezo, em 1918.

Qunu será o centro do mundo no dia 15 de dezembro, quando os líderes mundiais assistirem ao enterro do Prêmio Nobel da Paz 1993. A aldeia não imagina o "furacão" que se aproxima. Ontem, uma delegação do povoado viajou a Johannesburgo para se reunir com parentes de Mandela e se informar sobre a organização do funeral.

Na aldeia, homens velhos fumam cachimbos e andam devagar, parando para falar entre eles sobre a morte de Madiba: "Nossos antepassados nos entregaram ele. Agora, ele volta para eles", comentou Albert Njokweni, um pastor de ovelhas. "Ele teve uma vida longa e difícil, mas foi essa dificuldade que nos trouxe a liberdade. Já é hora de descansar entre seu povo", declarou. "Não acredito que este povoado volte a ver um homem como ele. Estamos agradecidos de poder dizer que era um dos nossos", acrescentou o morador do povoado, que segundo o último censo tem 213 habitantes.

A cidade mais próxima de Qunu é Mthatha, a 30 quilômetros. Tem um museu dedicado a Mandela. As suas bandeiras estão a meio mastro e os retratos de Madiba estão nos postos de iluminação.

Um supermercado pendurou um imenso retrato com a mensagem: "Descanse em paz, Nelson Mandela. Você é uma lenda, um pai e, acima de tudo, nosso líder".

Mandela, apesar de seus 27 anos na prisão e de sua trajetória como líder internacional, nunca perdeu o contato com suas raízes ou com a cultura de seu povo xosa. Descendente colateral de uma linhagem real, Mandela retornará ao seu povoado para descansar no túmulo familiar, com os seus pais e três de seus filhos. / AFP

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