Em vez de suicídio, afegãs buscam o divórcio

Levantamento da ONU diz que 70% das mulheres do Afeganistão são vítimas de violência doméstica; apesar do tabu, 158 se separaram em 2006

Patrícia Campos Mello, O Estadao de S.Paulo

08 de agosto de 2009 | 00h00

Khatera tinha acabado de chegar em casa, contente com seu novo emprego em um salão de beleza, quando recebeu a notícia. "Você vai se casar com seu primo de 65 anos", disse sua madrasta. A menina afegã tinha 13 anos na época. Ela começou a chorar. Não adiantou. Ela tinha perdido o pai e a mãe, e a madrasta precisava de dinheiro - o primo pagaria pela "noiva". Durante três anos, Khatera foi espancada pelo marido, que tem problemas mentais e paralisia em uma das pernas, e pelo irmão dele. "Eles até me queimaram com um espeto de kebab", diz ela, apontando para uma cicatriz na perna. Toda vez que eles perdiam no jogo, ela sabia que ia apanhar.Cerca de 70% das mulheres afegãs são vítimas de violência doméstica, segundo dados do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para Mulheres (Unifem). Até pouco tempo atrás, mulheres como Khatera tinham poucas esperanças de escapar dessa vida de abusos. Muitas cometiam suicídio, ateando fogo a si mesmas. Existe até um hospital na cidade de Herat, no oeste do Afeganistão, especializado em queimaduras de suicidas. Outras mergulhavam nas drogas como o ópio, amplamente disponível no país.Mas, de três anos para cá, foram abertos pelo menos cinco abrigos para mulheres. Esses locais estão ajudando as vítimas a conseguir o divórcio. Antes, quando as mulheres fugiam de casa por causa de violência e procuravam a polícia, frequentemente eram mandadas de volta ou ficavam presas. Agora, elas são encaminhadas para um dos abrigos.Nem sempre é preciso chegar ao extremo de uma separação. "Muitas vezes o aconselhamento de casais funciona, tentamos preservar a família", diz Huma Safi, coordenadora de programas do Mulheres pelas Mulheres Afegãs (WAF, na sigla em inglês), que foi aberto em 2007 e já cuidou de 800 casos de vítimas de violência doméstica. O WAF fornece advogados para que as afegãs possam pedir o divórcio, já que a maioria é analfabeta e não tem recursos. Quando as mulheres estão sob risco de vida, elas vão para o abrigo, que fica num bairro residencial de Cabul.Divórcio ainda é um enorme tabu no país e poucos juízes o concedem às mulheres. Mesmo assim, os números vêm crescendo, de 14 em 2005 para 158 em 2006, segundo os dados mais recentes disponíveis. Segundo a lei afegã, o homem não precisa do aval da mulher para se divorciar. Mas se uma mulher quiser o divórcio, ela precisa da autorização do marido e tem de provar que ele põe a vida dela em risco, está ausente há muito tempo ou não consegue sustentá-la. Como os homens costumam exigir a guarda dos filhos, muitas preferem aguentar espancamentos.A separação ainda é vista com preconceito. Questionado sobre o que faria se sua mulher pedisse o divórcio, o tradutor Khalid, de Jalalabad, respondeu: "Ela não pode se separar." Mas e se ela se separasse? "Ela seria banida e as pessoas iam bater muito nela." Que pessoas? "Ah, meu pai, eu." Ele diz que, em tese, as pessoas podem se divorciar no Afeganistão, mas ele não conhece ninguém que tenha se separado. "Considerando o Afeganistão de cinco anos atrás, a situação das mulheres melhorou - agora temos entidades de serviços sociais e abrigos e as leis estão sendo reformuladas", diz Wenny Kusuma, diretora do Unifem no Afeganistão. "As mudanças vão levar muito tempo, mas é essencial que os direitos das mulheres façam parte da estratégia de reconstrução."Khatera está no abrigo de mulheres há dois anos, esperando por seu divórcio. Ela tem 18 anos, mas parece muito mais nova.Tem feições orientais, pois é da etnia hazara.Ninguém pode saber onde ela está. "Se meu marido ou a família dele descobrem onde estou, eles vêm me matar." Enquanto não sair o divórcio, ela ainda pertence ao marido. Seu sonho é trabalhar de cabeleireira. Ela faz a maquiagem e corta o cabelo das colegas de abrigo. "Meu caso está progredindo, estou animada." Khatera diz que não quer se casar nunca mais. "Ela está traumatizada, como a maioria das mulheres vítimas de violência", diz Huma. "Mas a realidade é que, no Afeganistão, é difícil sobreviver sem marido - uma mulher solteira não consegue nem alugar um apartamento." O WAF chega a ajudar as mulheres a encontrar novos maridos. Normalmente, homens que são mais pobres, que não têm dinheiro para pagar por uma noiva, mostram-se mais compreensivos.

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